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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Como a esquerda se entretém
"A esquerda portuguesa é de facto extraordinária. Quando se provou que os partidos da esquerda se tinham metido num beco sem saída, a primeira ideia que veio à cabecinha das notabilidades da seita foi fabricar mais partidos, sempre à procura da mítica “unidade”, que por toda a parte desapareceu logo na sua auspiciosa criação. Excepto sob a autoridade da URSS, primeiro em Moscovo e a seguir no Comintern e no Cominform, a história do socialismo nunca passou de uma série de querelas, de cisões, de purgas, de assassinatos cometidos com suma piedade e zelo. Mas, pelos vistos, continua em Portugal, no ano de 2013, a mesma ambição de juntar os “verdadeiros” camaradas numa casa comum que domine a política nacional e acabe de uma vez com as terríveis desordens do capitalismo.
O Bloco de Esquerda, hoje defunto, começou com essas fantasias. Claro que o BE não tinha nada de esquerda: nem “massas” que o seguissem, nem um programa para a reforma do país, nem sequer uma estratégia: tinha só as famosíssimas “rupturas”. Mas protegido por alguns génios, que pretendiam enfraquecer o PC, teve até certa altura muito tempo de televisão. E apareceram de repente Miguel Portas, Francisco Louçã, Ana Drago e outros, com um arzinho de universitários sabichões, que atraíram em pouco tempo uma pequena parte da populaça. Eles diziam que eram “modernos” e a populaça julgava que a “modernidade” a esperava. Este equívoco durou quase 20 anos, enquanto a impotência do Bloco se não tornou evidente e Sócrates não se apropriou das “rupturas”. Sob vários pretextos, muitos ratos fugiram imediatamente do barco e ainda não deixaram de fugir.
Com o PC feliz no seu velho ghetto e o PS numa perpétua trapalhada, um antigo BE resolveu arranjar um “partido”, deliberadamente sem doutrina e disciplina, em que as prima-donas da esquerda pudessem falar à sua vontade e ser ouvidas, sem perturbação, por meia dúzia de gatos-pingados. Nada sairá deste concurso de asneiras, mas não interessa. A patetice pública alivia a alma. E estávamos nisto, quando Manuel Carvalho da Silva, agora munido de um doutoramento, tomou a estranha decisão de inaugurar um “movimento”, com o objectivo (adivinhem) de finalmente promover a “unidade” da esquerda. O “movimento” recebe quem lhe bater à porta: católicos, o BE, o “Partido Livre” e mesmo uns tantos comunistas na disponibilidade. É uma sopa turva de que inevitavelmente vai saltar uma dezena mais de partidos com a pedra filosofal no bolso. Deus nos dê muita paciência."
Vasco Pulido Valente
in "Público", 15 de Dezembro de 2013.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
A morte de Mandela: Portugal à solta
"A morte de Mandela mostrou a indigência do jornalismo português. Com um arzinho de circunstância, a televisão e os jornais repetiram os lugares-comuns que se esperavam; e meia dúzia de personalidades contaram histórias sem significado ou relevância sobre encontros que teriam tido com Mandela.
No meio desta desgraça, muito pouca gente se salvou (José Cutileiro e Daniel de Oliveira) e a generalidade do público ficou sem saber quem fora o homem e o que fizera. Para começar, ficou sem saber que nascera na família real da nação xhosa (sobrinho do soba), que estudara numa escola metodista inglesa e na Universidade de Witwatersrand, que se formara em direito e que abrira um escritório de advogado em Joanesburgo. Parecendo que não, estas trivialidades são e continuaram sempre a ser parte do político e explicam em parte a sua carreira.
Também não se disse nada sobre a evolução de Mandela de uma estratégia pacífica e moderada contra o apartheid para uma estratégia de resistência armada (que incluía sabotagem, terrorismo e guerra) e, depois para a fase final de reconciliação e da paz, que o tornou definitivamente nessa espécie de santo laico hoje celebrada. Talvez por isso, a cronologia desapareceu da longa vida de Mandela. Como observou João Marcelino, o voto de Portugal na resolução da ONU sobre o apartheid de 1987, não se explicou (Portugal votou contra porque nessa altura havia um exército de Cuba em Angola e um regime “comunista” em Moçambique); e a coisa serviu principalmente para malhar em Cavaco, exercício em que Ana Gomes como sempre de distinguiu.
Pior do que isso: não me lembro de uma única frase, excepto do próprio Gorbatchov, sobre a queda do “muro de Berlim”, sobre o colapso do império soviético na Europa oriental ou sobre a “perestroika” e a fraqueza do poder na própria Rússia, quando De Klerk libertou Mandela, em 1990, e resolveu negociar com o ANC, perante a impassibilidade da direita do Ocidente. A África do Sul não corria agora o risco de cair nas mãos dum ANC dominado pelos “companheiros de caminho” do comunismo, em que Mandela não se conseguiria impor e menos conduzir pelos doces caminhos do “perdão”. De qualquer maneira, convém lembrar que em 2013 a África do Sul continua dividida entre brancos ricos e pretos pobres, que sofre de uma criminalidade nos limites do intolerável e de uma epidemia de sida, que nenhum governo foi capaz de travar ou de atenuar. Com ou sem Mandela, não é um sítio recomendável."
Vasco Pulido Valente
in "Público", 8 de Dezembro de 2013.
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