segunda-feira, 12 de abril de 2021
segunda-feira, 8 de junho de 2020
terça-feira, 2 de junho de 2020
A Nova Direita Anti-Sistema
A nova direita anti-sistema. O caso do Chega.
Riccardo Marchi
Edições 70
208 páginas
As últimas eleições legislativas, que ditaram a eleição de um deputado do Chega, terão marcado o fim da imunidade portuguesa à extrema-direita? Este livro, de cariz divulgativo e assumidamente isento, traça as linhas gerais do que são os movimentos nacionalistas, populistas, de extrema direita e direita radical, definindo-os e fixando os conceitos, para depois descrever o contexto português, nomeadamente o partido Chega. Explica a fundação do partido, apresenta os seus fundadores e quadros, e, claro, a indissociável figura de André Ventura. Aponta, ainda, o caminho a trilhar por esta nova força política, os objetivos a que se propõe o partido e possíveis consequências no panorama político e no contexto nacional.
Pré-venda:
https://www.almedina.net/a-nova-direita-anti-sistema-em-portugal-o-caso-do-chega-1590683382.html
A Tradição, a Comunidade de Destino e o Homem Nacional
Tradição: para uma estirpe dotada da
vontade de voltar a situar a ênfase no âmbito do sangue, é palavra
brava e bela. Que a pessoa singular não viva somente no espaço. Que
seja, pelo contrário parte de uma comunidade pela qual deve viver e,
sucedida a circunstância, sacrificar-se, esta é uma convicção que
cada homem com sentimento de responsabilidade possui e que postula à
sua maneira particular com os seus meios particulares. A pessoa
singular não se encontra, no entanto, ligada a uma comunidade
superior unicamente no espaço, mas, de uma forma mais significativa,
ainda que invisível, também no tempo. O sangue dos antepassados
está latente, fundido com o seu, ele vive dentro de reinos e
vínculos que eles criaram, custearam e defenderam. Criar, custear e
defender: esta é a obra que ele recebe das mãos daqueles e que deve
transmitir com dignidade. O homem do presente representa o ardente
ponto de apoio interposto entre o homem do passado e o homem do
futuro. A vida relampeja como o rastilho incendiado que corre ao
largo da mecha que ata, unidas, as gerações…queima-as,
certamente, mas mantém-nas enlaçadas entre si, do princípio ao
fim. Em breve também o homem presente será igualmente um homem do
passado mas, para conferir-lhe calma e segurança, permanecerá a
ideia de que as suas acções e gestos não desaparecerão com ele
mas antes constituirão o terreno sobre o qual os vindouros, os
herdeiros, se refugiarão com as suas armas e instrumentos.
Isto transforma uma acção num gesto heróico que nunca pode ser absoluto nem completo como fim em si mesmo e que, pelo contrário, encontra-se articulado por meio de um conjunto dotado de sentido e orientação, dados pelos actos dos predecessores e apontando ao enigmático reino daqueles que ainda estão para vir. Obscuros são os dois lados e encontram-se mais para cá e mais para lá da acção, as suas raízes desaparecem na penumbra do passado, os seus frutos caem na terra dos herdeiros… a qual não poderá nunca vislumbrar quem actua e que é todavia nutrida e determinada por estas duas vertentes nas quais justamente se funda o seu esplendor intemporal e a sua sorte suprema. É isto que distingue o herói e o guerreiro face ao mercenário e ao aventureiro: e é o facto de que o herói extrai a sua força de reservas mais elevadas do que as que são meramente pessoais, e que a chama ardente da sua acção não corresponde ao clarão ébrio de um instante mas ao fogo cintilante que funde o futuro com o passado. Na grandeza do aventureiro há algo de carnal, uma irrupção selvagem, e em verdade não privada de beleza, em paisagens variadas… mas no herói cumpre-se aquilo que é fatalmente necessário, fatalmente condicionado: é o homem autenticamente moral e o seu significado não repousa unicamente em si mesmo, nem só no seu dia de hoje, mas é para todos e para todo o tempo.
