Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012
6 de Fevereiro
Quem se lembra, hoje, do 6 de Fevereiro de 1934? Na história oficial é indicado como uma tenebrosa conjura contra a imaculada III República, que os jornais alemães saudaram, dizendo que a aurora do Fascismo despontava em França.
Esquecido, excepto de alguns caturras como eu, o imenso protesto das multidões parisienses contra o escândalo Stavinsky, desarmadas e recebidas a tiro, friamente, pelos guardas móveis – os pretorianos do regime.
É verdade que, nas sucessivas repúblicas, que se sucederam à III, houve escândalos muito maiores e ninguém, democraticamente, mexeu uma palha. Deus louvado!
A recordação dos mortos da Praça da Concórdia esfumou-se no tempo. É um motim reaccionário travado com brandura e serenidade.
Em 6 de Fevereiro de 1945 (não sabemos se a coincidência foi intencional ou não) era fuzilado Robert Brasillach, sob o signo da chamada “Libertação”. O nome e a presença de Brasillach tem os seus fiéis, aqui e ali, apesar de todos os esforços para os apagarem da História. Não figura, evidentemente, nos manuais escolares e bom número das referências – bem limitadas – que lhe fazem é rancorosamente odiento e pejorativo.
Mas a sua lembrança subsiste e, apesar de tudo, há quem o tenha sempre na memória e no coração.
Sou um desses e dos mais humildes. Neste rectângulo, que outrora foi Portugal, jamais olvido o autor de “Six heures à Perdre”. Brasillach foi um escritor que assinou com sangue as suas páginas. Bem sei que uma tal Beauvoir diz que é próprio dos fascistas só se preocuparem como morrem, esquecendo-se dos actos que realizaram.
Certo é que ela fala da coragem de Brasillach que só a podia mostrar assumindo os actos que praticara,
De qualquer forma, Petrarca dissera que “un bel morire tutta una vita onora”. Mas Simone de Beauvoir nada tinha de Petrarca e não passava de um pálido reflexo de Sartre, sem o talento especulativo que ele, pelo menos nas suas primeiras obras, evidenciara, - ao lado de algumas extravagâncias -.
Brasillach foi um excelente romancista, notável poeta mas, sobretudo, um admirável crítico e memorialista extraordinário.
Os seus “Quatre Jeudis” dão-nos um panorama literário excepcional do seu tempo; o estudo sobre Corneille” traz-nos de uma maneira, assombrosamente viva, a presença do grande autor do Cid que tão bem exaltou a Coragem, a Honra e o Dever.
Permita-se que destaque o aspecto de memorialista em que Brasillach nos faz reviver a sua época com uma delicadeza, uma nostalgia e um encanto inultrapassáveis. “Notre Avant-Guerre” é um livro imortal. Quem não o tiver lido jamais terá uma imagem exacta, simultâneamente delicada e firme, dos anos 20 a 39 do século passado.
Fascista não oculta – ao invés – as suas convicções mas nunca se mostra odientamente faccioso.
E fascista continuou a ser até à morte. Já na prisão escrevia: “Je veux… être franc avec le fascisme… sa poèsie extraordinaire est proche de nous, il demeure la verité la plus exaltante du XX siècle celle qui lui donne sa couleur… sa chaleur, son feu merveilleux, c`est ce qui lui appartient. Un champ de jeunesse dans la nuit, l`impression de faire corps avec sa nation, l`inscription à la suit des héros et saints du passé, une fête totalitaire, ce son là les elements de notre âge, c`est, j`en suis sûr, ce que la jeunesse dans vingt ans, oblieuse des tares et des érreures, regardera avec une sombre envie et une nostalgie inguérissable” (1).
E, no mesmo trabalho, ele acentuava, (fazendo suas as palavras de um herói francês da aviação – Fonck – de 1914, também preso por “traição”): “si l`Allemagne est vaincue… elle s`écroulera en donnant au monde une image éternellement sublime”, prosseguindo depois, “il est certain que son durcissement, peut-être fou, a quelque que chose d`heroique et de surhumain devant quoi l`histoire, quoi qu`il arrive, sera obligée de s`incliner”.
Palavras nobilíssimas de quem afrontou a morte sem hesitar. O que ele não pensava é que se em Espanha, em Portugal, na França mesmo, na Itália inclusive e, noutros pontos do globo, ainda há gente que vê com respeito e emoção o combate até ao fim da Germânia vencida mas inquebrantável, quem, oh paradoxo, o desdenha e considera crime nefando é o próprio povo alemão dos nossos dias.
O veneno democrático infectou-lhe o sangue a tal ponto que já nem reconhece o que é grande e glorioso. Ai de nós!
O que um antigo inimigo reconhecia já ele não quer ver.
Não nos perturbe, porém, a sua cegueira e tenhamos sempre presente a lição de Brasillach que soube reconhecer onde estava o verdadeiro valor que os renegados de hoje procuram abafar e até desdenhar.
6 de Fevereiro de 1945! Robert Brasillach: presente, para além da morte.
António José de Brito
(1) – Páginas antes, Brasillach asseverara: “le fascisme, il y a bien longtemps que nous avons pensé que c`étair une poèsie et la poèsie même du XX siècle (avec le communisme sans doute). Il me dis que cela ne peut pas mourir…”
Neste ponto formulo respeitosamente a minha discordância.
Admiro os comunistas que, sob regimes seriamente inimigos, lutam e arriscam a vida. Quanto ao seco evangelho de S. Marx, essa incrítica omelette de materialismo cientista e de dialéctica deturpada, porque incompreendida, não há ponta por onde limpamente se lhe pegue.
Robert Brasillach (31/3/1909 – 6/2/1945)
La Mort en face
"Se tivesse tido vagar, com certeza que escrevia com este título a história dos dias que vivi na cela dos condenados à morte, em Fresnes. Diz-se que não se olha de frente nem para o sol nem para a morte. Mas, por mim, tentei. Nada tenho de estóico e custa muito arrancarmo-nos ao que amamos. Tentei, no entanto, não deixar uma imagem indigna àqueles que me viam ou pensavam em mim.
Os dias, especialmente os derradeiros, foram ricos e plenos. Já não tinha muitas ilusões, sobretudo depois que soube da rejeição do meu pedido de indulto, que, aliás, previ. Terminei o pequeno trabalho sobre Chénier e escrevi ainda alguns poemas. Uma das minhas noites foi má e, de manhã, ainda velava. Mas, nas noites a seguir, dormi muito sossegadamente. Nas três últimas, em todos os serões, reli a narrativa da Paixão em cada um dos quatro Evangelhos. Rezei bastante e era a oração, bem sei, que me dava um sono tranquilo. De manhã, o sacerdote veio trazer-me a comunhão. Pensava com doçura em todos os que amava, em todos aqueles que encontrei na minha vida. Pensava, com desgosto, no desgosto deles. Mas tentava, o mais possível, aceitar."
Robert Brasillach
Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
"Che" para toda a obra
Um recente caso de utilização publicitária da imagem de “Che” Guevara gerou polémica. A fotografia estilizada do argentino tornou-se um ícone dos tempos modernos para muita gente, que na sua maioria nem sabe quem ele foi. Das ‘t-shirts’ aos cigarros, passando pelos preservativos, hoje é possível encontrar o “Che” em quase tudo. Aquele que queria ser um revolucionário anti-capitalista, tornou-se numa marca comercial bastante lucrativa.
