domingo, 29 de janeiro de 2012

Anatomia de um assassino

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“Para enviar homens para o pelotão de fuzilamento, as provas judiciais são desnecessárias. Tais procedimentos são um arcaico detalhe burguês. Isto é uma revolução! E um revolucionário deve transformar-se numa fria máquina de matar alimentada pelo ódio puro. Devemos criar a pedagogia do paredão.”

Poderíamos julgar que tão absurda afirmação, própria de um cenário de loucura, teria sido proferida pela rainha de “Alice no País das Maravilhas”, o saboroso e notável clássico de Lewis Carroll, onde a sentença sempre antecedia o veredicto com a Alice em permanente risco de perder a cabeça. Mas de facto não. Poderiam ter ouvido estas pérolas em Cuba no final da década de cinquenta do século passado, da boca do argentino Ernesto Rafael Guevara de la Serna, mais conhecido por “El Che” ou simplesmente “Che”. Notável caso de estudo de uma das mais fabulosas mistificações, fraudes e distorção da história recente.

Morto aos 39 anos, legou à grata humanidade que o quase alcandorou aos altares e ao estatuto de herói um legado de barbárie, execuções, assassinatos e terrorismo. O herói romântico e revolucionário oculta, na realidade, um assassino frio e premeditado que não resistiria, num mundo em que primassem as análises objectivas, a um crivo que não necessitaria sequer de ser demasiado rigoroso.

Admirador confesso de Estaline, junto a cujo retrato em Moscovo, jurou “não descansar até ver esses polvos capitalistas aniquilados”, tendo-se, inclusive indisposto com o embaixador cubano porque este se opôs a depositar flores no seu mausoléu. Glorificava igualmente o sanguinário Mao Tsé-Tung, que conheceu pessoalmente numa viagem à China. Admirava ainda os jovens comunistas da Guerra Civil Espanhola, muitos dos quais ficaram famosos por inúmeras boas prestações... Um deles, Angel Ciutah, foi o assessor de Guevara na criação do serviço de segurança, para “proteger” o estado revolucionário cubano. Este serviço de segurança ficou famoso como exemplar na arte da tortura, provas forjadas e dos assassinatos. Quem discordava do “comandante” era sumariamente executado, como aconteceu, por exemplo ao companheiro de luta Huber Matos. A máxima de Guevara era na “na dúvida mate-se”. De todos os países visitados, o que mais admirou, como escreveu, foi a Coreia do Norte, que visitou pouco depois da grande purga. Será preciso dizer mais?

Execuções e tortura
Luis Ortega, que conheceu “Che” desde 1954, escreveu no seu livro “Yo Soy El Che!” que Guevara enviou 1897 pessoas para o pelotão de fuzilamento e Daniel James, no seu livro “Che Guevara: A Biography”, escreve que o próprio Guevara admitiu que ordenou milhares de execuções apenas nos primeiros anos do regime castrista. Parece pois claro que Guevara, ordenou o fuzilamento de milhares de inocentes de qualquer crime, enviados ao ‘paredón’ de La Cabaña sob a acusação de “agentes da CIA”. Igualmente responsável pelo envio para as ignóbeis prisões nas quais ordenava bárbaras formas tortura. Em ambos os casos nunca se isentando de activamente participar… Um especialista em tortura psicológica sobre a qual deixa notórios contributos, Guevara gostava especialmente dos simulacros de fuzilamento à noite, quando, escreveu, “a resistência é menor”.

O “Che” disse muitas vezes que “Cuba devia seguir o exemplo de desenvolvimento pacífico mostrado pela URSS”. De que desenvolvimento pacífico falaria? Na realidade, a “ilha-prisão” seguiu de perto o exemplo soviético, aí não faltando a corrupção, as purgas, os assassinatos, os campos de “reeducação” a repressão sistemática. Indiscutivelmente que um dos ‘highlights’ da revolução cubana foi o tristemente célebre ‘Paredón’, no qual Guevara teve notória participação.

Junto aos seus ídolos Lenine, Estaline, Mao, Kim Il Sung e companhia o Dr. Guevara muito contribuiu para a construção sistema político que mais matou pessoas em toda a história, o dito “comunismo” também chamado de “socialismo real”, mas que ainda hoje, por ironias várias, é visto como um bem. De facto, nem esses mais de 100 milhões de vítimas parecem ser suficientes para derrubar esse mito que transformou um criminoso arrogante, mentiroso e intolerante num herói ou santo aos olhos daqueles incapazes de aprender História e aceitar as suas lições sobre os mitos de conveniência.

Che, hoje
Infelizmente, nos nossos dias não faltam inocentes (muitos talvez o não sejam…) de circunstância que continuam a idolatrar o “Che”, usam ‘t-shirts’ e restante parafernália com a sua imagem, meninas e senhoras bem que o usam nas malas e outros adereços ‘chic’, algumas passeando-o mesmo na praia (ele que segundo alguns próximos registam era tão avesso a banhos...) como meio de tapar as pudibundas paragens, assim confiadas a tão repugnante personagem. Um ícone revolucionário-chic que cativa mentes fracas, adormecidas e incapazes de associarem a criatura à criação. Enfim, algo que já vai sendo característico neste mundo em ruínas. Alguns, mais afoitos, repetem mesmo frases como “Hasta la victoria siempre!”, não reflectindo no ódio que encerram e no rasto de sangue deixado…

Naturalmente que as pessoas são livres de gostarem de quem muito bem entendem (temo que até Pol Pot possa ter cultores, sem que os motivos da preferência devam/tenham que ser universais), mas daí a arvorá-las a heróis da liberdade vai um enorme passo. E como aplicá-las a um guerrilheiro assassino, com as próprias mãos tintas de sangue, que lutou ao serviço do imperialismo soviético na América e em África? Como classificar de pacifista o admirador confesso dos personagens e regimes referenciados (que assinou mesmo cartas com o pseudónimo de Estaline II).

Realmente é um caso a estudar esta mitificação/mistificação que atravessou a segunda metade do século XX e se vem ainda instalar neste início do XXI. E, para muitos, sem dúvida um caso patológico de torpe branqueamento que importa apurar...

Humberto Nuno de Oliveira
in «O Diabo», de 24 de Janeiro de 2012.

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