Qualquer que seja o campo de batalha ou a posição perdida na qual se esteja, ali onde se conserva um passado e se deve combater por um futuro, não há acção que esteja perdida. A pessoa singular certamente pode andar perdida mas o seu destino, a sua sorte e a sua realização, valem em verdade como o crepúsculo que favorece um objectivo mais elevado e mais vasto. O homem privado de vínculos morre, e a sua obra morre com ele, porque a proporção dessa obra era medida só em relação a ele mesmo. O herói conhece o seu crepúsculo mas o seu crepúsculo assemelha-se àquele sangue vermelho do sol que promete uma manhã nova e mais bela. Assim devemos recordar também a Grande Guerra: como um crepúsculo ardente cujas cores já antecipam uma alvorada sumptuosa. Assim devemos pensar nos nossos amigos caídos e ver no seu crepúsculo o sinal da realização, o assentimento mais duro dirigido à própria vida. E devemos olhar longe, com um desprezo imundo, perante o juízo dos negociantes, daqueles que sustêm que “ tudo isto foi absolutamente inútil”, se queremos encontrar a nossa fortuna vivendo no espaço do destino e fluindo na corrente misteriosa do nosso sangue, se queremos actuar numa paisagem dotada de sentido e significado, e não vegetar no tempo e no espaço onde, nascendo, tenhamos chegado por casualidade.
Não: o nosso nascimento não deve ser uma casualidade para nós! Esse nascimento é o acto que nos radica no nosso reino terrestre, o qual, com milhares de vínculos simbólicos, determina o nosso posto no mundo.Com ele convertemo-nos em membros de uma nação, por meio de uma comunidade estreita de laços nativos. E daqui vamos depois ao encontro da vida, partindo de um ponto sólido, mas prosseguindo um movimento que teve início muito antes de nós e que muito depois de nós terá o seu fim. Nós percorremos apenas um fragmento desta avenida gigantesca, neste trecho, todavia, não devemos transportar apenas uma herança inteira mas devemos estar à altura de todas as exigências do tempo.
E agora, certas mentes abjectas, devastadas pela imundície das nossas cidades, surgem para dizer que o nosso nascimento é um jogo de azar, e que “poderíamos perfeitamente ter nascido franceses como alemães”. Certo, este argumento vale precisamente para quem assim pensa. Eles são homens da casualidade e do azar. É-lhes estranha a fortuna que reside no sentir-se nascido por necessidade no interior de um grande destino e de sentir as tensões e lutas desse destino como nossas, e com elas crescer ou inclusive perecer. Essas mentalidades sempre surgem quando a sorte adversa pesa sobre uma comunidade legitimada pelos vínculos do crescimento, e isto é típico delas. Reclama-se aqui a atenção sobre a recente e bastante apropriada inclinação do intelecto de insinuar-se parasitariamente e nocivamente na comunidade de sangue, e a nela falsear a essência em nome do raciocínio…isto é, através do conceito, à primeira vista correcto, de “comunidade de destino”. Da comunidade de destino, no entanto formaria também parte o negro que, surpreendido na Alemanha ao início da guerra, foi envolto no nosso caminho de sofrimento, nas senhas do pão racionado. Uma “comunidade de destino”, neste sentido, é constituída por passageiros de um barco a vapor que se afunda, muito diferentemente da comunidade de sangue: formada esta pelos homens de um navio de guerra que descende até ao fundo com a bandeira ondulando.
O homem nacional atribui valor ao facto de haver nascido entre confins bem definidos: nisto ele vê, antes de tudo, uma razão de orgulho. Quando acontece que trespasse esses confins, não sucede nunca que flua sem forma para além deles mas de modo a alargar com isso o seu espaço no futuro e no passado. A sua força reside no facto de possuir uma direcção, e portanto uma segurança instintiva, uma orientação de fundo que lhe é conferida em dote conjuntamente com o sangue e que não precisa das luminárias mutáveis e vacilantes de conceitos complicados. Assim a vida cresce numa maior unidade, e assim devém ela mesmo unidade, pois cada um dos seus instantes reingressa numa conexão dotada de sentido.
Claramente definido pelos seus confins, por rios sagrados, por férteis vales, por vastos mares: tal é o mundo no qual a vida de uma estirpe nacional se imprime no espaço. Fundada numa tradição e orientada para um futuro longínquo: assim se imprime ela no tempo. Ai daquele que corta as próprias raízes!..esse converter-se-á num homem inútil e num parasita. Negar o passado significa também renegar o futuro e desaparecer entre as ondas esquivas do presente.
