sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Reconquista!

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Raul Lino, o arquitecto da casa portuguesa

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Nascido em 1879, em Lisboa, Raul Lino saiu cedo do país por vontade de seu pai. Partiu primeiro para Inglaterra, em 1890, onde realizou a sua primeira formação num colégio dos arredores de Windsor. Já adolescente, foi para a Alemanha aprender outra língua e estudar arquitectura. Durante os anos que permaneceu em Hannover, Raul Lino conheceu o historiador e arquitecto Albrecht Haupt (1852-1932), em cujo ateliê trabalhou até regressar a Portugal. Esta convivência revelou-se marcante no seu pensamento e na definição de alguns dos princípios que nortearam a sua produção arquitectónica. Com Haupt, grande estudioso da arquitectura renascentista portuguesa, absorveu um espírito historicista e nacionalista de cariz clássico e, simultaneamente, descobriu um Portugal que desconhecia. Outra grande influência, revelada pelo próprio, foi o escritor A.D. Thoreau, cujo livro Walden or life in the woods exalta os valores da vida meditativa, em harmonia e comunhão com a natureza, o acompanhou ao longo da sua vida. A outra influência relevante, que foi igualmente uma paixão, foi a música. Importantes foram também as viagens que realizou: primeiro pelo país, sobretudo pelo Alentejo, na companhia do seu amigo Roque Gameiro, depois, em 1902, por Marrocos. Mais tarde, Raul Lino passaria também, entre outros, pelo Brasil, Moçambique e Itália. Do conjunto da sua produção arquitectónica, o período mais fecundo foi entre 1900 e 1920, quando projectou algumas das suas obras mais emblemáticas, como as designadas “casas marroquinas”, realizadas entre 1901 e 1903 - a casa Montsalvat, para o pianista Alexandre Rey Colaço, a casa de Jorge O’Neill, a casa Silva Gomes e a vila Tanger -, a casa dos Patudos (Alpiarça, 1904), a quinta da Comenda (Outão, 1909), a casa do Cipreste, que projectou para sua habitação, em Sintra (1913) e a loja Gardénia, no Chiado (1917).

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Muralhas fundacionais esbarrondam-se ao primeiro sopro

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“O próprio Património — o nosso património monumental e documental — já nem matrimónio mal-sucedido pode considerar-se.
Muralhas fundacionais esbarrondam-se ao primeiro sopro de invernia. Como castelos de cartas viciadas… E não há quem lhes deite a mão.
O País está a cair aos bocados de cima a baixo, por crime cultural de negligência.”

Linhas de Fogo — Manifesto de Cultura Lusíada para o Terceiro Milénio, Nova Arrancada, 2001.

Um meio à disposição dos partidos

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"O Jornal, em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio à disposição dos partidos; de meio passou a negócio; e, como todos os negócios, não obedece a regras. Todos os jornais são armazéns em que se vendem ao público palavras da cor que mais lhe agradar. Se houvesse um jornal de corcundas, defenderia de manhã à noite a beleza, a bondade, a utilidade dos corcundas. Um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear as opiniões. Assim, todos os jornais serão, em determinado momento, cobardes, hipócritas, ignóbeis, mentirosos, assassinos; matarão ideias, sistemas, homens e por isso mesmo vingarão. Gozarão do benefício de todos os seres dotados de razão: o mal será feito sem que ninguém seja considerado culpado."

Honoré de Balzac
in "Ilusões Perdidas".

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A cidade de Ulisses

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"O turismo na capital portuguesa aumentou exponencialmente, mas esta não é apenas mais uma paragem num qualquer roteiro. É notório que os estrangeiros que nos visitam descobrem algo inesperado, uma magia própria que cria uma atracção poderosa. Muitos apaixonam-se e prometem voltar.
Será esta vontade de regressar um pingo de Saudade emprestada? Escreveu António de Castro Caeiro que “Lisboa como Ítaca no Verão é ventosa. Cheia de espírito.” Mas não apenas no Estio, porque como ele tão bem disse, “há tantas Lisboas quantas as Estações do ano”. É essa corrente cíclica que traz os visitantes e os força a voltar? Que lhes provoca uma necessidade interior de eterno retorno?
Recentemente, tive oportunidade de confirmar esse sentimento no olhar de amigos espanhóis e italianos, que aqui se deslumbraram com uma cidade tão próxima, mas sobre a qual pouco sabiam ou conheciam. Isto porque ainda não a haviam sentido, em toda a sua força primordial.
Este é, afinal, um lugar que não lhes é distante fisicamente, mas do qual estão, estranhamente, tão longe.
Teria razão Fernando Pessoa, quando afirmava que “nada há de menos latino que um português”? Isto porque, para o nosso poeta, “somos muito mais helénicos — capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude”.
O encanto da cidade de Ulisses é imemorial e eterno. É um canto dos deuses, brutal e terno."

Duarte Branquinho
in "O Diabo", 15 de Outubro de 2013.

Karen Freedom Fighters

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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Guerra pela humanidade

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"A noção de inimigo da humanidade é efectivamente uma contradição nos termos dado que, por definição, a humanidade não pode ter inimigos entre os humanos. É por causa disso que as guerras em nome da humanidade resultam indubitavelmente na negação da qualidade de ser humano ao inimigo: bater-se em nome da humanidade leva necessariamente a pôr os seus inimigos fora da humanidade. Ora, contra aquele que foi posto fora da humanidade, tudo se torna permitido. Desde logo, o inimigo desta não é mais um simples adversário do momento, que poderia de igual forma transformar-se amanhã em aliado, mas uma figura do Mal, um «inimigo do género humano», um criminoso a punir, podendo ser empregues todos os meios que permitam subjugá-lo. (...) Combater em nome da humanidade significa, de facto, colocarmo-nos em posição de decretar quem é humano e quem não o é. Tal é o paradoxo: todo o discurso que pretende apagar as fronteiras entre os homens para estender a noção de «nós» à totalidade da espécie humana resulta na recriação, no próprio seio da humanidade, de uma linha de fractura e de exclusão mais radical do que as outras. «Com efeito não é senão com o homem entendido como humanidade absoluta que surge o inverso desse mesmo conceito, o seu novo inimigo específico, o homem inumano (Unmensch)» escreve Schmitt. A guerra em nome da moral é pois o exemplo acabado da guerra mais inumana. O universalismo abstracto faz dos adversários inimigos absolutos e transforma as guerras «humanitárias» em guerras de extermínio."