Numa recente apresentação da Mercedes em Las Vegas, nos EUA,, os publicitários tiveram uma ideia que pensavam “revolucionária”, mas que é usada nos mais variados produtos – a conhecida imagem de “Che” Guevara com a estrela da marca alemã na boina. Tudo se passou na Consumer Electronics Show, uma feira comercial anual dedicada à electrónica de consumo, e na presença do presidente da Mercedes-Benz, Dieter Zetsche. Em causa estava a apresentação de uma nova aplicação que facilita o ‘car-sharing’, a partilha de automóveis, diminuindo assim o trânsito e as emissões de dióxido de carbono. Zetsche disse que “alguns colegas pensam que partilhar o automóvel ronda o comunismo” e acrescentou “viva a revolução”. Esta “revolução” não foi bem vista, em especial pela comunidade cubana exilada nos EUA, que rapidamente protestou e apelou a um boicote à marca germânica. A congressista republicana Ileana Rós-Lehtinen, presidente da Comissão de Assuntos Externos da Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que “obviamente os criadores do anúncio têm uma imagem errada de Che Guevara”, acrescentando que “Che era um cobarde corrupto e sedento de sangue que matou incontáveis cubanos inocentes no princípio do regime de Castro”.
A utilização da imagem de “Che” está longe de ser uma novidade. Para além da sua presença nas manifestações dos mais variados movimentos e partidos políticos, o uso comercial generalizou-se. São bastante comuns as ‘t-shirts’ e as mais variadas peças de vestuário. Casacos, calças, chapéus, sapatos ténis, ou até ‘bikinis’, são ilustrados com a famosa imagem. Toda esta parafernália é habitualmente apreciada pelos jovens. No entanto, muitos deles desconhecem totalmente quem foi “Che”, o seu percurso de vida, a sua ideologia política e as consequências da sua aplicação.
História de uma imagem
A conhecida imagem de “Che” tem origem numa fotografia do cubano Alberto Korda, intitulada “Guerrillero Heroico” (Guerrilheiro Heróico), tirada a 5 de Março de 1960, em Havana, quando Guevara tinha 31 anos. A redução dessa fotografia, apenas com o busto de “Che” em alto contraste, começou a ser usada em larga escala pelos meios de comunicação social de todo o mundo. Dos ‘media’ ao uso comercial, foi um salto.
Korda nunca reivindicou direitos de autor sobre a imagem, opondo-se apenas uma vez a que esta fosse usada num anúncio de uma conhecida marca de vodka. Comunista assumido, Korda pretendia evitar a exploração comercial da imagem. Chegou a afirmar à imprensa: “Como defensor dos ideais pelos quais Che Guevara morreu, não me oponho à sua reprodução por aqueles que desejam difundir a sua memória e a causa da justiça social por todo o mundo.” Também a filha de “Che”, Aleida Guevara, chegou a contratar advogados para processar judicialmente as empresas que utilizassem a imagem do seu pai. Afirmou que não queria dinheiro, mas “o fim do abuso”, acrescentando, “ele pode ser uma pessoa universal, mas respeitem sua imagem”.
Como é bem visível hoje em dia, tal não aconteceu e o fim para que a imagem é usada vai muito para além da política. Para além da utilização da imagem nas mais variadas peças de vestuário, referida atrás, o “Che” serve também como marca para os mais inacreditáveis produtos. Cerveja, cigarros, relógios, porta-chaves, fivelas, canecas e copos, isqueiros, bonecos e até preservativos! Uma marca comercial de sucesso e bastante lucrativa.
Che e a extrema-direita
Politicamente, se a utilização de “Che” Guevara e da sua imagem é amplamente sabida à esquerda, o facto de chegar até à chamada extrema-direita é quase desconhecida do grande público. À primeira vista parece estranho, quase impossível, mas os grupos da direita radical que reclamam esta figura admiram-no por ser um “revolucionário” e pela sua oposição ao “imperialismo norte-americano”. Em vários países europeus, grupos e militantes nacionais-revolucionários louvaram ou usaram “Che”, mesmo antes da sua morte. O país onde este fenómeno teve e ainda tem mais expressão é Itália. Desde os anos 60 do século passado que grupos da direita radical se apropriaram de “Che”. Mario de la Ferla, autor do livro “L’altro Che – Ernesto Guevara Mito e Simbolo della Destra Militante” (O Outro Che – Ernesto Guevara Mito e Símbolo da Direita Militante), escreve que: “Existe um outro aspecto do amor por Ernesto Guevara que não é inédito, mais é mais difuso. O amor à direita, aquele dos jovens nacionais-revolucionários, os fascistas vermelhos, que amavam o Che ainda antes da sua morte e para quem se tinha tornado mito e símbolo a partir de 68. A paixão por Guevara à direita é uma heresia, uma provocação, uma apropriação indevida mas perdoada.” Mas também na vizinha Espanha, na Bélgica, com Jean Thiriart, em França, com Jean Cau, por exemplo, que afirmou que “O Che batia-se para libertar o seu continente da ocupação americana, da opressão oligárquica e das injustiças”, assistimos a situações semelhantes.
Duarte Branquinho
in «O Diabo», de 24/1/2012.
Numa recente apresentação da Mercedes em Las Vegas, nos EUA,, os publicitários tiveram uma ideia que pensavam “revolucionária”, mas que é usada nos mais variados produtos – a conhecida imagem de “Che” Guevara com a estrela da marca alemã na boina. Tudo se passou na Consumer Electronics Show, uma feira comercial anual dedicada à electrónica de consumo, e na presença do presidente da Mercedes-Benz, Dieter Zetsche. Em causa estava a apresentação de uma nova aplicação que facilita o ‘car-sharing’, a partilha de automóveis, diminuindo assim o trânsito e as emissões de dióxido de carbono. Zetsche disse que “alguns colegas pensam que partilhar o automóvel ronda o comunismo” e acrescentou “viva a revolução”. Esta “revolução” não foi bem vista, em especial pela comunidade cubana exilada nos EUA, que rapidamente protestou e apelou a um boicote à marca germânica. A congressista republicana Ileana Rós-Lehtinen, presidente da Comissão de Assuntos Externos da Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que “obviamente os criadores do anúncio têm uma imagem errada de Che Guevara”, acrescentando que “Che era um cobarde corrupto e sedento de sangue que matou incontáveis cubanos inocentes no princípio do regime de Castro”.
A utilização da imagem de “Che” está longe de ser uma novidade. Para além da sua presença nas manifestações dos mais variados movimentos e partidos políticos, o uso comercial generalizou-se. São bastante comuns as ‘t-shirts’ e as mais variadas peças de vestuário. Casacos, calças, chapéus, sapatos ténis, ou até ‘bikinis’, são ilustrados com a famosa imagem. Toda esta parafernália é habitualmente apreciada pelos jovens. No entanto, muitos deles desconhecem totalmente quem foi “Che”, o seu percurso de vida, a sua ideologia política e as consequências da sua aplicação.
História de uma imagem
A conhecida imagem de “Che” tem origem numa fotografia do cubano Alberto Korda, intitulada “Guerrillero Heroico” (Guerrilheiro Heróico), tirada a 5 de Março de 1960, em Havana, quando Guevara tinha 31 anos. A redução dessa fotografia, apenas com o busto de “Che” em alto contraste, começou a ser usada em larga escala pelos meios de comunicação social de todo o mundo. Dos ‘media’ ao uso comercial, foi um salto.
Korda nunca reivindicou direitos de autor sobre a imagem, opondo-se apenas uma vez a que esta fosse usada num anúncio de uma conhecida marca de vodka. Comunista assumido, Korda pretendia evitar a exploração comercial da imagem. Chegou a afirmar à imprensa: “Como defensor dos ideais pelos quais Che Guevara morreu, não me oponho à sua reprodução por aqueles que desejam difundir a sua memória e a causa da justiça social por todo o mundo.” Também a filha de “Che”, Aleida Guevara, chegou a contratar advogados para processar judicialmente as empresas que utilizassem a imagem do seu pai. Afirmou que não queria dinheiro, mas “o fim do abuso”, acrescentando, “ele pode ser uma pessoa universal, mas respeitem sua imagem”.
