quinta-feira, 9 de junho de 2011

Anatomia de um crime

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"A Terceira República, iniciada em Abril de 1974, sintetizou os seus objectivos em três Dês: Descolonizar, Democratizar e Desenvolver.
Descolonizar era um propósito comum aos novos políticos e aos capitães do MFA, que representavam os militares descontentes com a corporação e com a guerra de África. Depois da saída de Spínola e da neutralização dos sectores ultramarinistas do Exército, em Setembro de 74, a descolonização passou a ser dominante no poder militar.
Comunistas, socialistas e esquerdistas queriam, por princípio, abandonar ‘as colónias’. Os novos partidos moderados não tinham política para esta área, pelo que seguiram o sofisticado e original princípio de Abril: fazer tudo ao contrário do que fizera o Estado Novo.
Assim, a descolonização tornou-se um objectivo comum e convergente. Já a democratização foi diferente e dividiu a classe política. Uns queriam a democracia liberal, à ocidental. Os outros — o MFA, o PCP, o MDP-CDE e os esquerdistas (chineses, albaneses, cubanos, líbios e exóticos) — queriam uma democracia que não se ficasse pela igualdade e a liberdade políticas, mas que as ‘aprofundasse’. Ou no sentido soviético ou recorrendo a formas primitivas e puras. Os estudantes elegiam os professores, os soldados os oficiais, os trabalhadores os patrões. Mas o sistema só funcionava prendendo, aterrorizando e matando os adversários, que, por senso comum e interesse, eram muitos.
Ora isto não jogava com os brandos costumes da terra e teve a manifesta resistência da massa popular que, no Verão de 1975, começou a queimar sedes do PCP.
Os democratas tout court, com o dr. Soares à frente da ‘Frente Burguesa’ na Fonte Luminosa e os militares anticomunistas (a descolonização acelerada abrira o leque no sector), equilibraram as pressões radicais.
No 25 de Novembro, os Comandos, que pouco tinham que ver com estas discussões, derrotaram os esquerdistas. O dr. Cunhal não foi para a guerra civil porque havia Ialta, os russos não queriam e Angola era independente há duas semanas. E, principalmente, porque sabia que perdia. Por isso, conteve as suas tropas, ajustou contas com os Otelos e companhia e ainda ficou com fama de humanista.
Os ‘Nove’ e o PS ajudaram a poupá-lo. Não queriam um desequilíbrio que trouxesse a direita resistente para a zona do poder ou da alternativa — um cenário tipo Weimar, que todos temiam.
Este Thermidor de 25 de Novembro pôs termo ao PREC. A opção europeia foi a apólice do resseguro democrático contra golpismos de um lado ou doutro. Por isso, a economia nacional também sofreu na pressa da Adesão e a Constituição de 1976 manteve o ‘socialismo’.
E O Desenvolvimento? Não se podia ter tudo. Já no século XV, os iniciadores da Expansão se tinham dado conta de que, além do risco da absorção castelhana, o país não alimentava, nem podia alimentar, a população. Nos séculos XVI, XVII e XVIII fizemos quatro fortunas ultramarinas — especiarias da Índia, açúcar do Brasil, ouro e diamantes outra vez do Brasil — com que nos fomos aguentando. No século XX, foi o café de Angola.
Hoje, estamos sob tutela. As pessoas não são livres se a nação não for livre. Os nossos libertadores — os democratas tout court e os aprofundadores das amplas liberdades democráticas —, no desprezo da independência nacional, conduziram Portugal à degradação económica e à insolvência financeira. Agora, para sobrevivermos materialmente, temos de aceitar uma comissão de tutela dos credores.
Os eleitores têm oportunidade de se pronunciarem sobre responsáveis e reponsabilizáveis, nos limites de uma escolha já muito condicionada pelos acordos com a troika.
Embora, como sempre, tenham de ir pelo mal menor."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 3 de Junho de 2011.

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