Para o homem nacional, por outro lado, subsiste um perigo grande: o de esquecer-se do futuro. Possuir uma tradição comporta o dever de viver a tradição. A nação não é uma casa na qual cada geração, como se fosse um novo estrato de corais, deva acrescentar tão-somente um piso mais, ou onde, por meio de um espaço preestabelecido de uma vez por todas, não sirva outra coisa que continuar a existir, mal ou bem. Um castelo, um palácio burguês, dir-se-ão construídos de uma vez para sempre. Prontamente, todavia, uma nova geração, incentivada por novas necessidades, vê a obrigação de impor importantes modificações. Ou, por outro lado, a construção pode acabar por arder num incêndio, ou terminar destruída, e então um edifício renovado e transformado vem a ser construído sobre os antigos cimentos. Muda a fachada, cada pedra é substituída, e todavia, como se encontra ligada à raça, perdura um sentido do todo específico: a mesma realidade que foi num princípio. Talvez se possa dizer que somente durante o Renascimento ou na idade barroca tenha existido uma construção perfeita. Por acaso então se detinha uma linguagem de formas válida para todos os tempos? Não, mas aquilo que existia então permanece de algum modo oculto no que existe hoje.
Ernst Jünger,"Die Tradition."
Isto transforma uma acção num gesto heróico que nunca pode ser absoluto nem completo como fim em si mesmo e que, pelo contrário, encontra-se articulado por meio de um conjunto dotado de sentido e orientação, dados pelos actos dos predecessores e apontando ao enigmático reino daqueles que ainda estão para vir. Obscuros são os dois lados e encontram-se mais para cá e mais para lá da acção, as suas raízes desaparecem na penumbra do passado, os seus frutos caem na terra dos herdeiros… a qual não poderá nunca vislumbrar quem actua e que é todavia nutrida e determinada por estas duas vertentes nas quais justamente se funda o seu esplendor intemporal e a sua sorte suprema. É isto que distingue o herói e o guerreiro face ao mercenário e ao aventureiro: e é o facto de que o herói extrai a sua força de reservas mais elevadas do que as que são meramente pessoais, e que a chama ardente da sua acção não corresponde ao clarão ébrio de um instante mas ao fogo cintilante que funde o futuro com o passado. Na grandeza do aventureiro há algo de carnal, uma irrupção selvagem, e em verdade não privada de beleza, em paisagens variadas… mas no herói cumpre-se aquilo que é fatalmente necessário, fatalmente condicionado: é o homem autenticamente moral e o seu significado não repousa unicamente em si mesmo, nem só no seu dia de hoje, mas é para todos e para todo o tempo.
Qualquer que seja o campo de batalha ou a posição perdida na qual se esteja, ali onde se conserva um passado e se deve combater por um futuro, não há acção que esteja perdida. A pessoa singular certamente pode andar perdida mas o seu destino, a sua sorte e a sua realização, valem em verdade como o crepúsculo que favorece um objectivo mais elevado e mais vasto. O homem privado de vínculos morre, e a sua obra morre com ele, porque a proporção dessa obra era medida só em relação a ele mesmo. O herói conhece o seu crepúsculo mas o seu crepúsculo assemelha-se àquele sangue vermelho do sol que promete uma manhã nova e mais bela. Assim devemos recordar também a Grande Guerra: como um crepúsculo ardente cujas cores já antecipam uma alvorada sumptuosa. Assim devemos pensar nos nossos amigos caídos e ver no seu crepúsculo o sinal da realização, o assentimento mais duro dirigido à própria vida. E devemos olhar longe, com um desprezo imundo, perante o juízo dos negociantes, daqueles que sustêm que “ tudo isto foi absolutamente inútil”, se queremos encontrar a nossa fortuna vivendo no espaço do destino e fluindo na corrente misteriosa do nosso sangue, se queremos actuar numa paisagem dotada de sentido e significado, e não vegetar no tempo e no espaço onde, nascendo, tenhamos chegado por casualidade.
Não: o nosso nascimento não deve ser uma casualidade para nós! Esse nascimento é o acto que nos radica no nosso reino terrestre, o qual, com milhares de vínculos simbólicos, determina o nosso posto no mundo.Com ele convertemo-nos em membros de uma nação, por meio de uma comunidade estreita de laços nativos. E daqui vamos depois ao encontro da vida, partindo de um ponto sólido, mas prosseguindo um movimento que teve início muito antes de nós e que muito depois de nós terá o seu fim. Nós percorremos apenas um fragmento desta avenida gigantesca, neste trecho, todavia, não devemos transportar apenas uma herança inteira mas devemos estar à altura de todas as exigências do tempo.