Como é bem visível hoje em dia, tal não aconteceu e o fim para que a imagem é usada vai muito para além da política. Para além da utilização da imagem nas mais variadas peças de vestuário, referida atrás, o “Che” serve também como marca para os mais inacreditáveis produtos. Cerveja, cigarros, relógios, porta-chaves, fivelas, canecas e copos, isqueiros, bonecos e até preservativos! Uma marca comercial de sucesso e bastante lucrativa.
Che e a extrema-direita
Politicamente, se a utilização de “Che” Guevara e da sua imagem é amplamente sabida à esquerda, o facto de chegar até à chamada extrema-direita é quase desconhecida do grande público. À primeira vista parece estranho, quase impossível, mas os grupos da direita radical que reclamam esta figura admiram-no por ser um “revolucionário” e pela sua oposição ao “imperialismo norte-americano”. Em vários países europeus, grupos e militantes nacionais-revolucionários louvaram ou usaram “Che”, mesmo antes da sua morte. O país onde este fenómeno teve e ainda tem mais expressão é Itália. Desde os anos 60 do século passado que grupos da direita radical se apropriaram de “Che”. Mario de la Ferla, autor do livro “L’altro Che – Ernesto Guevara Mito e Simbolo della Destra Militante” (O Outro Che – Ernesto Guevara Mito e Símbolo da Direita Militante), escreve que: “Existe um outro aspecto do amor por Ernesto Guevara que não é inédito, mais é mais difuso. O amor à direita, aquele dos jovens nacionais-revolucionários, os fascistas vermelhos, que amavam o Che ainda antes da sua morte e para quem se tinha tornado mito e símbolo a partir de 68. A paixão por Guevara à direita é uma heresia, uma provocação, uma apropriação indevida mas perdoada.” Mas também na vizinha Espanha, na Bélgica, com Jean Thiriart, em França, com Jean Cau, por exemplo, que afirmou que “O Che batia-se para libertar o seu continente da ocupação americana, da opressão oligárquica e das injustiças”, assistimos a situações semelhantes.
Duarte Branquinho
in «O Diabo», de 24/1/2012.
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
O Estado das Direitas
Decorre nos próximos dias 1 e 2 de Fevereiro, das 10 às 17 horas, na Sala Polivalente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), o colóquio com o tema “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”, organizado por Riccardo Marchi.
Na linha do seminário dedicado ao estudo histórico e político das direitas portuguesas intitulado “As raízes profundas não gelam? - Ideias e percursos das direitas portuguesas”, realizado em Novembro de 2010, o investigador italiano radicado em Portugal Riccardo Marchi, autor dos livros “Folhas Ultras - As ideias da direita radical Portuguesa (1939-1950)” e “Império, Nação, Revolução - As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974)”, organiza agora o colóquio “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”.
O foco de análise neste colóquio é o Estado no seu duplo significado de “Condição” e “Ordenamento político-jurídico”. Como nos explica a apresentação, “por um lado, a ‘condição das Direitas’ na sua dimensão política e cultural, numa perspectiva diacrónica desde a institucionalização da democracia até aos nossos dias. Por outro lado, o ‘projecto institucional’ das Direitas na sua dimensão nacional e internacional, numa perspectiva de futuro”.
O colóquio será dividido em dois painéis por dia, aos quais se segue um período de debate. No primeiro, “Direitas e partidos”, moderado por Riccardo Marchi, falarão Tiago Fernandes, sobre “Direita e qualidade da democracia: Portugal em perspectiva comparada (1974 – 2010)” e José Pedro Zúquete, sobre “Direita, genética: entre o passado e o presente”. O segundo, subordinado ao tema “Direitas e Cultura”, terá as intervenções de Patrícia Silva, com a comunicação “Direitas e discurso político: O CDS entre passado e presente”, Alexandre Franco de Sá, com “Direita, Hegemonia e Filosofia Política”, e Pedro Mexia, com “Direitas e Artes”, e será moderado por José Pedro Zúquete. No segundo dia, o painel da manhã, com o tema “Direitas e Estado”, será moderado por Tiago Fernandes e terá como intervenientes Pedro Lomba, com a comunicação “As Direitas e o Estado na arquitectura constitucional”, João Pereira Coutinho, com “As Direitas e a relação entre o Estado e os Corpos intermédios”, e António Araújo, com “As Direitas e a relação entre o Estado e a Sociedade”. O último painel, intitulado “Direitas e Poderes”, com moderação de António Costa Pinto, terá as comunicações “As Direitas, o Estado e o Supranacional (Europa e Comunidade Internacional)”, de Marina Costa Lobo, e “As Direitas e o Estado face ao mercado”, de André Azevedo Alves. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.
Na linha do seminário dedicado ao estudo histórico e político das direitas portuguesas intitulado “As raízes profundas não gelam? - Ideias e percursos das direitas portuguesas”, realizado em Novembro de 2010, o investigador italiano radicado em Portugal Riccardo Marchi, autor dos livros “Folhas Ultras - As ideias da direita radical Portuguesa (1939-1950)” e “Império, Nação, Revolução - As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974)”, organiza agora o colóquio “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”.
O foco de análise neste colóquio é o Estado no seu duplo significado de “Condição” e “Ordenamento político-jurídico”. Como nos explica a apresentação, “por um lado, a ‘condição das Direitas’ na sua dimensão política e cultural, numa perspectiva diacrónica desde a institucionalização da democracia até aos nossos dias. Por outro lado, o ‘projecto institucional’ das Direitas na sua dimensão nacional e internacional, numa perspectiva de futuro”.
O colóquio será dividido em dois painéis por dia, aos quais se segue um período de debate. No primeiro, “Direitas e partidos”, moderado por Riccardo Marchi, falarão Tiago Fernandes, sobre “Direita e qualidade da democracia: Portugal em perspectiva comparada (1974 – 2010)” e José Pedro Zúquete, sobre “Direita, genética: entre o passado e o presente”. O segundo, subordinado ao tema “Direitas e Cultura”, terá as intervenções de Patrícia Silva, com a comunicação “Direitas e discurso político: O CDS entre passado e presente”, Alexandre Franco de Sá, com “Direita, Hegemonia e Filosofia Política”, e Pedro Mexia, com “Direitas e Artes”, e será moderado por José Pedro Zúquete. No segundo dia, o painel da manhã, com o tema “Direitas e Estado”, será moderado por Tiago Fernandes e terá como intervenientes Pedro Lomba, com a comunicação “As Direitas e o Estado na arquitectura constitucional”, João Pereira Coutinho, com “As Direitas e a relação entre o Estado e os Corpos intermédios”, e António Araújo, com “As Direitas e a relação entre o Estado e a Sociedade”. O último painel, intitulado “Direitas e Poderes”, com moderação de António Costa Pinto, terá as comunicações “As Direitas, o Estado e o Supranacional (Europa e Comunidade Internacional)”, de Marina Costa Lobo, e “As Direitas e o Estado face ao mercado”, de André Azevedo Alves. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.
Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
A cultura alternativa vive
Está disponível o número 4 da “Finis Mundi – A Última Cultura”, um exemplo de como há espaço no nosso país para uma revista cultural alternativa de qualidade, que tem vindo a mostrar uma óptima evolução.