Alain de Benoist
in «Guerra Justa, Terrorismo, Estado de Urgência e Nomos da Terra — A actualidade de Carl Schmitt», Antagonista, 2009.

Dia d'O Diabo

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Aguenta firme

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Cuidado com as profecias

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"Em 1910, Norman Angell publicou The Great Illusion, um livro que muito rapidamente se tornaria famoso. Era uma profecia positiva, baseada não numa fé cega e desafiadora num Deus transcendente ou numa crença messiânica, mas que apelava para a racionalidade económica, para a evidência dos interesses, para a conjuntura daqueles anos áureos da indústria, do comércio e dos impérios europeus. Tudo para concluir que «a crescente interdependência económica entre as nações tornará a guerra uma coisa do passado».
The Great Illusion foi um sucesso: em poucos meses a obra vendeu milhões de exemplares, foi traduzida em 25 línguas e teve recensões entusiásticas na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na França e na Alemanha.
Quatro anos após a ‘angellica’ profecia sair a público, a Europa entrava na mais sangrenta das guerras e nas esburacadas planícies da Flandres centenas de milhares de jovens ingleses, alemães, franceses e norte-americanos morriam e matavam comandados pela irracionalidade dos políticos e pela desumanidade e estupidez táctica dos chefes militares.
Angell era um tipo especial. Nascera em 1872, numa família da burguesia do Lincolnshire, estudara em França e partira para a Califórnia onde se estabelecera e publicara os primeiros textos. Nestes mostrara-se, económica e politicamente, um convicto internacionalista e um inimigo do nacionalismo e do militarismo.
O núcleo central do The Great Illusion era que a interdependência económica e financeira das nações fazia a guerra irracional, por contraditória com a prosperidade. Se uma parte da dívida pública inglesa estava nas mãos dos alemães, que ganhariam os ingleses em vencer a Alemanha? E porque iriam os alemães atacar os interesses ingleses, arriscando-se a não receber os juros da dívida? Fascinado pelas variáveis económicas — mercados, dinheiros, juros, comércio internacional — Angell pensava que os interesses actuariam sobre os agentes políticos, domesticando as paixões e modificando os comportamentos no sentido da paz e da concórdia perpétuas.
Duas guerras em que os europeus e o resto do mundo se massacrariam destruindo finanças, indústrias e comércio, iriam pôr em questão estas profecias. Mas Angell mostrou-se progressivamente mais realista e logo a seguir à Grande Guerra foi, com John Maynard Keynes, um dos grandes críticos de Versalhes, considerando que as imposições à Alemanha poderiam ter, por desmedidas e iníquas, consequências trágicas e inesperadas. Ganhou o Nobel da Paz em 1933, ano do triunfo de Hitler.
Desde o fim da Guerra Fria que temos várias repetições deste angelismo: Fukuyama, claro, mas também Walter Wriston (antigo patrão do Citicorp), com O Crepúsculo da Soberania em 1992; e Thomas L. Friedman, com a popular sentença que não era possível haver guerra entre dois países com a franchise McDonald’s.
Por sinal, na Jugoslávia e Sérvia havia cerca de 20 restaurantes McDonald’s, desde 1988. É preciso cuidado com as profecias, sobretudo quando se ocupam do futuro…"

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 11 de Outubro de 2013.

sábado, 19 de outubro de 2013

Nova Águia #12

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Assinalando os vinte anos do seu falecimento, o destaque maior deste número da NOVA ÁGUIA vai para António Quadros, “rosto mais visível da Filosofia Portuguesa”, no dizer de Pinharanda Gomes. Coligimos aqui mais de uma dezena de ensaios, que se debruçam sobre os eixos fundamentais da obra deste insigne apologeta das filosofias nacionais – como ele próprio escreveu, contra o universalismo oco da cultura ideológica (ainda hoje) dominante: “A multiplicação das culturas, a heterogeneidade dos pensadores, pelo contrário, aumenta proporcionalmente as tomadas de contacto com o Ser. A existência das filosofias nacionais garante o enriquecimento e a vivacidade das possibilidades de conhecimento dos humanos”.

Por generosa oferta da Fundação António Quadros, que aqui agradecemos, publicamos ainda neste número algumas cartas trocadas entre António Quadros, Perfecto E. Quadrado e Agostinho da Silva. A respeito do autor de Reflexão à margem da literatura portuguesa, antecipamos que, no próximo número, assinalando também os vinte anos do seu falecimento, publicaremos uma extensa série de cartas – cerca de meia centena –, trocadas – por um período de vinte anos, entre 1968 e 1988 –, entre António Telmo e Agostinho da Silva (que desde já agradecemos ao Círculo António Telmo).

Para além de António Quadros, a NOVA ÁGUIA evoca, neste número, outros autores importantes, de diversos modos, para a nossa cultura lusófona – desde logo, Silvestre Pinheiro Ferreira, no bicentenário das suas Prelecções Filosóficas, um marco fundamental da Filosofia Luso-Brasileira, e Kierkegaard, filósofo nórdico desde sempre muito apreciado entre nós. Para além destes, evocamos ainda José Enes, que morreu no primeiro dia de Agosto deste ano, Orlando Vitorino e Eduardo Abranches de Soveral, ambos falecidos há uma década, António José Saraiva, nos vinte anos da sua morte, Cesário Verde, que publicou os primeiros poemas há cento e quarenta anos, José Mattoso, nos seus oitenta anos de vida, Daniel de Sá, no ano da sua morte, e Heraldo Barbuy, no centenário do seu nascimento.

Apesar de todas estas “Evocações”, houve ainda espaço para “Outros Voos” – de Adriano Moreira a António Telmo, do nosso “Futuro” possível à nossa perpétua “Natureza”, da Galiza a Cabo Verde, passando por muitos outros temas. Para além das “Rubricas” habituais – neste número reforçadas pelos “Registos” de Eduardo Aroso –, e não esquecendo o sempre presente “Poemáguio”, publicamos, no “Bibliáguio”, quase uma dezena de recensões, desde logo de dois títulos editados recentemente na Colecção NOVA ÁGUIA. No “Noticiáguio”, por fim, registamos o falecimento do filósofo brasileiro Paulo Mercadante, a inauguração da nova sede da Fundação António Quadros e o balanço do I Congresso da Cidadania Lusófona, para além de outros eventos de relevo. Doze números depois, a NOVA ÁGUIA mantém, pois, o seu voo: preservando, por um lado, a nossa memória e, por outro, abrindo horizontes de futuro.