E agora, certas mentes abjectas, devastadas pela imundície das nossas cidades, surgem para dizer que o nosso nascimento é um jogo de azar, e que “poderíamos perfeitamente ter nascido franceses como alemães”. Certo, este argumento vale precisamente para quem assim pensa. Eles são homens da casualidade e do azar. É-lhes estranha a fortuna que reside no sentir-se nascido por necessidade no interior de um grande destino e de sentir as tensões e lutas desse destino como nossas, e com elas crescer ou inclusive perecer. Essas mentalidades sempre surgem quando a sorte adversa pesa sobre uma comunidade legitimada pelos vínculos do crescimento, e isto é típico delas. Reclama-se aqui a atenção sobre a recente e bastante apropriada inclinação do intelecto de insinuar-se parasitariamente e nocivamente na comunidade de sangue, e a nela falsear a essência em nome do raciocínio…isto é, através do conceito, à primeira vista correcto, de “comunidade de destino”. Da comunidade de destino, no entanto formaria também parte o negro que, surpreendido na Alemanha ao início da guerra, foi envolto no nosso caminho de sofrimento, nas senhas do pão racionado. Uma “comunidade de destino”, neste sentido, é constituída por passageiros de um barco a vapor que se afunda, muito diferentemente da comunidade de sangue: formada esta pelos homens de um navio de guerra que descende até ao fundo com a bandeira ondulando.
O homem nacional atribui valor ao facto de haver nascido entre confins bem definidos: nisto ele vê, antes de tudo, uma razão de orgulho. Quando acontece que trespasse esses confins, não sucede nunca que flua sem forma para além deles mas de modo a alargar com isso o seu espaço no futuro e no passado. A sua força reside no facto de possuir uma direcção, e portanto uma segurança instintiva, uma orientação de fundo que lhe é conferida em dote conjuntamente com o sangue e que não precisa das luminárias mutáveis e vacilantes de conceitos complicados. Assim a vida cresce numa maior unidade, e assim devém ela mesmo unidade, pois cada um dos seus instantes reingressa numa conexão dotada de sentido.
Claramente definido pelos seus confins, por rios sagrados, por férteis vales, por vastos mares: tal é o mundo no qual a vida de uma estirpe nacional se imprime no espaço. Fundada numa tradição e orientada para um futuro longínquo: assim se imprime ela no tempo. Ai daquele que corta as próprias raízes!..esse converter-se-á num homem inútil e num parasita. Negar o passado significa também renegar o futuro e desaparecer entre as ondas esquivas do presente.
Para o homem nacional, por outro lado, subsiste um perigo grande: o de esquecer-se do futuro. Possuir uma tradição comporta o dever de viver a tradição. A nação não é uma casa na qual cada geração, como se fosse um novo estrato de corais, deva acrescentar tão-somente um piso mais, ou onde, por meio de um espaço preestabelecido de uma vez por todas, não sirva outra coisa que continuar a existir, mal ou bem. Um castelo, um palácio burguês, dir-se-ão construídos de uma vez para sempre. Prontamente, todavia, uma nova geração, incentivada por novas necessidades, vê a obrigação de impor importantes modificações. Ou, por outro lado, a construção pode acabar por arder num incêndio, ou terminar destruída, e então um edifício renovado e transformado vem a ser construído sobre os antigos cimentos. Muda a fachada, cada pedra é substituída, e todavia, como se encontra ligada à raça, perdura um sentido do todo específico: a mesma realidade que foi num princípio. Talvez se possa dizer que somente durante o Renascimento ou na idade barroca tenha existido uma construção perfeita. Por acaso então se detinha uma linguagem de formas válida para todos os tempos? Não, mas aquilo que existia então permanece de algum modo oculto no que existe hoje.