Dirigida pelo Flávio Gonçalves, a “Finis Mundi – A Última Cultura” é a concretização de um projecto do qual muitos duvidaram, considerando não haver espaço para uma revista de cultura alternativa em Portugal. Agora, já com quatro números publicados e um ano de existência (talvez devêssemos dizer persistência), não só desmentiu os cépticos e pessimistas, como se foi melhorando substancialmente, numa evolução natural, para uma publicação que se quer de referência. O conteúdo desta revista assumidamente para-académica é fornecido por uma rede de académicos e intelectuais (nacionais e internacionais) e gerido por um Conselho Científico e pelo director.
Neste número 4, relativo ao último trimestre de 2011, Flávio Gonçalves afirma, em editorial, que apesar do primeiro aniversário da revista e da boa recepção e crítica positiva, não baixará a guarda e que quer fazer mais e melhor. Acrescenta ainda que “por estarmos a assistir a um ‘finis mundi’ tal não quer dizer que assobiemos para o lado e não nos esmeremos”. Uma postura a saudar.
O variado conteúdo está dividido em cinco secções, a saber: “A Última Cultura”, “Actualidade”, “Resenha”, “História”,”Cultura” e “Tradição”. Na primeira, para além do editorial, podemos ler os artigos “A Balcanização do Sistema, Ernst Jünger e Os Dias do Fim”, do ex-diplomata croata Tomislav Sunic, “O Fim de Portugal e o Seu Futuro”, de Renato Epifânio, e “Sociopatologia, o ónus da Inversão social e subse quente involução civilizacional e da Pessoa Humana”, de João Lino Santos. Na secção de actualidade, o destaque vai para os artigos “Não derretam os escudos”, de Rainer Daehnhardt, “Geração Erraste”, do jornalista João Filipe Pereira, “Prossegue o Rapto da Europa”, de João Franco, e, especialmente, para “A Imigração, exército de reserva do Capital”, do pensador francês Alain de Benoist. Na secção de História, há a destacar os artigos “Bandeirantes: A Canoa contra o Cavalo”, de Alberto Buela, “A descoberta portuguesa da ‘Grande Terra do Sul’ e da Nova Zelândia”, de Kerry Bolton, “O Integralismo Lusitano”, de Vítor Figueira Martins, e, principalmente, “Portugal: Do Integracionismo Imperial ao Etno-nacionalismo. Pistas de investigação, do historiador e investigador italiano sedeado no nosso país Riccardo Marchi. Na secção cultural, refira-se o artigo sobre “A Chegada de Corto Maltese a Portugal”, de Mário Casa Nova Martins, e “Reconquistar Tudo: Identidade”, do filósofo italiano Adriano Scianca. Por fim, na secção “Tradição”, o destaque vai para os artigos “As Festividades de Solstício de Inverno nos Açores”, de Luís Couto, “A Doutrina da União Divina na Tradição Helénica”, de Claudio Mutti, e “Lar: O Fogo Central”, de Luiz Pontual.
Última referência para a apresentação gráfica que foi profundamente renovada e está de parabéns. Não só pela sobriedade chamativa da capa, como pela paginação cuidada e a escolha e tratamento das imagens que ilustram os artigos, até ao pormenor do logótipo do cabeçalho.
A “Finis Mundi” é uma voz dissidente num mundo uniformizado pelo politicamente correcto. Um verdadeiro espaço de liberdade, reflexão e pensamento.
Encomendas para o endereço electrónico antagonistaeditora@gmail.com (disponível a opção de envio à cobrança). O preço da revista são 12 euros, e a editora oferece os portes. Também disponível através da Amazon.com.
Dirigida pelo Flávio Gonçalves, a “Finis Mundi – A Última Cultura” é a concretização de um projecto do qual muitos duvidaram, considerando não haver espaço para uma revista de cultura alternativa em Portugal. Agora, já com quatro números publicados e um ano de existência (talvez devêssemos dizer persistência), não só desmentiu os cépticos e pessimistas, como se foi melhorando substancialmente, numa evolução natural, para uma publicação que se quer de referência. O conteúdo desta revista assumidamente para-académica é fornecido por uma rede de académicos e intelectuais (nacionais e internacionais) e gerido por um Conselho Científico e pelo director.
Neste número 4, relativo ao último trimestre de 2011, Flávio Gonçalves afirma, em editorial, que apesar do primeiro aniversário da revista e da boa recepção e crítica positiva, não baixará a guarda e que quer fazer mais e melhor. Acrescenta ainda que “por estarmos a assistir a um ‘finis mundi’ tal não quer dizer que assobiemos para o lado e não nos esmeremos”. Uma postura a saudar.
O variado conteúdo está dividido em cinco secções, a saber: “A Última Cultura”, “Actualidade”, “Resenha”, “História”,”Cultura” e “Tradição”. Na primeira, para além do editorial, podemos ler os artigos “A Balcanização do Sistema, Ernst Jünger e Os Dias do Fim”, do ex-diplomata croata Tomislav Sunic, “O Fim de Portugal e o Seu Futuro”, de Renato Epifânio, e “Sociopatologia, o ónus da Inversão social e subse quente involução civilizacional e da Pessoa Humana”, de João Lino Santos. Na secção de actualidade, o destaque vai para os artigos “Não derretam os escudos”, de Rainer Daehnhardt, “Geração Erraste”, do jornalista João Filipe Pereira, “Prossegue o Rapto da Europa”, de João Franco, e, especialmente, para “A Imigração, exército de reserva do Capital”, do pensador francês Alain de Benoist. Na secção de História, há a destacar os artigos “Bandeirantes: A Canoa contra o Cavalo”, de Alberto Buela, “A descoberta portuguesa da ‘Grande Terra do Sul’ e da Nova Zelândia”, de Kerry Bolton, “O Integralismo Lusitano”, de Vítor Figueira Martins, e, principalmente, “Portugal: Do Integracionismo Imperial ao Etno-nacionalismo. Pistas de investigação, do historiador e investigador italiano sedeado no nosso país Riccardo Marchi. Na secção cultural, refira-se o artigo sobre “A Chegada de Corto Maltese a Portugal”, de Mário Casa Nova Martins, e “Reconquistar Tudo: Identidade”, do filósofo italiano Adriano Scianca. Por fim, na secção “Tradição”, o destaque vai para os artigos “As Festividades de Solstício de Inverno nos Açores”, de Luís Couto, “A Doutrina da União Divina na Tradição Helénica”, de Claudio Mutti, e “Lar: O Fogo Central”, de Luiz Pontual.
Última referência para a apresentação gráfica que foi profundamente renovada e está de parabéns. Não só pela sobriedade chamativa da capa, como pela paginação cuidada e a escolha e tratamento das imagens que ilustram os artigos, até ao pormenor do logótipo do cabeçalho.
A “Finis Mundi” é uma voz dissidente num mundo uniformizado pelo politicamente correcto. Um verdadeiro espaço de liberdade, reflexão e pensamento.
Encomendas para o endereço electrónico antagonistaeditora@gmail.com (disponível a opção de envio à cobrança). O preço da revista são 12 euros, e a editora oferece os portes. Também disponível através da Amazon.com.
Domingo, 29 de Janeiro de 2012
Anatomia de um assassino
“Para enviar homens para o pelotão de fuzilamento, as provas judiciais são desnecessárias. Tais procedimentos são um arcaico detalhe burguês. Isto é uma revolução! E um revolucionário deve transformar-se numa fria máquina de matar alimentada pelo ódio puro. Devemos criar a pedagogia do paredão.”