Em defesa de uma Ideia

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Não esquecemos o Império!

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Mensur

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No início do século XX, quem visitasse as universidades alemãs ou austríacas encontraria facilmente jovens universitários, pertencentes aos Korps (assim se chamam os círculos estudantis), com a sua face ligada ou marcada por grandes cicatrizes, chamadas Schmiss. As Schmiss não são mais do que o resultado do Mensur, um duelo ritual cujas origens remontam ao século XVII, no qual não existe vencedor nem vencido; mais importante do que uma "vítória" é a participação directa. A ideia é mostrar coragem, não por infligir uma ferida mas por ser ferido. O mais estranho, mas também o mais fascinante, é que vencedor é aquele que termina o duelo com a ferida mais bela, mostrando assim que passou a prova. Os dois adversários defrontam-se com a espada, respeitando uma distância fixa, medida ou Mensur; a arma, a espada do Mensur, um pesado sabre, é erguida acima da cabeça e apontada ao rosto do adversário. O objectivo desta modalidade não é provar ser o melhor com a espada. Pelo contrário, trata-se de mostrar quem é o mais capaz de suportar a dor, de encarar com frieza a chegada do golpe. Os mensuren (participantes do Mensur) atacam-se cinco vezes cada, utilizando no entanto algumas protecções para impedir a possibilidade de feridas mortais. O objectivo é ser ferido, e o maior objectivo é a cobiçada Schmiss. As partes mais sensíveis do corpo, em particular os olhos, nariz, orelhas, pescoço, assim como o tronco, são protegidas. É utilizada uma viseira de ferro com protecção para o nariz, assim como golas, ataduras, cintos de couro ou lona acolchoada. Os cortes derivados do duelo são suturados sem uso de anestésicos, já que também fazem parte do Mensur. Actualmente, esta prática pode ser vista como estúpida por muitos, mas para um jovem médico, advogado ou professor do início do século XX, as cicatrizes do duelo eram como uma tatuagem que testemunhava a sua pertença a uma elite social. As cicatrizes mostravam que o jovem tinha dado provas de si, era honrado e tinha educação, sendo um bom partido para desposar. As mulheres eram tão atraídas pela face esquerda da face, na qual se acumulavam as Schmiss, que alguns estudantes se cortavam propositadamente com lâminas. Actualmente, embora tenha perdido a importância de outros tempos, o Mensur ainda se pratica em algumas fraternidades estudantis alemãs.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Procuremos lançar a âncora na vida real

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"O revezamento das gerações é inevitável. Conviria que ele fosse não só revezamento dos homens como, também, o do vocabulário e dos pontos de referência. A tradição a que estamos ligados é a da coragem, da lealdade, da fidelidade à palavra dada, da energia, da firmeza de carácter. O que estimamos e desejamos manter é, pois, uma certa imagem do homem. O que detestamos são as preocupações mercantis, a prioridade dada ao dinheiro pela nossa época, a estéril imagem puramente económica com que se nos apresenta a vida social, o anonimato e o tédio dos grandes formigueiros humanos, as nauseantes e vãs ideologias, as reivindicações mesquinhas e a pressão contínua e repugnante desta luta manhosa da existência colectiva. O que nós repudiamos é uma certa imagem da sociedade. A nossa escolha biológica é mais do que a defesa de uma raça; é muito mais vasta, é muito mais dramática. Sentimos profundamente a nossa condição animal, sentimo-nos profundamente mamíferos e obedecemos às leis não propriamente da nossa espécie mas do género a que pertencemos; estamos fundamente ligados a essas leis, queremos conservá-las; não queremos o formigueiro que nos constroem, não queremos a mutação para a colectividade de insectos superiores que o mundo moderno, colectivista ou liberal, nos prepara. Só desejamos regimes fortes pelo facto de eles imporem regras de salvação pública às forças de destruição e de escravização trazidas pelas modas científicas da produção; queremos que, para além da vida mecânica de escravos que nos reservam, por igual, a ideologia marxista e as normas da produção em série e em concorrência, haja um poder salvador, uma força suprema, que arbitre em favor da humanidade.
Estas perspectivas não são o resultado de uma meditação pessimista. Precisamente pelo contrário: é o facto de eu acreditar no futuro das ideias de que somos portadores que me leva a desejar que a sua apresentação se faça em termos de criar condições de diálogo. Saibamos aproveitar as lições do "blocus" eleitoral. E também dos modelos de que se servem os nossos adversários. “Conhecem o nosso programa?” — dizem os comunistas. E acrescentam: “Venham ver-nos. Nós conversaremos”. Procuremos, como eles fazem, as condições e o vocabulário da persuasão. Busquemos encarnar os interesses dos grupos sociais ameaçados ou incompreendidos; desenvolvamos ou criemos a solidariedade com o que existe; não sejamos mais apenas doutrinadores — porque a doutrina aborrece — nem nostálgicos — porque a nostalgia entorpece — mas procuremos lançar a âncora o mais possível na vida real, na vida local, na vida profissional, na vida sindical, para tecer desde já elos múltiplos e eficazes, pelos quais nos possamos tornar um dia a representação real de uma vaga de opinião pública."

Maurice Bardèche

Nascidos para perder, vivemos para ganhar

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

«Tudo o que é repousa naquilo que foi»

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"Somos tradicionalistas. Ser tradicionalista não é devolver-nos ao Passado, morto, inerte nos seus moldes cristalizados. É aceitar do passado o impulso dinâmico, a sua força vivificadora. Para nós tudo o que é repousa naquilo que foi. A tradição não é assim um ponto imóvel na distância. É continuidade no desenvolvimento, é aquela ideia directriz que já Claude Bernard apontava como presidindo à vida dos seres. Não acatar as regras inalienáveis da nossa confirmação histórica o mesmo é que pretender substituir estultamente a nossa hereditariedade individual por qualquer outra que seja mais da nossa simpatia.
Os princípios que defendemos, antes de serem princípios, foram conclusões. Nós não significamos aqui mais que um voto unânime da nacionalidade pelo apelo sagrado dos seus Mortos.
A nossa política não é uma política de profissionais mas uma política de profissões. Assentamos numa concepção orgânica da sociedade, com a diferenciação e a competência por critérios reguladores. Se nos Insurgimos contra a democracia, é porque a democracia é a negação de todo o estímulo e de toda a prosperidade. Somos antiliberais. Mas somos antiliberais, porque, municipalistas em relação às administrações locais e sindicalistas em face da questão operária; é pelas liberdades, de sentido restrito e concreto, que dedicadamente nos bateremos."