Ernst Jünger,"Die Tradition."
domingo, 24 de maio de 2020
quinta-feira, 21 de maio de 2020
Três perguntas a Dominique Venner sobre “Le Cœur rebelle”
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Com Dominique Venner
Numa
das suas missivas, redigidas numa escrita angulosa, Dominique Venner
escrevia-me que “a memória das origens é o alimento da alma”. Tão bela
quanto justa – é um todo –, a fórmula ilustra o talento do seu autor, um
atirador que nunca falhava o seu alvo. A bem-vinda reedição de “Le Cœur rebelle” [“O Coração Rebelde”, inédito em português], na minha opinião o seu mais belo livro a par do “Dictionnaire amoureux de la chasse”,
permite-nos compreender: pegando no meu exemplar de 1994, lido com
entusiasmo e júbilo, recaio sobre as minhas múltiplas anotações a lápis.
Vinte anos depois da sua primeira leitura, cada frase sublinhada ainda
fulmina. Que belo hino à determinação viril, que vigorosa carga contra a
decadência e a resignação! O antigo cadete da Escola de Guerra de
Rouffach, uma espécie de mosteiro guerreiro fundado por De Lattre, o
antigo comando da fronteira tunisina, o antigo militante radical que
planeará assassinar De Gaulle no Eliseu, o futuro historiador
“meditativo”, Venner o espartano deixa-nos aqui o fundo do seu
pensamento e, como o precisa num posfácio inédito datado de 2008,
exorciza o seu passado. O cúmulo para um homem tão púdico, que detestava
as histórias de antigos combatentes e a quem, paradoxo para um
historiador, o seu próprio passado deixava indiferente. Nascido de uma
dor e de um esforço sobre si próprio, “Le Cœur rebelle” é de alguma forma um misto do “Jeune Européen” de Drieu e de “La Guerre notre mère” de
Jünger – o manual do insurgente moderno.
Sem ser ingénuo, Venner congratulava-se de ter podido conhecer “o casal
divino, a coragem e o medo” outrora cantados por Drieu após a carga de
Charleroi, como uma guerra quase feudal, a última (?) que deixava ainda a
iniciativa ao indivíduo e não à máquina. Se não escondia a face atroz
da sua guerra da Argélia, onde descobriu a crueldade pura (“uma criança
triturada como uma lebre”), Venner descrevia bem a traição da
retaguarda, o masoquismo odioso dos progressistas, a sua cobardia com
pretensões humanitárias. Para Venner, esta guerra que nunca ousou
verdadeiramente dizer o seu nome constitui uma experiência fundadora.
Estou aliás convencido de que o seu suicídio foi a sua última
consequência: o homem de espada, que durante tantos anos havia reprimido
as suas pulsões nascidas do estrondo das armas, quis voltar a juntar-se
aos seus camaradas do “djebel”, de pé, com os olhos abertos e pelo sangue derramado. Como ele escreve em “Le Cœur rebelle”,
onde o tema do suicídio – o de Montherland e o do seu amigo Grossouvre,
que se matou no seu gabinete no Eliseu – conclui o ensaio de maneira
profética: “alcançar a sua morte é um dos actos mais importantes da
vida”.
Das muitas páginas que poderiam ser citadas, escolho a última, que é de
um escritor de raça e que não pode deixar de virar do avesso todas as
almas de qualidade, de onde quer que elas venham: “Sou do país das
árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados
inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de
Inverno e das festas de São João no Verão, das crianças loiras e dos
olhares claros, da acção obstinada e dos sonhos loucos, das conquistas e
da sabedoria. Sou do país onde fazemos o que devemos porque o devemos
em primeiro lugar a nós próprios.”
Leiamos este livro, ofereçamo-lo às jovens almas ardentes. E saudemos
Pierre-Guillaume de Roux, o editor, e Bruno de Cessole, o prefaciador,
pela sua fidelidade a um amigo desaparecido.
Testemunho sobre uma juventude de tempestade, tratado estóico de
saber-viver, reflexão sobre a acção, meditação sobre o trágico, “Le Cœur rebelle”
ficará e encontrará novos leitores, porque este livro extraordinário
ilustra o primado do estilo sobre as ideias, do instinto vital sobre as
abstracções. “Le Cœur rebelle”, ou o suor e o sangue transmutados em espírito.
Christopher Gérard
Dominique Venner, Le Cœur rebelle, édition augmentée et préfacée par Bruno de Cessole, Pierre-Guillaume de Roux, 22€.