Poderíamos julgar que tão absurda afirmação, própria de um cenário de loucura, teria sido proferida pela rainha de “Alice no País das Maravilhas”, o saboroso e notável clássico de Lewis Carroll, onde a sentença sempre antecedia o veredicto com a Alice em permanente risco de perder a cabeça. Mas de facto não. Poderiam ter ouvido estas pérolas em Cuba no final da década de cinquenta do século passado, da boca do argentino Ernesto Rafael Guevara de la Serna, mais conhecido por “El Che” ou simplesmente “Che”. Notável caso de estudo de uma das mais fabulosas mistificações, fraudes e distorção da história recente.
Morto aos 39 anos, legou à grata humanidade que o quase alcandorou aos altares e ao estatuto de herói um legado de barbárie, execuções, assassinatos e terrorismo. O herói romântico e revolucionário oculta, na realidade, um assassino frio e premeditado que não resistiria, num mundo em que primassem as análises objectivas, a um crivo que não necessitaria sequer de ser demasiado rigoroso.
Admirador confesso de Estaline, junto a cujo retrato em Moscovo, jurou “não descansar até ver esses polvos capitalistas aniquilados”, tendo-se, inclusive indisposto com o embaixador cubano porque este se opôs a depositar flores no seu mausoléu. Glorificava igualmente o sanguinário Mao Tsé-Tung, que conheceu pessoalmente numa viagem à China. Admirava ainda os jovens comunistas da Guerra Civil Espanhola, muitos dos quais ficaram famosos por inúmeras boas prestações... Um deles, Angel Ciutah, foi o assessor de Guevara na criação do serviço de segurança, para “proteger” o estado revolucionário cubano. Este serviço de segurança ficou famoso como exemplar na arte da tortura, provas forjadas e dos assassinatos. Quem discordava do “comandante” era sumariamente executado, como aconteceu, por exemplo ao companheiro de luta Huber Matos. A máxima de Guevara era na “na dúvida mate-se”. De todos os países visitados, o que mais admirou, como escreveu, foi a Coreia do Norte, que visitou pouco depois da grande purga. Será preciso dizer mais?
Execuções e tortura
Luis Ortega, que conheceu “Che” desde 1954, escreveu no seu livro “Yo Soy El Che!” que Guevara enviou 1897 pessoas para o pelotão de fuzilamento e Daniel James, no seu livro “Che Guevara: A Biography”, escreve que o próprio Guevara admitiu que ordenou milhares de execuções apenas nos primeiros anos do regime castrista. Parece pois claro que Guevara, ordenou o fuzilamento de milhares de inocentes de qualquer crime, enviados ao ‘paredón’ de La Cabaña sob a acusação de “agentes da CIA”. Igualmente responsável pelo envio para as ignóbeis prisões nas quais ordenava bárbaras formas tortura. Em ambos os casos nunca se isentando de activamente participar… Um especialista em tortura psicológica sobre a qual deixa notórios contributos, Guevara gostava especialmente dos simulacros de fuzilamento à noite, quando, escreveu, “a resistência é menor”.
O “Che” disse muitas vezes que “Cuba devia seguir o exemplo de desenvolvimento pacífico mostrado pela URSS”. De que desenvolvimento pacífico falaria? Na realidade, a “ilha-prisão” seguiu de perto o exemplo soviético, aí não faltando a corrupção, as purgas, os assassinatos, os campos de “reeducação” a repressão sistemática. Indiscutivelmente que um dos ‘highlights’ da revolução cubana foi o tristemente célebre ‘Paredón’, no qual Guevara teve notória participação.
Junto aos seus ídolos Lenine, Estaline, Mao, Kim Il Sung e companhia o Dr. Guevara muito contribuiu para a construção sistema político que mais matou pessoas em toda a história, o dito “comunismo” também chamado de “socialismo real”, mas que ainda hoje, por ironias várias, é visto como um bem. De facto, nem esses mais de 100 milhões de vítimas parecem ser suficientes para derrubar esse mito que transformou um criminoso arrogante, mentiroso e intolerante num herói ou santo aos olhos daqueles incapazes de aprender História e aceitar as suas lições sobre os mitos de conveniência.
Che, hoje
Infelizmente, nos nossos dias não faltam inocentes (muitos talvez o não sejam…) de circunstância que continuam a idolatrar o “Che”, usam ‘t-shirts’ e restante parafernália com a sua imagem, meninas e senhoras bem que o usam nas malas e outros adereços ‘chic’, algumas passeando-o mesmo na praia (ele que segundo alguns próximos registam era tão avesso a banhos...) como meio de tapar as pudibundas paragens, assim confiadas a tão repugnante personagem. Um ícone revolucionário-chic que cativa mentes fracas, adormecidas e incapazes de associarem a criatura à criação. Enfim, algo que já vai sendo característico neste mundo em ruínas. Alguns, mais afoitos, repetem mesmo frases como “Hasta la victoria siempre!”, não reflectindo no ódio que encerram e no rasto de sangue deixado…
Naturalmente que as pessoas são livres de gostarem de quem muito bem entendem (temo que até Pol Pot possa ter cultores, sem que os motivos da preferência devam/tenham que ser universais), mas daí a arvorá-las a heróis da liberdade vai um enorme passo. E como aplicá-las a um guerrilheiro assassino, com as próprias mãos tintas de sangue, que lutou ao serviço do imperialismo soviético na América e em África? Como classificar de pacifista o admirador confesso dos personagens e regimes referenciados (que assinou mesmo cartas com o pseudónimo de Estaline II).
Realmente é um caso a estudar esta mitificação/mistificação que atravessou a segunda metade do século XX e se vem ainda instalar neste início do XXI. E, para muitos, sem dúvida um caso patológico de torpe branqueamento que importa apurar...
Humberto Nuno de Oliveira
in «O Diabo», de 24 de Janeiro de 2012.
Chesterton no Méridien Zéro
Hoje, o programa Méridien Zéro terá como tema o escritor G.K. Chesterton e tem como convidado Philippe Maxence. A emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser seguida através da Radio Bandiera Nera.
Sábado, 28 de Janeiro de 2012
Um pequeno grande livro
Na altura em que se assinalam os 150 anos da morte de D. Pedro V, a Texto Editores decidiu publicar o clássico de Ruben Andresen Leitão sobre este monarca que teve um reinado curto mas marcante. Um excelente retrato do nosso Rei Esperançoso.
Ruben Andresen Leitão é mais conhecido como romancista e pelo pseudónimo literário Ruben A., mas este autor fascinante foi também dramaturgo e historiador. Entre 1947 e 1974 dedicou a D. Pedro V, que considerava “o primeiro homem moderno do nosso país”, dezasseis obras. “D. Pedro V – Um Homem e um Rei” (capa dura, 128 páginas, 15,90 euros), escrito em 1947, tem um duplo objectivo segundo o autor – “servir de introdução às Obras Completas de D. Pedro V” e “perpetuar a memória dos verdadeiros homens da Casa de Bragança”. A sua admiração por este Rei em nada prejudica a obra, apenas lhe faz justiça. Para Ruben Andresen Leitão, “a História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura concepção da actuação vivida”. No entanto, o escritor, em toda a sua qualidade, está aqui presente, oferecendo-nos uma belíssima prosa e uma leitura deliciosa, com um extraordinário poder de síntese.
O primeiro capítulo, intitulado acertada e singelamente “O Ambiente”, é uma reflexão sobre o conturbado período que antecedeu o reinado de D. Pedro V, fi lho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, com o qual pode fazer um impressionante paralelo com os dias de hoje. Inspiradoras e reveladoras da sua mente superior, bem como da sua profunda observação do País e do seu povo, são as citações do próprio Rei que encabeçam cada um dos capítulos. Como escreveu o jornalista e historiador Roberto de Moraes na revista “Futuro Presente”, aquando dos 150 anos da aclamação de D. Pedro V, este era “da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte” e “aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser”. Um Homem cuja morte precoce foi uma perda para Portugal, mais um daqueles azares históricos que parecem ser recorrentes na nossa História.
