quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A política é a continuação da guerra por outros meios

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"O empreendimento dirigido pela linguagem acarreta uma imensa perda de liberdade — essa secular liberdade do animal de rapina — tanto para o chefe como para os seus subordinados. Qualquer deles se torna, em espírito, corpo e vida, num membro de uma unidade superior. É a isso que se chama Organização: concentração da vida activa em formas definidas, em «estados propícios» aos empreendimentos, sejam eles quais forem. Com a acção colectiva dá-se o passo decisivo que transpõe a distância que vai da existência orgânica à existência organizada, da vida em grupos naturais à vida em grupos artificiais, da horda à tribo, à classe social e ao Estado.
E, suplantando os combates entre predadores isolados surgiu, então, a guerra como empreendimento organizado de tribo contra tribo, com chefes e seguidores, com incursões, emboscadas e batalhas organizadas. Do esmagamento dos vencidos emana a Lei que lhes é imposta. A lei humana é sempre a do mais forte, aquela perante a qual se tem de curvar o mais fraco; e essa lei, reconhecida e instituída duradoiramente entre os povos, constitui a «Paz». Uma paz semelhante prevalece também no próprio interior da tribo, de forma a que o seu potencial de força permaneça disponível para se utilizado contra o exterior; o estado é a ordem interna de um povo com vista aos seus objectivos exteriores. O Estado, como forma e como potencialidade, corresponde àquilo que é a história de um povo como actualidade. Mas a história, agora como sempre, é uma história guerreira. A política não passa de um substituto temporário para a guerra, substituto esse que utiliza armas mais intelectuais. E o conjunto de homens de uma comunidade confundia-se primitivamente com o seu exército. As características do animal predador livre transmitiram-se nos seus traços dominantes, ao povo organizado — esse animal de alma comunitária e múltiplas mãos. As técnicas de governação, da guerra e da diplomacia têm todas a mesma raiz e sempre manifestaram, ao longo dos tempos, uma profunda conexão interior."

Oswald Spengler
in "O Homem e a Técnica", Guimarães & C.ª Editores.

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