António Sardinha
in «A Monarquia», 20 de Fevereiro de 1917.

Ocupação de edifício em Roma pela CasaPound

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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Não tem nada a ver com ganhar ou perder

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"Não há nenhum sítio onde estejas tão vivo como no clube de combate. Quando és apenas tu e o outro tipo debaixo daquela única luz no meio de toda aquela gente a assistir. O clube de combate não tem nada a ver com ganhar ou perder combates. O clube de combate não tem nada a ver com palavras. Vês um tipo aparecer pela primeira vez no clube de combate e o rabo dele é um grande pão branco. Vês este mesmo tipo seis meses depois e parece esculpido em madeira. Este tipo acredita em si próprio e acha-se capaz de lidar com tudo. No clube de combate há grunhidos e barulhos como num ginásio, mas o clube de combate não tem nada a ver com conseguir um bom físico. Há gritos histéricos de êxtase como na igreja e, quando acordas no domingo à tarde, sentes-te salvo."

Chuck Palahniuk
in "Clube de Combate", Casa das Letras.

Solidarité Identités: Missão Kosovo

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Dia d'O Diabo

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Entrevista exclusiva a Davide Di Stefano, elemento da Frente Europeia de Solidariedade pela Síria

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Uma delegação italiana da Frente Europeia de Solidariedade pela Síria visitou a Síria no final do último mês de Agosto, enquanto nos Estados Unidos o Presidente Barack Obama anunciava uma intervenção militar iminente. Os activistas italianos estiveram em Damasco e Tartus, foram recebidos pelas autoridades sírias e puderam testemunhar em primeira mão a situação do povo sírio num violento conflito que já causou milhares de mortos e milhões de deslocados. Numa entrevista exclusiva, o Dissidente.info fez algumas perguntas Davide Di Stefano, um dos elementos da Missão que esteve presente na Síria.

Estiveste numa missão a Damasco, no final do mês de Agosto, quando havia uma séria ameaça de uma intervenção militar norte-americana na Síria. Podemos dizer que estavas no olho do furacão. Qual era a sensação de estar na capital da Síria naquela altura?
Havia com certeza um pouco de apreensão em toda a delegação, visto que a imagem que chegava a Itália através dos meios de comunicação social ocidentais era a de um país totalmente destruído. Ainda para mais tendo em conta que chegámos a Damasco na sexta-feira, 30 de Agosto, dois dias depois de Obama ter anunciado o início iminente de uma intervenção militar no país. Mas para dizer a verdade, o nosso maior medo era que a missão fosse cancelada por razões de segurança.

Damasco é uma cidade cercada. Apesar dos avanços do exército sírio, ainda há diversas áreas à volta de Damasco controladas pelos rebeldes. Como é que a cidade estava a lidar com isso? Sentiste escassez de alimentos na cidade? Havia falhas de electricidade ou interrupções no abastecimento de água?
A imagem transmitida por Damasco, pelo menos na maior parte do seu território, é a de uma cidade sitiada mas paradoxalmente “calma”. Passeando nas ruas da cidade, o maior medo é sempre o de um possível atentado. Nos subúrbios a Leste da cidade, como no bairro de Jobar, é onde a situação continua mais quente. De resto, a população parece enfrentar a situação com aparente tranquilidade, apesar das dificuldades económicas e práticas envolvidas. Existe racionamento de energia eléctrica e de alguns bens de primeira necessidade, sobretudo medicamentos e leite em pó, que escasseiam. A recordar que existe uma guerra existe a artilharia governamental, que das posições do Monte Quasioun fustiga os rebeldes entrincheirados nos subúrbios de Leste, frequentemente escondidos em túneis subterrâneos.

Apesar da ameaça de um ataque militar por parte dos governos de alguns países ocidentais, o povo sírio tinha ideia que no Ocidente a opinião pública está contra uma potencial intervenção militar?
O povo sírio, assim como as autoridades, conhecem a diferença entre os nossos governantes e maior parte da opinião pública ocidental. Os duros golpes recebidos por Obama a nível político, tal como a posição de não-intervenção da Itália e da Alemanha e a reprovação do Parlamento inglês geram confiança. Quando estávamos na Síria, a televisão pública e os principais jornais deram muita importância à nossa missão, também para mostrar à população que na Europa não estão todos alinhados Também a posição do Papa e o jejum contra a guerra tiveram muita importância na Síria, principalmente nos dias em que lá estivemos.

Durante a missão tiveste oportunidade de conhecer diversos elementos do exército sírio. Estiveste até no funeral de um jovem soldado, quando estavas a caminho de Tartus. Qual é o espírito do exército sírio? As tropas estão moralizadas para derrotar os fundamentalistas islâmicos ou temiam um ataque americano?
O exército sírio é composto por muitos soldados válidos e convencidos das suas próprias razões. Existe um sentimento muito difundido por toda a população de que um ataque contra a sua nação representaria uma grave injustiça e que nessa eventualidade teriam todo o direito a defender-se. Como muitas vezes acontece no Médio Oriente, o exército é o pilar do Estado. Cerca de 80% do exército é composto por elementos de etnia alauita, a mesma de Assad. Entre as tropas existe algum cansaço, mas a verdade é que 28 meses de guerra civil são cansativos para qualquer um. Até ao dia 21 de Agosto, o exército governamental tinha reconquistado muitas cidades e posições, e os rebeldes estavam a atravessar uma fase péssima. A seguir ao alegado ataque com armas químicas, as coisas mudaram e a atenção focou-se num possível ataque americano, juntamente com a Grã-Bretanha e a França. Esta possibilidade gerou muita preocupação, mas os sírios mantêm-se confiantes, até porque contam com o apoio dos seus aliados, a Rússia e o Irão, a força e solidez da própria nação e o receio de Israel de sofrer um ataque com mísseis.