*
**
Três perguntas a Dominique Venner
sobre “Le Cœur rebelle”
Christopher Gérard – Em “Le Cœur rebelle” evoca com
simpatia “um jovem intolerante que levava em si mesmo como um odor de
tempestade”: você mesmo no tempo dos combates militares na Argélia e,
depois, políticos em França. Quem era então este jovem Kshatriya, donde vinha, quem eram os seus mestres, os seus autores predilectos?
Dominique Venner – É aqui que encontramos uma alusão ao “gerfaut”
da sua primeira pergunta, recordação de uma época estimulante e
perigosa onde o jovem que eu era acreditava poder inverter um destino
contrário através de uma violência assumida. Isto pode parecer
extremamente presunçoso, mas, à época, eu não reconhecia qualquer
mestre. É claro, eu ia procurar estímulos e receitas no “Que fazer?”, de
Lenine, ou em “Os Reprovados”, de Ernst von Salomon. Acrescento que as
leituras infantis contribuíram para forjar em mim uma certa visão do
mundo que no final foi muito pouco desmentida. Em conjunto, citarei “Éducation et discipline militaire chez les Anciens”
[“Educação e Disciplina Militar nos Antigos”, de Marcel Poullin
(1883)], pequeno livro sobre Esparta que vinha do meu avô materno, um
antigo oficial, “A Lenda da Águia” de Georges d’Esparbès, “O Bando dos
Ayacks” de Jean-Louis Foncine, “O Apelo da Floresta” de Jack London,
enquanto não lia mais tarde o admirável “Martin Eden”. Tratavam-se de
livros formadores dos meus dez ou doze anos. Mais tarde, por volta dos
vinte ou vinte e cinco anos, tinha passado naturalmente a outras
leituras, mas as livrarias eram então mal fornecidas. Era uma época de
penúria intelectual da qual não temos ideia hoje. A biblioteca de um
jovem activista, mesmo de um devorador de livros, era magra. Na minha,
por entre obras históricas, figuravam “Reflexões sobre a Violência” de
Georges Sorel, “Os Conquistadores” de Malraux, “Genealogia da Moral” de
Nietzsche, “Serviço Inútil” de Montherland, ou ainda “O Romantismo
Fascista” de Paul Sérant, revelação dos anos 60. Vemos que não ia muito
longe. Mas se as minhas ideias eram curtas, os meus instintos eram
profundos. Muito cedo, enquanto ainda era soldado, senti que a guerra da
Argélia era uma coisa diferente do que se dizia ou do que pensavam os
ingénuos defensores da “Argélia francesa”. Percebi que se tratava de um
combate identitário para os europeus porque na Argélia estavam ameaçados
na sua própria existência por um adversário étnico. Senti igualmente
que lá defendíamos – muito mal – as fronteiras meridionais da Europa.
Contra as invasões, as fronteiras defendem-se sempre para além dos mares
ou dos rios.
Neste livro, que é um pouco a sua autobiografia, escreve: “Sou do
país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos
telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do
solstício de Inverno e das festas de São João no Verão.” Que estranho
paroquiano é você, afinal?
Para dizer as coisas de maneira breve, sou demasiado conscientemente
europeu para em nada me sentir filho de Abraão ou de Moisés, ao mesmo
tempo que me sinto plenamente o de Homero, de Epicteto ou da Távola
Redonda. Isto significa que procuro as minhas referências em mim, o mais
próximo das minhas origens e não num lugar longínquo que me é
perfeitamente estranho. O santuário onde me vou recolher não é o
deserto, mas a floresta profunda e misteriosa das minhas origens. O meu
livro sagrado não é a “Bíblia”, mas a “Ilíada”, poema fundador da psique
ocidental, que atravessou miraculosa e vitoriosamente os tempos. Um
poema que vai às mesmas fontes que as lendas célticas e germânicas de
que manifesta a espiritualidade, se nos dermos ao trabalho de o
decifrar. No entanto, não esqueço os séculos cristãos. A catedral de
Chartres faz parte do meu universo da mesma forma que Stonehenge ou o
Partenon. Esta é a herança que é necessário assumir. A História dos
europeus não é simples. Depois de milénios de religião indígena, o
cristianismo foi-nos imposto por uma série de acidentes históricos. Mas
foi ele próprio em parte transformado, “barbarizado” pelos nossos
antepassados, os bárbaros, os francos e outros. Foi amiúde vivido como
uma transposição dos cultos antigos. Atrás dos santos, continuou-se a
celebrar os deuses familiares sem se fazer grandes perguntas. E nos
mosteiros recopiavam-se os textos antigos sem necessariamente os
censurar. Esta permanência é ainda verdadeira hoje em dia, mas sob
outras formas, apesar dos esforços da predicação bíblica. Parece-me
necessário ter em conta a evolução dos tradicionalistas que constituem
tantas vezes ilhas salutares, opondo ao caos ambiente as suas famílias
robustas, as suas crianças numerosas e o seu agrupamento de jovens em
boa forma. A perenidade da família e da pátria que eles reclamam, a
disciplina na educação, a firmeza nas provas não tem evidentemente nada
de especificamente cristão. São réstias da herança romana e estóica que a
Igreja mais ou menos assumiu até ao início do século XX. Inversamente, o
individualismo, o cosmopolitismo actual, o culpabilismo são heranças
laicizadas do cristianismo, como o antropocentrismo extremo e a
dessacralização da Natureza nos quais eu vejo a fonte de uma modernidade
faustiana enlouquecida de cujos efeitos pagaremos um elevado preço.
