segunda-feira, 9 de setembro de 2013
domingo, 8 de setembro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
A indústria dos sonhos
"Vivemos mergulhados em ficção. A humanidade sempre se elevou da dureza quotidiana saboreando romances, teatro, epopeias, poesia. Mas nas novas formas de expressão - cinema, televisão, videojogos, sites, revistas - sobretudo em férias, devoram-se três e quatro enredos por dia.
Esta gula, além de empanturrar, envenena pela má qualidade. Os artistas têm propósitos elevados. Sempre houve pantomimas e "literatura de cordel", mas a verdadeira criação aspira à excelência. Só que hoje a ficção é dominada por uma indústria cuja finalidade é divertimento e a motivação comercial. O "produtor de conteúdos" tornou-se apenas uma peça numa poderosa máquina alimentada a popularidade. Os resultados são tristes.
Primeiro, desapareceu a "moral da história". Antes, a imaginação pretendia instruir, aconselhar, inspirar. Com a vida orientada para finalidade superior, a comunicação era o meio para um objectivo sublime. Mas num tempo em que a cultura dominante se orgulha da perda do transcendente, tudo se reduz ao material. Alguns sicofantas da modernidade chegam a tentar justificar a "arte pela arte" pondo o objecto acima do sujeito. No cinema actual, a história até teria vergonha de ter uma moral.
O segundo efeito da industrialização ficcional é a explosão da quantidade, que coloca a criação a prémio. Como a imaginação é rara, fica mínima a parte de ideias realmente inovadoras na imensa torrente de produções. Isso leva à multiplicação de séries, sequelas e reedições, para espremer ao máximo cada gota de originalidade. Assim o apetite voraz pela novidade recicla e requenta velhas ideias, rarefazendo a própria novidade.
Pior, a multiplicação reduz o valor. Para ser rentável e agradar às massas apela-se aos instintos básicos. Os condimentos indispensáveis são violência, erotismo, velocidade, grosseria, atrevimento, banalidade, secundarizando arte, elegância, subtileza, sofisticação, profundidade. A adrenalina é rainha, a rebeldia virtude suprema, sempre com filosofia, mas de plástico. Ideias antigas mas nos cenários da moda. As séries situam-se quase sempre em hospitais, esquadras, tribunais e cadeias, locais onde o espectador detestaria ver-se na vida real. Como a lei e a sociedade são sempre corruptas, o protagonista é anti-herói, transgressor, subversivo. E está sempre zangado. Se o bom é negativo, quem pode ser o malfeitor? Numa sociedade igualitária de direitos, onde está o inimigo? Para punir sem remorso e da forma brutal que a adrenalina impõe, é preciso que os vilões contemporâneos sejam caricaturas unidimensionais, irredutivelmente perversas e sem remissão. O psicopata é a personagem preferida, mas também zombies, vampiros, monstros e alguns nazis e capitalistas são esquartejados, explodidos e sangrados sem incómodo para o espectador.
Apesar de tanta televisão, Internet, quadradinhos e videojogos, ainda vivemos na realidade. Nela, o efeito desta inundação de ficção boçal é ambíguo. A intensidade da emoção empacotada estimula a sensibilidade e tende a extravasar para a vida. Somos uma época hiperactiva e neurasténica. Mas a ficção também serve de escape, descarregando no ecrã ou na página aquilo que se poupa ao próximo.
O pior está noutro nível. Toda esta produção fictícia vem mergulhada numa mesma ideologia, impondo que cada um viva na prossecução de um sonho. Num tempo que julga eliminar o transcendente, a finalidade última fica autocentrada. A pessoa define-se a si mesma, determina o seu horizonte num ideal individual e mítico, medindo-se pela dedicação a esse propósito.
Ambição e persistência são grandes virtudes. Mas a doutrina obsessiva do sonho é um deus ciumento. Gera pessoas ansiosas, não satisfeitas; exigentes, não humildes; egoístas, não agradecidas. Ser um falhado é o pior dos destinos, e o estado natural de quem não se contenta com o que tem. Com a desilusão inevitável, a demanda torna-se terrível armadilha, que devora liberdade, alegria, personalidade. Daí a depressão crónica, revolta endémica e turbulência social, que depois a ficção retrata."
João César das Neves
in "Diário de Notícias", 26 de Agosto de 2013.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Homens duros, resistentes, sofridos
"Que matéria prima para um povo aqui existe! Que vitalidade a desta gente! E que prolíferos, santo Deus! Como se hoje a sua principal exportação fosse a exportação de homens, de gado humano, como um deles afirmou. E de homens duros, resistentes, sofridos. Dizia Spencer que o principal é fazer do homem um bom animal; e como o animal é uma espécie do género ser vivo, o principal é fazer dele um bom ser vivo. Como os há aqui: bons viventes, com uma robusta vitalidade de planta, como a desses pinheiros que deitam raízes nas areias das costas portuguesas. E tão submissos. Submissos até quando se rebelam. «O sentimento inato de rebeldia (que não deve confundir-se com o da independência) — diz Oliveira Martins — essa vis íntima dos celtas submissos da Irlanda e da França, existe no minhoto...» Têm a cólera do cervo ou do carneiro, que os leva a actos de violência frenética, para logo a seguir tudo voltar ao mesmo. Assim se explica o regicídio e as suas consequências. Rebeldia, sim; independência, não. Aqui, como na Galiza, pode florescer o anarquismo, mas não o sentimento de liberdade. E a anarquia é a servidão."