Quais os planos para futuras missões da Frente Europeia de Solidariedade coma Síria?
Esta foi a primeira missão da Frente Europeia de Solidariedade com a Síria e teve um grande significado político e simbólico, representando uma iniciativa de solidariedade directa no momento mais difícil. Para o futuro, sobretudo através da associação Solidarité Identités, temos a intenção de realizar uma missão de solidariedade nos próximos meses. Temos óptimos contactos, sobretudo em Tartus, que sendo o segundo maior porto da Síria, reúne boas condições para o envio de bens de primeira necessidade como leite em pó e medicamentos.

Por último, se pudesses enviar uma mensagem ao Presidente dos Estados Unidos depois da tua experiência na Síria, o que lhe dirias?
Para devolver o Prémio Nobel da Paz.

A crise da Catalunha

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"Com o fim da Guerra Fria e da União Soviética terminou a principal confrontação ideológica da segunda metade do século XX — a que opôs o mundo comunista ao Ocidente liberal democrático. A partir dos anos 90, os sistemas políticos proclamaram-se democráticos e pluralistas e os sistemas económicos passaram a ser capitalistas.
Com este ocultar das ideologias o mundo estava de volta a Vestfália e à política centrada nos Estados soberanos. Desapareciam as grandes identidades e solidariedades ideológicas para dar lugar, outra vez, aos interesses nacionais. Mesmo a versão de identidades ideológicas baseadas na religião e na etnia — a tese de Huntington sobre a ‘guerra das civilizações’ — acaba por ceder quando os factores nacionais entram em jogo: como na Síria e nos antagonismos no mundo islâmico, entre árabes e não árabes, sunitas e xiitas, laicos e fundamentalistas.
A outra excepção — a Europa dos 28 da União Europeia — é aparente e sê-lo-á enquanto os Estados-membros mantiverem políticas nacionais e quebrem a solidariedade europeia quando os seus interesses nacionais vitais estejam em causa. Que é o que tem sucedido, sobretudo com os que podem fazê-lo — os mais poderosos.
Sem levarmos em conta isto, não podemos entender a importância que a ameaça de secessão da Catalunha significa para Espanha. A crise, reacendida depois da manifestação popular independentista de 11 de Setembro, Dia da Catalunha, e da reivindicação de um referendo para 2014, tem ocupado os media espanhóis. Isto apesar de preocupações jornalisticamente concorrentes e correctas, como a crise económico-financeira, os escândalos na família real, a corrupção dos políticos ou o caso da ‘guerra’ com a Grã-Bretanha por causa de Gibraltar.
Não é para menos. Uma separação da Catalunha significaria uma grave crise da unidade espanhola, qualquer coisa comparável, embora de outro género, ao fim do Império com a guerra de Cuba e das Filipinas em 1898, à derrota de Annual em 1921, ou mesmo à crise que levaria à guerra civil em 1936. Embora os tempos sejam outros, um fragmentação deste tipo atingiria profundamente a Espanha tal como ela se vê e se sente.
A questão é séria: há um número muito significativo de catalães que não se contentam com a ampla descentralização e autonomia de que gozam no quadro da Constituição espanhola e querem ter um Estado próprio, soberano. O número cresceu nos últimos 30 anos, devida a uma estratégia separatista discreta dos governos da Generalitat de Jordi Pujol e seus sucessores, a Convergência e União, muito eficaz por exemplo quando tornou o catalão a língua veículo do ensino na região, ou quando criou instrumentos financeiros e económicos a pensar na independência.
As últimas notícias referem o acordo entre os dois ramos independentistas – a Convergência, de centro-direita, e a ERC de esquerda, para realizar o referendo em 2014. Em contrapartida o Governo do PP, com o apoio crítico do PSOE, pensa parar o processo por via legal, no Tribunal Constitucional, esperando que as divisões entre os independentistas ajudem a adiar ou a evitar a ruptura.
Mas a Espanha está no fio da navalha."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 4 de Outubro de 2013.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O homem é naturalmente resignado

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«O homem é naturalmente resignado. O homem moderno mais do que os outros, em consequência da extrema solidão que o mergulha uma sociedade que praticamente já não conhece entre as pessoas outras relações que não sejam as do dinheiro. Mas mal andaríamos se acreditássemos que essa resignação faz dele um animal inofensivo. Ela concentra no homem venenos que, chegando o momento, o tornam disponível para toda a espécie de violência. O povo das democracias não passa de uma multidão, uma multidão mantida na expectativa pelo Orador Invisível, pelas vozes vindas de todos os cantos da terra, pelas vozes que a agarram pelas entranhas, que exercem tanto mais poder sobre os seus nervos quanto mais se dedicam a falar a própria língua dos seus desejos, dos seus ódios, dos seus terrores. É verdade que às democracias parlamentares, mais excitadas, falta temperamento. As ditatoriais, essas, têm fogo no ventre. As democracias imperiais são democracias com cio.»

Georges Bernanos
in "Os grandes cemitérios sob a Lua", Edição «Livros do Brasil», Lisboa, 1988

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Promessas de crédito sem fim

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"Na crise que estamos a atravessar actualmente, essas pessoas não se terão dado necessariamente melhor do que os seus contemporâneos menos escrupulosos ou com inclinações menos proféticas. Como outros, terão sido tentadas pela bolha da bolsa; terão sido tentadas pelos brancos e emprestadores de dinheiro com as suas promessas de crédito sem fim e a sua determinação de esconder o respectivo custo a longo prazo. Terão reconhecido, na economia global, oportunidades de assunção de riscos que podiam justificar-se com base na informação disponível. Por outro lado, terão sabido uma coisa que o mundo estava a lutar por não ter em consideração, que é que quando as pessoas estão a ser tentadas em toda a parte a endividar-se, haverá uma relutância crescente em pagar que acabará por se estender a todo o mundo, que a honestidade será vista cada vez mais como uma fraqueza, e que acabará por surgir o hábito de liquidar uma dívida contraindo outra. Num certo momento será retirado o fundamento da confiança e a estrutura construída sobre ele ficará desfeita em pó."