Até nas edições há curiosidades que saltam à vista dos mais atentos. Algo que Ruben Andresen Leitão considerava inacreditável era o facto de a data da morte de D. Pedro V estar incorrecta. Como ele escreve, “mataram o soberano em 1859, dois anos antes do seu desaparecimento!” Pois bem, na pequena nota biográfica do autor publicada, também este “morre” um ano antes... Apesar desta gralha, a editora está de parabéns. Tanto pelo sentido de ocasião, como pela edição cuidada, que felizmente não cedeu ao famigerado Acordo Ortográfico. E porque o livro enquanto objecto também é importante, há a destacar a bela e sóbria capa gravada que se esconde debaixo da esplêndida imagem impressa na sobrecapa.
Este é um livro pequeno em tamanho, mas grande em qualidade – tal como o reinado de D. Pedro V.
Duarte Branquinho
in «O Diabo», de 3 de Janeiro de 2012.
Ruben Andresen Leitão é mais conhecido como romancista e pelo pseudónimo literário Ruben A., mas este autor fascinante foi também dramaturgo e historiador. Entre 1947 e 1974 dedicou a D. Pedro V, que considerava “o primeiro homem moderno do nosso país”, dezasseis obras. “D. Pedro V – Um Homem e um Rei” (capa dura, 128 páginas, 15,90 euros), escrito em 1947, tem um duplo objectivo segundo o autor – “servir de introdução às Obras Completas de D. Pedro V” e “perpetuar a memória dos verdadeiros homens da Casa de Bragança”. A sua admiração por este Rei em nada prejudica a obra, apenas lhe faz justiça. Para Ruben Andresen Leitão, “a História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura concepção da actuação vivida”. No entanto, o escritor, em toda a sua qualidade, está aqui presente, oferecendo-nos uma belíssima prosa e uma leitura deliciosa, com um extraordinário poder de síntese.
O primeiro capítulo, intitulado acertada e singelamente “O Ambiente”, é uma reflexão sobre o conturbado período que antecedeu o reinado de D. Pedro V, fi lho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, com o qual pode fazer um impressionante paralelo com os dias de hoje. Inspiradoras e reveladoras da sua mente superior, bem como da sua profunda observação do País e do seu povo, são as citações do próprio Rei que encabeçam cada um dos capítulos. Como escreveu o jornalista e historiador Roberto de Moraes na revista “Futuro Presente”, aquando dos 150 anos da aclamação de D. Pedro V, este era “da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte” e “aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser”. Um Homem cuja morte precoce foi uma perda para Portugal, mais um daqueles azares históricos que parecem ser recorrentes na nossa História.
Até nas edições há curiosidades que saltam à vista dos mais atentos. Algo que Ruben Andresen Leitão considerava inacreditável era o facto de a data da morte de D. Pedro V estar incorrecta. Como ele escreve, “mataram o soberano em 1859, dois anos antes do seu desaparecimento!” Pois bem, na pequena nota biográfica do autor publicada, também este “morre” um ano antes... Apesar desta gralha, a editora está de parabéns. Tanto pelo sentido de ocasião, como pela edição cuidada, que felizmente não cedeu ao famigerado Acordo Ortográfico. E porque o livro enquanto objecto também é importante, há a destacar a bela e sóbria capa gravada que se esconde debaixo da esplêndida imagem impressa na sobrecapa.
Este é um livro pequeno em tamanho, mas grande em qualidade – tal como o reinado de D. Pedro V.
Duarte Branquinho
in «O Diabo», de 3 de Janeiro de 2012.
Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
Domingo, 22 de Janeiro de 2012
Méridien Zéro
Hoje, o programa Méridien Zéro recebe Pascl Esseyric e Patrick Pehel, da revista "Élements", e Olivier Meyer, da revista "Homère". A emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser seguida através da Radio Bandiera Nera.
Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
Céline inédito
Disponível nos quiosques nacionais está o número especial da revista francesa “Lire” dedicado ao escritor “maldito” Céline. São cem páginas, a cores e sem publicidade, com vários conteúdos inéditos, para melhor conhecermos este mestre das letras francesas.
Em 2008, a “Lire” dedicou um número especial a Céline que foi um sucesso e rapidamente esgotou. Perante este êxito e as recentes polémicas que envolveram o escritor francês, decidiu agora fazer uma nova edição “enriquecida”, com vários conteúdos inéditos.
A abrir, um artigo de opinião reflecte sobre a ironia de ter sido durante o mandato de Sarkozy, um apaixonado pela obra de Céline, que este escritor foi banido das celebrações oficiais, pela mão do ministro da Cultura, Frédéric Mitterand. Como afirmou o actual presidente francês, “podemos gostar de Céline sem sermos anti-semitas, como podemos gostar de Proust sem sermos homossexuais”, mas nem assim se impediu a censura...
De seguida, há a destacar a entrevista com François Gibault, autor de uma enorme biografia sobre o escritor francês, a publicação do capítulo das Memórias do Coronel SS Hermann Bickler sobre o seu amigo Céline, o artigo onde se questiona se não devia republicar os chamados panfletos anti-semitas, quando hoje estão facilmente acessíveis através da Internet, e a versão integral da entrevista feita por Madeleine Chapsal, em 1957, cuja publicação no “L’Express” causou polémica na altura. Nos vários conteúdos inéditos, há a destacar a obra de Céline mais cara do mundo, um exemplar de “Morte a Crédito” ilustrado por Gen Paul, com a reprodução de vários guaches, e uma carta inédita de Céline a Gen Paul. Por fim, temos três páginas com uma selecção de livros de e sobre Céline.
Para os incomodados do costume, recorde-se o que escreve François Busnel no editorial, parafraseando Gallimard quando decidiu colocar Céline na Pléiade: “Fico contente com todos aqueles que isto vai chatear...”
Em 2008, a “Lire” dedicou um número especial a Céline que foi um sucesso e rapidamente esgotou. Perante este êxito e as recentes polémicas que envolveram o escritor francês, decidiu agora fazer uma nova edição “enriquecida”, com vários conteúdos inéditos.
A abrir, um artigo de opinião reflecte sobre a ironia de ter sido durante o mandato de Sarkozy, um apaixonado pela obra de Céline, que este escritor foi banido das celebrações oficiais, pela mão do ministro da Cultura, Frédéric Mitterand. Como afirmou o actual presidente francês, “podemos gostar de Céline sem sermos anti-semitas, como podemos gostar de Proust sem sermos homossexuais”, mas nem assim se impediu a censura...
De seguida, há a destacar a entrevista com François Gibault, autor de uma enorme biografia sobre o escritor francês, a publicação do capítulo das Memórias do Coronel SS Hermann Bickler sobre o seu amigo Céline, o artigo onde se questiona se não devia republicar os chamados panfletos anti-semitas, quando hoje estão facilmente acessíveis através da Internet, e a versão integral da entrevista feita por Madeleine Chapsal, em 1957, cuja publicação no “L’Express” causou polémica na altura. Nos vários conteúdos inéditos, há a destacar a obra de Céline mais cara do mundo, um exemplar de “Morte a Crédito” ilustrado por Gen Paul, com a reprodução de vários guaches, e uma carta inédita de Céline a Gen Paul. Por fim, temos três páginas com uma selecção de livros de e sobre Céline.
