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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O mito de uma economia de serviços que iria substituir a velha economia fabril

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"Nos Estados Unidos, a globalização representou o desmantelamento acelerado da base industrial nacional e a sua transferência para outros países onde a mão-de-obra era baratíssima e onde não se aplicavam regulamentações de defesa do ambiente. Também representou a ascensão de uma «economia de serviços» ou, melhor, do mito de uma economia de serviços que iria substituir a velha economia fabril. Digo «mito» porque era essencialmente absurdo, como a velha história da aldeia que prosperou porque os seus habitantes trabalhavam todos lavando a roupa uns dos outros. Com efeito, na economia de serviços criavam-se cada vez menos coisas reais com valor. Era mais outra manifestação temporária e inconstante da tremenda entropia produzida pelo contributo de combustíveis fósseis baratos."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Revolta Contra a Arquitectura Moderna

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"A arquitectura pré-modernista foi concebida para aproveitar a luz solar para o aquecimento e iluminação dos edifícios (e as brisas, que também são produzidas pela acção solar no ar, para o arrefecimento). O desenvolvimento dessas técnicas tradicionais foi uma acumulação lenta e dolorosa de experiências ao longo de séculos. Foi a abundância anómala de petróleo e gás baratos na nossa época que permitiu aos construtores, e sobretudo aos arquitectos, preocupados com questões de estilo, afastarem-se das práticas tradicionais que tiravam partido da energia solar passiva. O século XX foi a era das curtain walls de vidro nos prédios de escritórios, das janelas que não abriam (ou que não existiam), das fachadas em titânio e de outras façanhas da moda destinadas a decorar os edifícios para proclamar o génio ousado e criativo de quem os concebia. Este comportamento narcisista só foi possível numa sociedade com uma energia barata, na qual pouco mais importava na arquitectura do que a moda e o estatuto associados a um lugar de vanguarda. Num museu concebido por Frank Gehry, pouco importava que entrasse ar ou luz, porque era para isso que serviam o ar condicionado e os focos de halogéneo. O que importava era que a cidade fosse abençoada com um objectivo da moda criado por um xamã célebre. Ora, nada está mais sujeito a desvalorizar-se por deixar de estar na moda do que uma coisa que só é valorizada por ser moderna."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Deslocalização = Destruição

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"A informatização das empresas americanas promoveu a hemorragia de postos de trabalho e de sectores inteiros de actividade que se mudaram para lugares remotos, bem como a «deslocalização» de departamentos inteiros para outros países. Os rendimentos decrescentes adicionais associados à vitória retalhista nacional foram a destruição maciça das comunidades americanas, incluindo o hardware das localidades e o software dos papéis sociais e redes a elas associados. Os computadores limitaram-se a ajudar as empresas predadoras a parasitarem mais eficazmente os valores existentes nas localidades vitimizadas. Foram extremamente bem-sucedidos na tarefa de sugar a alma de comunidades complexas. Ajudaram a «converter» a complexidade em simplicidade (um enorme estabelecimento em lugar de vinte e sete pequenas empresas locais) e a aumentar a entropia da sociedade."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Conflito Racial durante a Longa Emergência

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"Na pior das hipóteses, os vídeos de rap exibidos na televisão por cabo assemelham-se a cânticos bélicos de um conflito que ainda não se verificou. Só entre um grupo tão narcisicamente perdido e desorientado como a América branca suburbana é que mensagens destas seriam acolhidas como mais um tipo de entretenimento, entre muitos. Durante a Longa Emergência, quando os pobres se tornarem mesmo pobres, pelos padrões mundiais, os guetos urbanos poderão voltar a explodir, e, da próxima vez que suceder, será no contexto de uma sociedade muito mais desesperada do que aquela que assistiu ao incidente de Rodney King, em 1992, e às suas repercussões. É pouco provável que a explosão se confine aos guetos, devendo, antes, evoluir para uma guerra de guerrilha mais generalizada e prolongada do tipo da que existe há décadas nos países do Terceiro Mundo, e irá decorrer num pano de fundo de turbulência geral."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Assemelhava-se à eficácia do cancro