Roger Scruton
in "As Vantagens do Pessimismo e o Perigo da Falsa Esperança", Quetzal Editores, 2011.

Dentro da sua própria cabeça

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"Aqui a Voz da Europa. Fala Ezra Pound. Título: O Gentil-Homem Decaído.
Entre as minhas recordações americanas está a do gentil-homem decaído, vestido com uma jaqueta andrajosa, que vendia mel num bar de Washington.
Querendo conhecer opiniões diferentes das da imprensa ou do Congresso e os resultados do New Deal e das consequentes fraudes americanas em 1939, para saber o que pensava de todo o assunto, pedi-lhe o parecer, preferindo o dele à do figurão que sorvia uma ostra, e obtive esta resposta, indubitavelmente incontroversa: «Os da nossa geração encontraram-se de repente diante de muitas confusões».
Este homem representava, indiscutivelmente, o verdadeiro homem de rua, naquele momento pouco ou só temporariamente afastado da rua, e contrastava com os rufiões da BBC.
A clareza de cada homem deve começar dentro da sua própria cabeça."

Ezra Pound
in "Esta é a voz da Europa", Hugin, 1996.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

"A democracia assumiu foros de religião"

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"Não sendo dominante o Evangelho de S. Marx, um outro recebe a adoração da generalidade dos habitantes do rectângulo. É o Evangelho democrático. Quem o não perfilha é excomungado e, mais ou menos, marginalizado. A democracia assumiu foros de religião. E não se pense que é uma religião que não faz uso do braço secular. Sem dúvida, proclama tal uso uma selvajaria, só própria de eras ainda não iluminadas pelo esplendor da nossa civilização — a civilização da bomba atómica. Porém o que ela diz é uma coisa, outra é o que faz. A democracia condena as fogueiras da Inquisição, mas aprova as fogueiras de Dresden, Hamburgo, Colónia, etc. Acha as cruzadas uma coisa indigna e um papa (democrata claro) pede desculpa pelas mesmas embora não tenha uma palavra de censura para o que o Sr. Eisenhower, inteiramente insuspeito na matéria, baptizou de Cruzade in Europe. E assim por diante. Escandalizam-se com a Gestapo, a Ovra, a Pide, e simultaneamente atribuem às suas polícias métodos e poderes semelhantes. Lembremos só num exemplo brevíssimo o que se passa no Iraque e em Guantánamo.
Em resumo a democracia berra contra a violência na altura exacta em que a emprega.
Claro que tomamos, aqui, democracia não como simples forma de governo mas como uma concepção axiológica. De resto uma e outra estão interligadas. O governo do povo pelo povo implica, obviamente, que os homens tenham liberdade de formar partidos e agrupamentos isto é, sejam dotados de liberdade de reunião. E, para formarem livremente os seus partidos ou agrupamentos, é indispensável que circulem sem obstáculos os ideais ou doutrinas, em volta dos quais aqueles se aglomerem — logo é indispensável a livre expressão do pensamento.
Qual o fundamento porém de tais liberdades? Obviamente, a imensa dignidade dos seus titulares, os homens, as pessoas humanas. Cada homem, cada pessoa humana será uma espécie de deusinho intangível e autónomo (claro que com excepção dumas pessoas humanas chamadas fascistas que, nem vale a pena discuti-lo, não têm obviamente a dignidade inerente a todas as pessoas humanas).
Torna-se patente que tais deusinhos não podem ser governados senão por si próprios e voltamos ao começo, à democracia enquanto regime."

António José de Brito

A nossa Lisboa

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terça-feira, 8 de outubro de 2013

"Nós afirmamos a vitalidade efervescente duma renovação tumultuosa"

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“Ao falar-vos de Portugal, da minha terra distante, onde me é, por agora, interdito voltar, sinto crescer em mim e robustecer-me os lábios todo o orgulho lendário da minha raça.
O povo português é um dos maiores da Terra, pela extensão do seu território ultramarino, pela sua contribuição na obra da civilização e do progresso, pelo nobre desinteresse com que, durante a sua longa História, tomou parte em todas as cruzadas da liberdade e do pensamento humanos.
Um dos maiores da Terra pelo seu passado, mas mais ainda pela amplidão do seu imenso futuro.
Nós não invocamos, para viver e vencer, os vestígios inertes duma glória imortal que tem o seu o seu lugar no museu das nossas recordações, mas a que já falta o dinamismo criador das almas e dos corpos em cujas veias corre o sangue fecundo da mocidade.
Nós afirmamos a vitalidade efervescente duma renovação tumultuosa, é certo, desordenada, se quiserem violenta, não contesto, mas formidável e invencível.
A própria violência dos nossos embates interiores deve ser por vós considerada e compreendida, não como um sintoma de desagregação e degenerescência, mas como uma manifestação salutar das forças profundas que sacodem um organismo em plena adolescência, em plena crise de renovação orgânica, em plena curva ascensional.
É em nome do Futuro que falamos, não é em nome do Passado. Imprudentes? Talvez. Mas a imprudência é final de juventude. Temerários? Sem dúvida. Mas a serenidade é a divisa dos fortes. Demasiado confiantes? É possível. Mas a confiança e a fé são o lema dos conquistadores, o talismã dos audaciosos, o inesgotável tesouro de todas as loucuras sedutoras, o dínamo gerador dessa febre sublime que se chama entusiasmo!
A geração que em Portugal desponta para a vida pública, animada do mais belo e mais potente realismo, que é a base de toda a intensa espiritualidade e da mística moderna dos povos latinos, vai de novo atravessar os mares e continuar a construir, do outro lado do Oceano, o formidável império português que é a finalidade histórica da raça lusitana.
Tirai da nossa memória a imagem deprimente de três séculos de estagnação.
Vede nos rugidos da nossa vida convulsiva apenas as primícias duma renascença que começa, o alvorecer duma nova epopeia que, mais uma vez, há-de espantar o mundo!”

Homem Cristo Filho
Conferência no Club du Faubourg, Paris, 11 de Outubro de 1926.