Para os incomodados do costume, recorde-se o que escreve François Busnel no editorial, parafraseando Gallimard quando decidiu colocar Céline na Pléiade: “Fico contente com todos aqueles que isto vai chatear...”
Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Contradições europeias
Estes porque, traumatizados por duas guerras fratricidas entre europeus e no meio da Europa (e só resolvidas pela chegada dos americanos), pensaram que acabar com as nações e as fronteiras era a solução ideal para acabar com a guerra.
Os fascistas europeístas viam na Europa o Império que se podia opor ao império oriental dos bolcheviques e ao império ocidental do capitalismo americano. Além de ser uma forma universalista de superar os nacionalismos e evitar o seu choque mortal.
DEPOIS de 1945, os países europeus já não eram os poderes da terra: a Alemanha fora vencida e estava destruída; a Itália também ficara do lado dos vencidos; a França, teoricamente entre os vencedores, fora vencida pela vencida Alemanha e libertada, outra vez, pelos americanos. A Grã-Bretanha era a única potência europeia que aguentara toda a guerra e não fora ocupada. Mas, como tinham percebido Chamberlain e os apaziguadores de 1938, o custo da guerra mundial era a perda do Império e a subordinação aos Estados Unidos.
Não era difícil entre as pedras deste mosaico de poderes diminuídos evitar o conflito. Qual seria o objectivo desse conflito, relegados para poderes de segunda classe, com os impérios em liquidação, as cidades e as indústrias destruídas?
A partir daí a ideia da União como forma de restabelecer a força, fazia sentido. Primeiro a união económica – o mercado comum; depois a financeira. Mas quando se chegou à união política e foi preciso consultar os povos, estes disseram – os franceses e os holandeses – que não. Abdicar da soberania nacional não era o mesmo que fazer trocas comerciais e circular livremente.
A experiência da moeda única foi outro caminho sinuoso para a unidade política. Esta sempre fora apresentada, pelos seus defensores, como uma unidade entre iguais. Mas os Estados não são iguais, são muito diferentes nos factores do poder. Como não se teve em conta os factores históricos e culturais, o motor foi uma vontade político-tecnocrática que se quis fundamentar nas razões da economia e impor através do direito.
A REALIDADE chegou com a crise das dívidas soberanas que mais não é que uma projecção da crise económica europeia. A Europa não tem recursos naturais nem manufacturas comercializáveis que possam permitir o nível de vida a que os governos habituaram os povos. A solução foi a dívida, encorajada por esses governos que são uma espécie de dirigentes clubísticos que procuraram agradar aos membros da agremiação dando-lhes crescentes regalias e benesses.
Não havendo recursos naturais – nem de energia, nem de comida – e tendo, com excepção da Alemanha e de uns poucos e pequenos países do Norte e Centro, desmantelado a indústria, que passou para a Ásia, o recurso para manter esta economia de serviços com os seus habitantes contentes foi recorrer ao crédito. Ir pedindo emprestado hoje para pagar amanhã.
Criou-se assim um socratiano universo de ‘gestão’ indolor dos passivos, nos países do sul. Quando a crise de 2008 abriu asas sobre a Europa e a zona euro, percebeu-se a extensão da dívida e os prestadores começaram a exigir condições usurárias.
Na alternativa da sobrevivência a União Europeia começou a devorar as suas próprias instituições para sobreviver: os governos eleitos, bons ou maus, mas eleitos, foram substituídos na Grécia e na Itália, por governos chefiados por tecnocratas europeístas. E o directório germano-francês, personalizado por Merkel e Sarkozy, passou a decidir (ou não decidir) tudo, marginalizando os países pequenos e a própria Comissão.
Ou seja, em nome da eficácia, neutraliza-se a democracia.
Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", de 6 de Janeiro de 2012.
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
E agora?
As dúvidas são grandes e a expectativa maior. Os receios quanto ao que será o futuro de Portugal e da Europa aumentam. O tempo das “vacas gordas”, da vida confortável e do futuro garantido chegou ao fim. O mundo mudou e o nosso país também. 2011 foi um ano de viragem e, no novo ciclo que se avizinha, nada será como dantes.
O ano transacto foi um annus horribilis para todos os que nos asseguravam que tudo ia correr bem. Os políticos do costume, bem instalados, viram a sua careca descoberta. Afinal, todo este progresso e desenvolvimento era ilusório. Comprado a crédito e hipotecando gradualmente o País a interesses estrangeiros. Com um endividamento geral, dos interesses do Estado às famílias, não tardou a que os credores nos batessem à porta. As dúvidas sobre a perda da nossa soberania esbateram-se com o início oficial de um semi-protectorado ou de um co-governo, como queiramos chamar. Mas Portugal não foi um caso único. A Europa foi vítima de repetidos ataques e a ditadura dos mercados mostrou a sua força ao fazer cair governos e colocando em seu lugar homens da sua confiança.
Portugal
No nosso país, percebemos que nem o fim do socratismo, nem as “medidas de austeridade e contenção” alteraram a situação perante os sempre atentos e intervenientes “mercados”, como agora se diz. Simultaneamente a esta perda de confiança nas instituições políticas e o questionar da validade das eleições enquanto instrumento popular de alteração da situação, vieram a descredibilização total no sistema judiciário, onde apenas quem tem posses razoáveis parece escapar, e a desconfiança nas instituições financeiras, com as falências de bancos e as repetidas fraudes. Os despedimentos, abaixamento do poder de compra e a subida da criminalidade aumentaram o sentimento de insegurança. O receio de um regresso ao Escudo, com a respectiva quebra do valor da moeda, assusta cada vez mais gente. Na rua, o nosso pessimismo agravou-se.
Perante tal cenário, os portugueses iniciaram de novo um êxodo. A taxa de emigração subiu vertiginosamente. Mas hoje, para além de técnicos qualificados, grande parte dos que saem não pensa voltar ou ser português. Como filhos da globalização, viver em Braga, São Paulo ou Nova Iorque é a mesma coisa. Esta verdadeira fuga coincide com outras – a fuga de capitais e de investimentos.
Grande parte dos portugueses deixou de acreditar em Portugal.
Europa
Também no resto da Europa, depois de anos ricos, as dificuldades apertam. A actual construção europeia treme com a força dos “mercados” e com as divisões internas. Mesmo a moeda única não parece resistir. O nosso continente é hoje um grupo de países sobreendividados, que viram passiva e alegremente a sua força produtiva partir para outras paragens, onde cada um tenta tratar da sua sorte, sem uma necessária estratégia comum.
Neste estado frágil, nada pior do que a situação conturbada que se vive no Mediterrâneo e no Médio Oriente. As várias revoltas a que se chamou a “Primavera Árabe”, pelos que apenas viam “a vinda da liberdade e da democracia a povos oprimidos”, abriram a porta aos islamitas, a uma maior instabilidade na região e à incerteza quanto ao futuro.
Mundo
A alteração do equilíbrio de forças no mundo ficou marcada pela influência crescente das chamadas potências emergentes. Com a China à cabeça, comprando dívidas e empresas estrangeiras e exportando produtos e mão-de-obra, percebemos como os parceiros do grande jogo da política mundial mudaram.
Os Estados Unidos da América, apesar da dívida e da crise económico-financeira, continuam a ser uma potência militar impressionante e a influenciar directamente a política externa. Quem acreditou numa “mudança”, já viu que afinal nada mudou. Os norte-americanos não abdicam dos seus interesses.
O fim da ilusão
Vivemos em fartura e, agora que sabemos que adversidades espreitam, somos forçados a mudar. Há sempre quem nos garanta horizontes de melhoria, que tudo vai ser como dantes em breve. O discurso dos “especialistas” do costume, dos optimismos oportunistas, é sempre o mesmo.
