quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Eliade e Schmitt em Lisboa

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"24 de Maio de 1944
Passei os últimos dias com Carl Schmitt, convidado a vir a Portugal para algumas conferências. Domingo de manhã, fui com ele ao Museu das Janelas Verdes, onde ficámos mais de uma hora em frente à Tentação de Santo Antão de Bosch. Conta-me que a interpretação de Bosch é a última moda na Alemanha, que todo o mundo trata dele, embora poucos publiquem. Os bombardeamentos e a insegurança ajudam os Alemães a entenderem e a reencontrarem-se em Bosch; que não é tão «fantástico» como se possa acreditar, mas está cheio de pormenores biográficos e de história contemporânea (por exemplo, Schmitt fala-me das sociedades secretas que tinham a protecção do imperador e que executavam os magistrados corruptos depois de um julgamento prévio e uma condenação à morte segundo todos os cânones jurídicos: na Tentação de Santo Antão, em baixo, à esquerda, o pássaro — símbolo da justiça, traz no bico um envelope fechado, provavelmente uma condenação à morte). O seu amigo, Wilhelm Fraenger, trabalha há dez anos na leitura de Bosch, e escreveu uma gigantesca monografia de mais de mil páginas sobre ele, ainda não publicada.
Comi várias vezes com Schmitt. Acho que sou a pessoa que mais o viu em Lisboa. Diz-me que lamenta não ter encontrado Blaga em Bucareste e tem a certeza de que na concepção do espaço de Blaga há coisas interessantes.
Comentámos juntos Land und Meer. Para o livro em que trabalha, sobre o nómos do mundo, ofereço-lhe alguns paralelos histórico-etnográficos.
Conta-me que está optimista quanto ao destino da Europa. O nacionalismo e o internacionalismo são fórmulas ultrapassadas."

Mircea Eliade
in "Diário Português", Guerra e Paz, 2007.

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