Dia d'O Diabo

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Recordando Krasny Bor

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"Há algumas semanas fiz uma experiência. Cumpriam-se 70 anos sobre a batalha de Krasny Bor, perto de Leninegrado, onde 5.000 espanhóis da Divisão Azul se viram sobre o ataque de duas divisões soviéticas compostas por 44.000 homens e 100 carros de combate: uma companhia aniquilada, várias dizimadas, oficiais pedindo fogo de artilharia sobre a sua própria posição por estarem inundados de russos. Abandonados à sua sorte, lutaram todo o dia como feras, desesperadamente. Quase metade morreram ou desapareceram, mas pararam os russos, fizeram-lhes 10.000 baixas e obtiveram de Hitler o seguinte comentário: «extraordinariamente duros para as privações e ferozmente indisciplinados». E, bem. Esses são os feitos e assim os contei na rede social Twitter, onde desembarco em alguns domingos, acrescentando que entre os divisionários nem todos eram voluntários falangistas, pois também havia ex-combatentes republicanos e gente que se alistou por necessidade ou para ajudar algum familiar preso ou em desgraça. Acrescentei que a causa que defendiam era infame, mas que isso não alterava o fundamental: eram compatriotas, estavam no inferno e lutaram com uma bravura admirável. «Quem nos governa deveria prestar atenção a estas coisas — escrevi. A História provou mil vezes que não há nada mais perigoso que um espanhol encurralado». O interessante veio depois: três mil opiniões de twitteiros. Eu tinha mencionado um facto histórico, destacando uma coragem e tenacidade independentes de épocas ou ideologias. Algo que aconteceu e que está — ou deveria estar — nos livros de História pelas mesmas razões que a conquista de Tenochtitlán, o saque de Roma ou a libertação de Paris pelos republicanos espanhóis da Nove. Mesmo assim, não imaginam o que se leu no Twitter: os insultos e ofensas entre quem discutia. Alguns incluíram-me, claro. Isso foi o mais revelador: ultra-direitistas a acusarem-me de ser vermelho por ter qualificado de infame a causa defendida pela Divisão Azul na Rússia e ultra-esquerdistas a acusarem-me de fascista por falar na Divisão Azul em vez de a sepultar no negro esquecimento. E, entre uns e outros, dezenas de comentadores atirando-se à cabeça uns dos outros com argumentos ideológicos, passando ao lado do mais importante: o episódio histórico, a sua perspectiva épica e o seu interessante relato. A História, no fundo, não é boa nem má. É apenas uma chave para compreender o passado e o presente. E, às vezes, para prever o futuro."

Arturo Pérez-Reverte
in XLSemanal, 22/04/2013.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Eliade e a pintura portuguesa

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"Ao transcrever os meus apontamentos do Outono de 1941 em Viseu, impressiona-me uma observação que faço com bastante firmeza em relação à pintura portuguesa: a fealdade das personagens, que explico pelo realismo do pintor, ao escolher temas do mundo que o rodeava, pessoas com garra, em luta com a morte, com as doenças, os homens dos descobrimentos marítimos. Acho que há muita verdade nesta observação. O Renascimento era feito pelos homens do Mediterrâneo, que tinham tempo e sabedoria para contemplarem os cânones clássicos. As culturas marítimas — Holanda, Portugal — descobriram o realismo plástico pela luta das suas gentes com o mar. Os grandes pintores holandeses pintavam segundo a natureza homens feios, exaustos devido ao esforço ou empanturrados de satisfações e ambições, que o mar tinha criado."

Mircea Eliade
in "Diário Português", Guerra e Paz, 2007.

Reds Don't Read

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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O novo conformismo

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"A consciência feliz — que crê que o real é racional e que o sistema fornece os bens necessários à satisfação geral — reflecte o novo conformismo que é um aspecto da racionalidade tecnológica, traduzida sob a forma de comportamento social. Este conformismo é novo pelo facto de ser racional num grau sem precedentes. Sustenta uma sociedade que reduziu — ou, nos seus sectores mais avançados, eliminou — a irracionalidade mais primitiva das épocas anteriores e que prolonga e melhora as condições de existência em termos mais regulares do que no passado. A guerra de extermínio ainda não sucedeu; os campos da morte nazis foram abolidos. A consciência feliz."

Herbert Marcuse
in "O Homem Unidimensional", Letra Livre, 2011.

Entrevista a Constantino, militante do Aurora Dourada

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Constantino é um militante histórico do Aurora Dourada. Um daqueles que já eram militantes antes da explosão eleitoral, dos tempos em que o partido grego navegava em torno do 1%. É há seis anos um dos animadores da RBN Hellas, a transmissão da Radio Bandeira Nera em língua grega, emitida todos os domingos às 22h. Encontramo-lo, via Skype, numa cidade grega que, por motivos de segurança, preferimos não revelar. Apesar do momento dificílimo que o partido atravessa, Constantino mantém o humor e a tranquilidade de quem sabe combater por uma causa justa. Estudou em Itália e responde num italiano perfeito.

Através da imprensa chegaram a Itália notícias do que se passou mas, como imaginas, de uma forma distorcida. Entrámos em contacto contigo para saber o que realmente aconteceu.
Depois da morte de um rapaz antifascista há duas semanas, na sequência de uma discussão futebolística na periferia de Atenas, a esquerda, o centro, socialistas e mesmo a direita helénicas começaram a atacar o Aurora Dourada. Tudo isto numa altura em que as sondagens davam mais de 15% dos votos a nível nacional. O número três do nosso movimento era dado pelas sondagens como o provável próximo Presidente da Câmara de Atenas, com mais de 60%. Podes imaginar o que significaria conquistar a Câmara da cidade mais importante da Grécia.

Ele também foi preso?
Claro. Foi preso juntamente com o nosso secretário-geral, o vice-secretário-geral e outros quatro deputados que faziam parte do núcleo histórico do Aurora Dourada. Não foram detidos membros recentes. Sabiam muito bem quem prender. Começou uma caça ao "fascista", com mais de 30 detenções. E ainda não acabou. As acusações são brutais: a principal é a de associação criminosa. Agora todos os militantes, e os eleitores que já são mais de meio milhão, são tratados como delinquentes nos telejornais e na rádio. Também há acusações de extorsão e posse de armas. Devem ser aviões, porta-aviões e tanques. Só que temos os tanques muito bem escondidos.
Além disso, na semana anterior prenderam quatro importantes agentes da polícia por alegadas ligações ao nosso movimento, assim como agentes das forças especiais gregas. Podes ver que o ataque foi bem estudado.
Depois prenderam os nossos dirigentes no sábado, quando o Parlamento grego estava fechado, e sem esperar pela votação para a suspensão da imunidade parlamentar dos nossos deputados. É a primeira vez, não apenas na Grécia mas em toda a Europa, que um líder de um partido e deputado é detido sem a suspensão da imunidade ser votada no parlamento.