Mas uma coisa é certa e percebida – a festa da felicidade perpétua vai terminar. O reino da abundância chegou ao fim. Esta desilusão – no sentido profundo do termo – é também uma oportunidade. Um tempo para mudar de atitude e não descurar o que é realmente importante. A altura ideal para reencontrarmos valores essenciais, que foram sendo esquecidos e perdidos.
O nosso futuro
A futurologia é a disciplina predilecta dos comentadores políticos. Acontece que, ultimamente, com tantos erros de previsão e cálculos económicos, caiu em descrédito.
Numa altura em que os desafios se agigantam e as dificuldades nos estrangulam, há que redescobrir a fibra dos portugueses que ao longo da nossa História não vacilaram perante as maiores adversidades. Que mantiveram acesa até hoje a chama pátria e nos legaram a responsabilidade de perpetuar esse fogo sagrado. Reza o nosso hino: Levantai hoje de novo…
O nosso futuro pertence-nos. O nosso pior inimigo é a passividade em relação à condução dos nossos destinos enquanto país, a apatia generalizada face ao porvir de uma Nação da qual somos parte integrante.
O nosso futuro pertence-nos. Alea jacta est!
Duarte Branquinho
in «O Diabo», de 3 de Janeiro de 2012.
O ano transacto foi um annus horribilis para todos os que nos asseguravam que tudo ia correr bem. Os políticos do costume, bem instalados, viram a sua careca descoberta. Afinal, todo este progresso e desenvolvimento era ilusório. Comprado a crédito e hipotecando gradualmente o País a interesses estrangeiros. Com um endividamento geral, dos interesses do Estado às famílias, não tardou a que os credores nos batessem à porta. As dúvidas sobre a perda da nossa soberania esbateram-se com o início oficial de um semi-protectorado ou de um co-governo, como queiramos chamar. Mas Portugal não foi um caso único. A Europa foi vítima de repetidos ataques e a ditadura dos mercados mostrou a sua força ao fazer cair governos e colocando em seu lugar homens da sua confiança.
Portugal
No nosso país, percebemos que nem o fim do socratismo, nem as “medidas de austeridade e contenção” alteraram a situação perante os sempre atentos e intervenientes “mercados”, como agora se diz. Simultaneamente a esta perda de confiança nas instituições políticas e o questionar da validade das eleições enquanto instrumento popular de alteração da situação, vieram a descredibilização total no sistema judiciário, onde apenas quem tem posses razoáveis parece escapar, e a desconfiança nas instituições financeiras, com as falências de bancos e as repetidas fraudes. Os despedimentos, abaixamento do poder de compra e a subida da criminalidade aumentaram o sentimento de insegurança. O receio de um regresso ao Escudo, com a respectiva quebra do valor da moeda, assusta cada vez mais gente. Na rua, o nosso pessimismo agravou-se.
Perante tal cenário, os portugueses iniciaram de novo um êxodo. A taxa de emigração subiu vertiginosamente. Mas hoje, para além de técnicos qualificados, grande parte dos que saem não pensa voltar ou ser português. Como filhos da globalização, viver em Braga, São Paulo ou Nova Iorque é a mesma coisa. Esta verdadeira fuga coincide com outras – a fuga de capitais e de investimentos.
Grande parte dos portugueses deixou de acreditar em Portugal.
Europa
Também no resto da Europa, depois de anos ricos, as dificuldades apertam. A actual construção europeia treme com a força dos “mercados” e com as divisões internas. Mesmo a moeda única não parece resistir. O nosso continente é hoje um grupo de países sobreendividados, que viram passiva e alegremente a sua força produtiva partir para outras paragens, onde cada um tenta tratar da sua sorte, sem uma necessária estratégia comum.
Neste estado frágil, nada pior do que a situação conturbada que se vive no Mediterrâneo e no Médio Oriente. As várias revoltas a que se chamou a “Primavera Árabe”, pelos que apenas viam “a vinda da liberdade e da democracia a povos oprimidos”, abriram a porta aos islamitas, a uma maior instabilidade na região e à incerteza quanto ao futuro.
Mundo
A alteração do equilíbrio de forças no mundo ficou marcada pela influência crescente das chamadas potências emergentes. Com a China à cabeça, comprando dívidas e empresas estrangeiras e exportando produtos e mão-de-obra, percebemos como os parceiros do grande jogo da política mundial mudaram.
Os Estados Unidos da América, apesar da dívida e da crise económico-financeira, continuam a ser uma potência militar impressionante e a influenciar directamente a política externa. Quem acreditou numa “mudança”, já viu que afinal nada mudou. Os norte-americanos não abdicam dos seus interesses.
O fim da ilusão
Vivemos em fartura e, agora que sabemos que adversidades espreitam, somos forçados a mudar. Há sempre quem nos garanta horizontes de melhoria, que tudo vai ser como dantes em breve. O discurso dos “especialistas” do costume, dos optimismos oportunistas, é sempre o mesmo.
Mas uma coisa é certa e percebida – a festa da felicidade perpétua vai terminar. O reino da abundância chegou ao fim. Esta desilusão – no sentido profundo do termo – é também uma oportunidade. Um tempo para mudar de atitude e não descurar o que é realmente importante. A altura ideal para reencontrarmos valores essenciais, que foram sendo esquecidos e perdidos.
O nosso futuro
A futurologia é a disciplina predilecta dos comentadores políticos. Acontece que, ultimamente, com tantos erros de previsão e cálculos económicos, caiu em descrédito.
Numa altura em que os desafios se agigantam e as dificuldades nos estrangulam, há que redescobrir a fibra dos portugueses que ao longo da nossa História não vacilaram perante as maiores adversidades. Que mantiveram acesa até hoje a chama pátria e nos legaram a responsabilidade de perpetuar esse fogo sagrado. Reza o nosso hino: Levantai hoje de novo…
O nosso futuro pertence-nos. O nosso pior inimigo é a passividade em relação à condução dos nossos destinos enquanto país, a apatia generalizada face ao porvir de uma Nação da qual somos parte integrante.
O nosso futuro pertence-nos. Alea jacta est!
Duarte Branquinho
in «O Diabo», de 3 de Janeiro de 2012.
Domingo, 8 de Janeiro de 2012
Panorama geopolítico das revoltas árabes
Hoje, o programa Méridien Zéro fará um panorama geopolítico das Revoltas Árabes e tem como convidado o historiador e jornalista Jacques Borde, especialista em geopolítica do mundo árabo-muçulmano. A emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser seguida através da Radio Bandiera Nera.
Sábado, 7 de Janeiro de 2012
La Nouvelle Revue d’Histoire n.º 58
O número 58 de «La Nouvelle Revue d’Histoire», relativo aos meses de Janeiro e Fevereiro, disponível nas bancas nacionais, tem como tema central “Os intelectuais e a esquerda na Colaboração” e oferece um excelente dossier com vários artigo de Dominique Venner, Julien Hervier, Francis Bergeron, Alain de Benoist, Philippe d'Hugues, Charles Vaugeois e Antoine Baudoin. Destaque ainda para os artigos “Hanna Reitsch, uma aviadora alemã”, de Yvonne Pagniez, “1912. O apogeu da corrida aos pólos”, de Philippe Conrad, e “Mackinder, teórico da supremacia anglo-saxónica”, de Aymeric Chauprade, e a entrevista com Françoise Autrand. Como sempre, há ainda outros artigos e as secções habituais de actualidade e crítica de livros. Uma referência na divulgação histórica.
Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
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