Miguel de Unamuno
in "Portugal, Povo de Suicidas", Letra Livre, 2012.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
terça-feira, 3 de setembro de 2013
O direito à violência
«— (...) Uma civilização que renuncia à possibilidade de recorrer à violência nos seus pensamentos e acções destrói-se a si mesma. Transforma-se num rebanho de carneiros a degolar pelo primeiro que passe. O mesmo acontece com os homens.»
Arturo Pérez-Reverte
in "O Mestre de Esgrima", Edições Asa.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Ambiguidades democráticas
"A situação no Egipto evoluiu para uma daquelas encruzilhadas que embaraçam as boas almas liberais e as instituições simpáticas e cooperativas. Como uma narrativa pícara de Boccaccio ou Maquiavel, um conto perverso de Gógol ou Púchkin, até uma daquelas ficções curtas de Borges ou Bradbury, quando bruscamente percebemos que o bem e o mal ficaram pelo caminho, a bússola também e não sabemos onde estamos.
É assim no Egipto, onde os clichés ideológicos esmorecem e desaparecem perante a brutalidade dos factos e das imagens dos factos: no começo havia a ditadura de Mubarak, uma cleptocracia familiar detestável; os democratas (incluindo a Irmandade Muçulmana), desceram à rua e a comunidade mediática euroamericana aplaudiu; os generais egípcios, iluminados pelas luzes da liberdade, trataram de pôr o velho ditador a andar e a família na cadeia. Depois seguiu-se o processo que, desde o fim da guerra fria, do Haiti ao Mali, do Iraque à RDC, vemos ser aplicado — eleições livres e justas, com ou sem observadores internacionais, mais chá e simpatia, publicação dos resultados, tomada de posse. Uma festa.
Os Irmãos Muçulmanos e Morsi ganharam as eleições como minoria mais votada, como o NSDAP de Adolf Hitler em 30 de Janeiro de 1933.
Daí o dilema complicado — ‘o povo é soberano, com a democracia há sempre soluções, os eleitores não se podem enganar, há que respeitar-lhes a vontade’. Mas a teoria da bondade popular e democrática pode entrar em crise: os islâmicos começaram a queimar igrejas cristãs, quiseram cortar as liberdades dos não crentes, impor e alargar a prática corânica numa sociedade em parte laicizada? Foi a vez dos laicos saírem à rua e dos militares, aproveitando a boleia do povo, prenderem o Presidente democraticamente eleito (o primeiro civil do Egipto moderno) mais as lideranças dos Irmãos.
A seguir, o povo da Irmandade saiu, por sua vez, à rua em nome da democracia. E aí os generais entraram ao modo militar e securitário de lidar com protestos de rua — com helicópteros, tanques e as balas dos snipers que anonimamente vão eliminando os agitadores. Ou o desgraçado que está próximo do agitador, vá-se lá saber…
Assim os Irmãos, que começaram por ser maus, que passaram a bons contra Mubarak, ainda melhores quando ganharam a eleição, que voltaram a maus no poder, estão outra vez a voltar a bons, já que são mártires e perseguidos. E os militares fazem o percurso contrário.
Os ocidentais cortam agora os apoios. Mas os países árabes conservadores — sauditas à frente, com os biliões de ajuda (têm sido eles que têm aguentado a economia egípcia, desde que a Primavera Árabe afugentou os turistas), já disseram que cobrem a parada. Ou seja, não será esse o problema.
O problema é que a democracia tem duas versões, que são contraditórias — uma, à Rousseau, é a vontade sagrada e absoluta da maioria, que nunca se engana. Noutra — ao modo de Locke, Smith e Mill dos Founding Fathers americanos — é a protecção de um núcleo de direitos individuais, anteriores à própria comunidade política e que devem ser preservados mesmo contra a maioria.
Duvido que isto aproveite muito aos egípcios, mas aqui fica."
Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 20 de Agosto de 2013.
O totalitarismo também é compatível com o «pluralismo»
"Porque «totalitária» é não só uma forma de coordenação da sociedade através do terror político, mas também uma forma de coordenação económico-técnica que, sem recurso ao terror político, opera por meio da manipulação das necessidades através dos interesses adquiridos. Exclui assim a emergência de uma oposição efectiva frente ao seu todo. O totalitarismo não é produzido apenas por uma forma particular de governo ou de poder partidário, mas também por um determinado sistema de produção e distribuição que pode ser perfeitamente compatível com um «pluralismo» de partidos, jornais, «poderes compensatórios», etc."
Herbert Marcuse
in "O Homem Unidimensional", Letra Livre, 2011.
domingo, 1 de setembro de 2013
Frente Europeia de Solidariedade com a Síria
A Frente Europeia de Solidariedade com a Síria nasceu no início de 2013 por iniciativa de alguns activistas que desde o início dos tumultos na Síria apoiaram as posições do presidente Bashar Al-Assad e do povo sírio. Como tal não é uma organização política nem está ligada a qualquer movimento, partido ou grupo político. Actualmente, a Frente Europeia de Solidariedade com a Síria une os esforços de todos os europeus que apoiam esta causa, deliberadamente silenciada pelos meios de comunicação internacionais. O movimento conta com delegações em Itália, Grécia, Chipre, Bélgica, Holanda, Finlândia, Espanha, República Checa, Irlanda, Roménia, Polónia e Portugal, contando ainda com simpatizantes em muitos outros países. A Frente Europeia de Solidariedade com a Síria está aberta a todos os que amam a Síria e que se encontram solidários com o povo sírio e o seu exército.
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