Podes explicar como funciona exactamente a imunidade parlamentar na Grécia? Existe uma lei parecida à italiana?
Sim, é uma lei parecida. Para prender um representante parlamentar é necessário recorrer ao parlamento e os deputados devem votar para anular a imunidade. Isto é o que dizem as normas democráticas. Mas a nós não foram aplicadas.

Esta é a situação judicial. Podes falar da situação política? O movimento está a reagir? Como é óbvio, diz-me só o que é oportuno anunciar publicamente.
Sim, mesmo com o líder na prisão, a sua mulher, que também é deputada, é a sua porta-voz e tem estado em contacto com ele. Dentro de três ou quatro dias teremos desenvolvimentos, mesmo a nível judicial.
Mas sabes o que eles fazem? Entram na casa dos militantes, apreendem camisolas do Aurora Dourada e bandeiras gregas. Relativamente a isto, o ministro da Justiça declarou oficialmente que a polícia tem o direito de abordar e revistar qualquer pessoa que ande na rua com uma bandeira grega. Agora até a bandeira nacional é algo criminoso. Quanto ao resto, o mais grave que encontraram foram armas de ar comprimido.
Esta semana o parlamento vai votar uma nova lei "anti-racista" e podes imaginar o que estão a preparar.

Qual é a lei actual na Grécia? Existe alguma lei análoga à lei Mancino [n.d.r. lei proposta pelo ministro democrata-cristão Nicola Mancino, introduzida em 1993 como Decreto-Lei 122, que condena gestos, acções e slogans ligados à ideologia fascista, punindo ainda a incitação à violência e a discriminação por motivos raciais, étnicos ou religiosos]?
Existe uma lei, mas é considerada demasiado "suave". Por exemplo, é possível usar o fascio e fazer a saudação romana. Já a nova lei que o parlamento vai aprovar será ainda mais dura que a lei alemã.

E qual é a reacção popular?
Quanto a tudo isto, há uma coisa positiva: as pessoas comuns não "comeram" esta mentira. Falo com muita gente e todos estão connosco. Mesmo gente que nunca votou no Aurora Dourada diz "agora vou votar!". A Grécia é um Estado que está a atravessar uma crise terrível, provavelmente já está falido, os bancos levaram tudo, há um novo memorando que já foi votado e ninguém sabe o que vai acontecer, mas agora a imprensa só fala do Aurora Dourada.
Vocês, italianos, viveram os anos 70 e sabem como o Estado é capaz de mentir. Mas desta vez provavelmente exageraram.
Por fim, gostaria de agradecer a todos os camaradas italianos que me telefonaram. O Gianluca, tu, os rapazes da CasaPound e mesmo gente de outros movimentos. Todo este apoio ao nosso movimento conta muito. Em Espanha protestaram por nós junto à embaixada grega em Madrid. Houve acções de solidariedade na Polónia e até de um pequeno movimento nacionalista chileno. Tudo isto é muito importante para nós. O nosso moral é alto e sempre que posso vou protestar à frente do Tribunal, mesmo arriscando ser preso.

Traduzido e adaptado de uma entrevista à Radio Bandiera Nera.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Daft Punk e o fascismo

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Guillaume Emmanuel "Guy-Manuel" de Homem-Christo (Paris, 8 de Fevereiro de 1974) é um músico francês, celebrizado enquanto elemento dos Daft Punk, juntamente com Thomas Bangalter. É bisneto do escritor português Francisco Manuel Homem Cristo (Lisboa, 5 de Março de 1892 — Roma, 12 de Junho de 1928), mais conhecido por Homem Cristo Filho. Notável intelectual do seu tempo, foi um grande defensor das correntes nacionalistas que conduziram ao fascismo italiano, do qual era fervoroso admirador. Numa entrevista à revista Rolling Stone, Guy-Manuel afirmou que o seu bisavô é descrito pelos historiadores como "o primeiro autêntico e indisputável fascista português" e um amigo pessoal de Benito Mussolini. "Conheço-o apenas de algumas fotografias, naturalmente". Homem Cristo Filho faleceu na sequência de um acidente de automóvel às portas de Roma. Mussolini prestou-lhe um funeral com todas as honras, mandando erigir um pequeno monumento com o epitáfio: "Cidadão de Roma, no espírito e na fé".

Reduziram-nos a isto

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

As almas do Purgatório

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"O oceano é um vasto cemitério, principalmente para Portugal. O mar, esse é a campa, é o cemitério desta desgraçada pátria de Vasco da Gama, de João de Castro, de Albuquerque, de Cabral, de Magalhães, de todos os maiores navegadores do mundo, desta pátria do Infante D. Fernando, do rei D. Sebastião, que morreram além do mar. Nesse imenso cemitério vivo, que vem murmurando fados a beijar as praias deste

Jardim da Europa à beira-mar plantado

nesse imenso cemitério descansa a glória de Portugal, cuja história é um trágico naufrágio de séculos. E neste murmúrio do oceano, estes queixumes que vêm do seu seio quando o Solo nele se põe, não são porventura as vozes das pobres almas portuguesas que vagueiam errantes nas suas ondas? Não pedem auxílio aos vivos? Não é aqui o mar o Purgatório? Sim, aqui o Purgatório é o mar; um purgatório de águas traiçoeiras, não de fogo; as suas ondas são as suas chamas. O mar, que foi a glória de Portugal; o mar, que lhe deu eternidade na história humana, o mar que o devorou, o mar o que o iniciou

No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza

como cantou, em união com o mar, Camões.
Apagada e vil tristeza! É isso o que se vê hoje aqui. E ao vê-lo ocorre pensar se as almas serão as dos que descansam debaixo da terra, nos templos ou junto a eles, e no seio do mar, ou não serão antes aquelas que habitam nos corpos dos que por aqui vemos a lidar e a ganhar o pão de cada dia. Portugal é hoje um purgatório povoado de almas."

Miguel de Unamuno
in "Portugal, Povo de Suicidas", Letra Livre, 2012.

Dia d'O Diabo

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