Em “Le Cœur rebelle” diz também: “Os dragões são vulneráveis e mortais. Os heróis e os deuses podem sempre regressar. Não há fatalidade a não ser no espírito dos homens.” Pensamos em Jünger, que conheceu, que via em acção Titãs e Deuses…
Matar em si próprio as tentações fatalistas é um exercício que não
tolera descanso. Quanto ao resto, deixemos às imagens o seu mistério e
as suas múltiplas radiações, sem as apagar com uma interpretação
racional. O dragão pertence desde a eternidade ao imaginário ocidental.
Ele simboliza umas vezes as forças telúricas, outras as forças malignas.
Foi pela luta vitoriosa contra um monstro que Hércules, Siegfried ou
Teseu acederam ao estatuto de herói. À falta de heróis, não é difícil
reconhecer na nossa época a presença de diversos monstros, que eu não
creio que sejam invencíveis mesmo que o pareçam.
terça-feira, 19 de maio de 2020
Novilíngua
"Em comparação com o nosso, o
vocabulário da Novilíngua era diminuto, e constantemente surgiam
novas formas de o reduzir. Com efeito, a Novilíngua diferia da maior
parte das outras línguas porque o seu vocabulário ia diminuindo em
vez de aumentar todos os anos. Cada redução era um ganho, pois
quanto menor a área de escolha, menor a tentação de pensar. Como
fim último, esperava-se atingir uma linguagem emitida pela laringe,
sem passar pelos centros nervosos superiores. Objectivo esse,
francamente admitido pelo termo de Novilíngua patofalar, que
significava «grasnar como um pato»."
George Orwell
in "1984", Antígona.
George Orwell
in "1984", Antígona.
segunda-feira, 18 de maio de 2020
Circo!
"É preciso dizê-lo... fosse eu membro de uma Célula, de uma Sinagoga, de
uma Loja, de um Partido, de uma Confissão, de uma Polícia... não
importa qual!... saísse eu dos plissados de uma qualquer «Cortina de
ferro»... e tudo se arranjava! seguro! duro! puro!... de um Circo!...
qual? pouco importa!... assim fazem pela vidinha os Maurois, Mauriac,
Thorez, Tartre, Claudel!... e demais companhia!... o abade Pierre... o
Schweitzer... o Barnum!... sem idade e sem vergonha! o Nobel, as
Grã-Cruzes, no papo! Mesmo com a pernoca a fugir-lhes para a cova, a
desfazerem-se, incontinentes, «honorários», «Figuras de Proa dos
Partidos»! Juanovicistas! está bem!... tudo está bem quando acaba bem!
tudo é permitido, desde que palhaço reconhecido e de cartão em dia!
certamente que está de panelinha aí com um Circo!... não? infortúnio! ai
não temos Cúpula que o abrigue? ai não? para o cepo, que o machado não
tarda..."
Louis-Ferdinand Céline
in «De Castelo em Castelo», Publicações Dom Quixote, 1992.
Louis-Ferdinand Céline
in «De Castelo em Castelo», Publicações Dom Quixote, 1992.
domingo, 17 de maio de 2020
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