quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Saneamento de Camilo

1 comentários
 

"Sanearam Camilo do programa de Literatura dos Liceus. Não sei se é assim que se diz em termos pedagogicamente correctos, mas foi o que entendi.
Politicamente, o Camilo teve, na adolescência, uma opção reaccionária: andou na guerrilha miguelista do McDonnell, o que o tornaria justamente suspeito aos espíritos progressistas. Mas não creio que seja esta a razão do banimento. Duvido que os saneadores conheçam tão negro pecado do escritor. Porquê então?
Camilo tem para cima de duzentos títulos publicados, dos quais cerca de metade são romances, peças de teatro, contos, folhetins. Tive um tio, camilianista ferrenho, que, ao longo da vida, foi coleccionando, como relíquias, primeiras edições e outras raridades camilianas — folhetos, panfletos, cartas.
Com dez anos, na biblioteca dele, fascinavam-me os títulos em letras doiradas nas lombadas encadernadas a verde escuro, marron e encarnado sangue de boi: Maria não me mates que sou tua mãe, O parente dos Cinquenta e três Monarcas, O que Fazem Mulheres, O livro negro do Padre Diniz, Coração, cabeça e estômago, Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado.
Aos domingos, era admitido nuns almoços de confrades camilianos, onde se contavam e recontavam os ditos e feitos do escritor, anedotas, polémicas, histórias de leilões, odisseias editoriais.
Este mundo de Camilo ia além da literatura, com as adaptações radiofónicas na Emissora Nacional e em emissoras do Porto de obras como Amor de perdição, O retrato de Ricardina, O demónio de ouro, plenas de cavalos arfantes, ventos uivantes, portas a ranger e outros sonoros ‘efeitos especiais’.
Passada a obrigatoriedade do liceu, aí pelos vinte anos, entrei de cabeça e coração no mundo de Camilo, um mundo com uma geografia quase sempre limitada ao Portugal profundo das Beiras e Entre-Douro e Minho, mas chegando ao Porto e a Coimbra. E chegando também aos Mistérios de Lisboa, perdendo-se também na capital, como O Morgado de Fafe ou como o ‘anjo’ de Caçarelhos, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda.
Camilo tem um tempo, entre as invasões francesas e a Regeneração. Conta as guerras civis e as transformações sociais do Portugal do Ancien Régime no Portugal Constitucional e dá-nos um mundo de morgados feudais, de família tradicionais, de burguesias incipientes, de filhos família desadaptados, de filhos naturais com paixões morganáticas, de emigrados para a Europa e para o Brasil, dos ‘brasileiros’ de torna jornada, regressados ricos, de quem não gostava.
É uma obra única. Não terá o mundo, a trama complexa, o corte social transversal, a construção sólida do romance queirosiano, mas é uma escrita vertebrada, apaixonada, de um narrador prodigioso, um autodidacta de vida aventurosa e marginal — com paixões, adultérios, duelos, prisões, a acabar na cegueira e no suicídio.
E sobre todas estas paixões a paixão de escrever, de passar ao papel histórias e curiosidades que arrancava de manuscritos de bibliotecas conventuais ou senhoriais, misturando-as com episódios da sua própria experiência do Portugal e da Europa do turbulento século XIX.
Num português vernáculo, escorreito, inimitável, que não tinha tempo de reler e menos de corrigir, Camilo escrevia por paixão e necessidade, para viver e sobreviver. É essa escrita, esse estilo que salvam os rocambolescos enredos. Uma prosa que ainda hoje surpreende, toca, encanta, transforma, desde a nostalgia romântica das Novelas do Minho, à sátira política de A queda de um anjo.
O cineasta chileno Raúl Ruiz deixou-se fascinar por este misterioso mundo camiliano que adaptou magnificamente ao cinema em Mistérios de Lisboa. Achou que valia a pena ler e reler Camilo, contá-lo e recontá-lo. Os lusos técnicos educativos da República acharam que não, e sanearam-no. Porquê? Talvez em nome de uma Lisboa e de um Portugal mais legíveis, mais básicos, mais actuais, mais democráticos, mais transparentes, mais sem mistérios."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 24 de Junho de 2011.

1 comentário:

  1. Excelente este artigo de Jaime Nogueira Pinto, colocando uma vez mais o ensino da Língua Portuguesa em cheque.

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