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"Nos anos 80 e 90, assistiu-se nos Estados Unidos a uma conversão de bens públicos em luxos privados, ao empobrecimento do domínio cívico e, para falar com franqueza, à violação da paisagem — um enorme empreendimento entrópico que foi a fase culminante dos subúrbios. O segredo sujo da economia americana dos anos 90 consistia no facto de estar reduzida à criação da expansão suburbana e ao fornecimento, equipamento e financiamento dessa actividade. Assemelhava-se à eficácia do cancro. Nada mais interessava realmente a não ser a construção de habitações suburbanas, a negociação de hipotecas, a venda de grande número de automóveis de que os habitantes precisavam, a transformação das ruas em auto-estradas com toda a infra-estrutura comercial necessária e o transporte de enormes quantidades de mercadoria feita na China, por um preço baixíssimo, para encher essas casas."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A Longa Emergência

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"A confusão entrópica em que a nossa economia se transformou é a explosão final da última fase do industrialismo baseado no petróleo. As práticas destrutivas conhecidas pelo nome de «mercado livre global» foram engendradas pela nossa corrida e chegada ao pico mundial de produção petrolífera. Trata-se do clímax lógico da «história» do petróleo, que exigiu a destruição de todos os anteriores impedimentos — logísticos, políticos, morais e culturais — a fim de maximizar o presente em detrimento do futuro, e de o fazer para beneficiar um punhado de pessoas em detrimento da maioria. Nos Estados Unidos, o mercado livre global tornou-se a ortodoxia reinante dos dois partidos políticos, contestada apenas por marginais excêntricos com piercings no nariz. Quando o mundo reconhecer que a produção de petróleo ultrapassou o seu pico, a globalização já estará morta, tanto na teoria como na prática."

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Teremos de renunciar aos próprios sistemas"

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«Os combustíveis fósseis permitiram que a espécie humana criasse e mantivesse sistemas altamente complexos a escalas gigantescas. As fontes de energia renovável não são compatíveis com esses sistemas e escalas. As energias renováveis não conseguirão ocupar o lugar do petróleo e da gasolina nesses sistemas. Teremos de renunciar aos próprios sistemas. Mesmo muitos "ecologistas" e "verdes" dos nossos dias parecem pensar que basta mudar a energia. Em vez de usarmos electricidade gerada por petróleo ou gás para fazer funcionar os aparelhos de ar condicionado de Houston, usaremos parques eólicos ou enormes painéis solares; teremos automóveis com combustíveis supereficientes e continuaremos a circular de um lado para o outro no sistema rodoviário interestadual. Não é isso que vai acontecer. O desejo de manter os mesmos sistemas gigantescos a escalas gigantescas, recorrendo a energias renováveis, ocupa o lugar central nas nossas ilusões sobre energia solar, eólica e hidráulica.»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Rebenta a bolha!

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«A ideia da vantagem comparativa funciona quando, por trás do artigo especializado produzido por cada parceiro comercial, subsiste intacta uma economia local complexa, com diversos papéis sociais e nichos profissionais, capazes de apoiar o projecto a longo prazo da comunidade. Porém, uma localidade organizada para produzir apenas um artigo para exportação acaba por ser um sistema esclavagista baseado na lógica económica da exploração. Na versão extrema da vantagem comparativa, sob o regime do inudstrialismo hiper/turbo de finais da era do petróleo, com os seus transportes ultrabaratos e as suas comunicações instantâneas que anulavam quaisquer vantagens da geografia, as únicas vantagens comparativas que restavam eram a mão-de-obra barata e o capital livre. Um grupo possuía toda a mão-de-obra barata e o outro todo o capital, e, durante algum tempo, um grupo produzia todas as coisas que o outro grupo «consumia». Por conseguinte, a vantagem comparativa transformou-se numa vigarice para benefício exclusivo das grandes empresas, que acabaram por usufruir de todas as vantagens enquanto as localidades arcavam com todos os custos.»

James Howard Kunstler
in "O Fim do Petróleo - O Grande Desafio do Século XXI", Bizâncio, 2006.
 
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