terça-feira, 5 de julho de 2011

Retiradas

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"Barack Obama anunciou a retirada de 33.000 soldados norte-americanos do Afeganistão nos próximos 15 meses (os 45.000 restantes, no Iraque, deverão também sair até ao fim do ano). O aviso já está a ter consequências no terreno, inclinando o prato da balança para os talibãs.
As guerras subversivas não se ganham, mas perdem-se, e perde o que tem menos vontade de ganhar e desiste primeiro. Ali, os factores políticos e psicológicos contam tanto como o poder militar. Ainda mais num país como o Afeganistão, que não é um Estado nacional mas um conglomerado de tribos, de clãs, de famílias e respectivos interesses. Os optimistas habituaram-nos ao discurso de que, neste tipo de guerra, não há solução militar, só política. Resta saber qual, porque toda a guerra é um teste de vontade e de força entre duas partes. Nas guerras subversivas, a população (que não pode bater em retirada como os soldados e os colonos) preocupa-se em adivinhar o vencedor, com quem terá que (con)viver no médio e longo prazo. No Afeganistão esta população está dividida em tribos — tajiques, usbeques, pashtuns, hazaras e outras — e enquadrada por senhores da guerra.
Não há ali aquelas simplicidades do século XX ocidental — fascistas e antifascistas, comunistas e anticomunistas, totalitários e democráticos, bipolarizados em ‘bons’ e ‘maus’, cowboys e índios. Tudo se passa em Estados mais parecidos com as entidades da Europa medieval que com os nossos Estados soberanos actuais. E essas entidades são um mosaico de interesses, de negócios (geralmente escuros e ilegais) e sobretudo de lealdades.
Os protagonistas destas periferias perigosas têm uma rapidíssima capacidade de reagir a estímulos no terreno. Até porque, se não o fizerem, as consequências para eles e para as famílias são fatais. Enquanto na Europa os erros de casting se pagam com uma passagem pelos bancos da oposição, com um discreto mergulho na sociedade civil (local ou próxima) ou com visita de estudo ao estrangeiro, nestes lugares quem aposta no lado errado e perde, acaba mal.
Aprenderam isto os argelinos, que acreditaram que eram «français à part entière», os africanos que alinharam de boa-fé com os portugueses, e os múltiplos desgraçados que, por esses bastiões do ‘mundo livre’, do Vietname ao Médio Oriente, foram ‘amigos dos americanos’. Aprenderam-no também os afegãos que alinharam com os soviéticos há 20 anos. Negociações, pactos, retiradas de tropas, soluções políticas, Évian, Alvor, Acordos de Paris, serviram para que os que partiram pudessem salvar a face e ganhar tempo, mascarando a derrota com uma retórica de ‘solução política’. Que de nada serviu perante e impiedade dos vencedores e o medo dos vencidos.
Desta vez, logo a seguir ao anúncio da retirada das tropas norte-americanas, o Presidente Karzai, o protegido de Washington como implantador da democracia, voou para Teerão para se encontrar com outro velho democrata da região, o Presidente Mahmud Ahmadinejad. Discutiram, no dizer do ministro dos Estrangeiros iraniano, «as questões emergentes da saída das forças da NATO do Afeganistão». E na terça-feira, 28 de Junho, deu-se uma outra ‘retirada’ para os Estados Unidos: o Wall Street Journal noticiou que o governador do Banco Central de Cabul, o sr. Abdul Qadir Fitrat, estava há dez dias em Washington. O pobre tinha, seguindo as recomendações do FMI, lançado um inquérito sobre o destino dos dinheiros das ajudas externas.
Sabe-se que grande parte destas ajudas foram retiradas para as contas da nomenklatura no Dubai. Fitrat tinha iniciado as investigações no Banco de Cabul, um banco com 850 milhões de dólares de empréstimos suspeitos, e cujos accionistas são um meio-irmão do Presidente Karzai e um irmão do vice-presidente."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 1 de Julho de 2011.

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