quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A cidade de Ulisses

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"O turismo na capital portuguesa aumentou exponencialmente, mas esta não é apenas mais uma paragem num qualquer roteiro. É notório que os estrangeiros que nos visitam descobrem algo inesperado, uma magia própria que cria uma atracção poderosa. Muitos apaixonam-se e prometem voltar.
Será esta vontade de regressar um pingo de Saudade emprestada? Escreveu António de Castro Caeiro que “Lisboa como Ítaca no Verão é ventosa. Cheia de espírito.” Mas não apenas no Estio, porque como ele tão bem disse, “há tantas Lisboas quantas as Estações do ano”. É essa corrente cíclica que traz os visitantes e os força a voltar? Que lhes provoca uma necessidade interior de eterno retorno?
Recentemente, tive oportunidade de confirmar esse sentimento no olhar de amigos espanhóis e italianos, que aqui se deslumbraram com uma cidade tão próxima, mas sobre a qual pouco sabiam ou conheciam. Isto porque ainda não a haviam sentido, em toda a sua força primordial.
Este é, afinal, um lugar que não lhes é distante fisicamente, mas do qual estão, estranhamente, tão longe.
Teria razão Fernando Pessoa, quando afirmava que “nada há de menos latino que um português”? Isto porque, para o nosso poeta, “somos muito mais helénicos — capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude”.
O encanto da cidade de Ulisses é imemorial e eterno. É um canto dos deuses, brutal e terno."

Duarte Branquinho
in "O Diabo", 15 de Outubro de 2013.

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