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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
O fermento das minorias
«A desigualdade individual origina no plano social uma divisão entre fortes e fracos, já constatada por Duguit. Os fortes capturam os poderes sociais (político, ideológico, económico) e governam a maioria da população. É o fenómeno das elites dirigentes e dominantes, da hierarquia, que tão bem evidencia a análise da sociedade animal. A reflexão mais desapaixonada sobre esta matéria foi efectuada pela escola sociológica italiana, com Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Roberto Michels. Estes autores provaram a perenidade da minoria, a minoria poderosa, que impõe a sua vontade sobre a maioria dando-lhe a impressão de ser ela a decidir e a governar.
Analisando a sociedade e o homem tal como eles são, estes autores anteciparam-se de quase meio século às realidades científicas do nosso tempo. Identificaram correctamente os detentores do poder real e formularam as leis segundo as quais decorre a disputa da força. Identificaram igualmente as justificações mais ou menos elaboradas que a minoria criou para o seu poderio e chamaram-lhe fórmula política. Dizer que o poder lhe vem de Deus, ou do Povo, ou que é do autocrata a título de conquista, são tudo razões óptimas desde que operem e cumpram a sua função justificativa. Acontece que hoje as fórmulas políticas são as ideologias e nelas não há, como se viu, o menor grão de credibilidade. Está por nascer a fórmula política do nosso tempo, que reduza democracia e socialismo, social-democracia e marxismo, a meros trastes velhos da história da pulhice do homo sapiens.
Os autores que situam correctamente estes problemas numa análise neomaquiavelista são poucos. Todos ainda preferem as visões românticas e penetradas pela ideologia, justificativas em última análise do poder da minoria actuante ou da minoria que aspira ao poder. Contudo, com o desaparecimento desses grandes vultos do pensamento político, não é menos certo que ficaram certos autores que importa conhecer e que reflectem, na Teoria Política, a revolução intelectual a que se assiste noutros campos do saber. Carl Schmitt, o velho professor alemão, James Burnham, Wright Mills e Julien Freund, chegam para assegurar um exercício impecável em matéria de realismo político e transparência de concepção.
As minorias, portanto, longe de se confundirem com a multidão, são pela sua organização e coerência o único fermento social de mudança e poder. Só caem para ceder o lugar a outras, de modo que a História não passa de um velho e enorme cemitério de oligarquias. A lei de ferro da oligarquia, formulada por Michels, apenas se faz eco desta constatação empírica, tão desagradável aos doentes do igualitarismo acéfalo, fervorosos crentes no alibi da tábua rasa.»
António Marques Bessa
in "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade", Edições do Templo (1978).
sábado, 27 de julho de 2013
Assalto à Cultura
"Na tradição leninista derrubava-se o Estado a partir da Economia, e assim se punha fim à Cultura, que não passava de um gigantesco sistema de justificação ideológica. Com Gramsci altera-se o esquema revolucionário. Para ele é fundamental dominar primeiro a Cultura "burguesa" e substituí-la progressivamente por uma "cultura proletária". As transformações e substituições operadas, assim, na "cultura burguesa", irão influenciar a infra-estrutura económica, as relações de produção, o sistema social, mudando a mentalidade dos cidadãos. Só depois desta operação é que se deve conquistar politicamente o Estado, visto que este se encontra desarmado. A resistência, sempre baseada nas estruturas culturais de valores, nos conceitos internos da Cultura, sem esse suporte, nem sequer poderia existir. Daqui que o caminho para o poder nos Estados burgueses, desde há muito, seja este: assalto à Cultura, abastardamento de todas as características positivas do carácter e imagem nacionais, substituição de padrões nacionais por elementos culturais importados, enfraquecimento e eliminação da resistência dos intelectuais patriotas e, finalmente, domínio das principais alavancas da Cultura: meios de comunicação, universidades, institutos e instituições, editoras, escolas, arte, etc."
António Marques Bessa
segunda-feira, 16 de maio de 2011
O tempo dos demagogos
"A ditadura carece de Demagogia no discurso porque suprime as oposições sociais e políticas, enquanto a Democracia as cultiva e incentiva.
Não é só de hoje que o país encontra demagogos. A experiência histórica portuguesa do final da monarquia e durante toda a República parece mais uma parada de pavões que uma ordeiro formigueiro de atarefados trabalhadores e soldados.
Portanto, os regimes demagógicos são a especialidade portuguesa, que contrastam só com ditaduras famosas e que têm nome: a ditadura de João Franco, ministro do Rei Dom Carlos, a Ditadura de Sidónio Pais, a Ditadura de Salazar. Esta experiência de Ditaduras também é portuguesa e em geral partilhada com outros países do globo, embora a análise do tipo de regime caiba por inteiro a Carl Schmmit, no seu ensaio de Doutoramento, A Ditadura.
De facto a ditadura carece de Demagogia no discurso porque suprime as oposições sociais e políticas, enquanto a Democracia as cultiva e incentiva. A democracia não representa qualquer ameaça à demagogia, por esta é apenas a sua degenerescência.
Um regime que a própria democracia pode engendrar quando não encontra limites aceitáveis para a mentira razoável. A mentira torna-se a textura da vida política e social, demagogos e povo mentem, não há palavra, há apenas promessas vãs e inúteis e um multiplicar de palavras marteladas, prejudiciais ao entendimento do que se está a passar.
São tempos baixos, assolados por um primarismo atroz na linguagem, acossado por iniciativas necessariamente curtas de vista, devastado por leis iníquas e mentirosas. É o pântano, nem há mar, nem montanha, nem terra firme. E no pântano só prosperam aqueles que pertencem ao núcleo predador das criatura ao pântano: crocodilos, jacarés, lagartos, abutres comedores de carne podre. A mentira gera o seu ciclo de desgraças e quer se queira, quer não, é sempre uma mentira. O pior é que as mentiras tornam-se cada vez mais graves, mais caras, mais hediondas. A experiência em Demagogia das cidades gregas saldou-se pelo apagamento das suas culturas, do seu poder e finalmente do seu nome. As que sobreviveram tiveram de mudar de regime por força dos cidadãos que entendiam ao tempo mais de política que o português médio.
É consensual que a Democracia nos novos tempos sai caro aos países. Cada competição faz gastar fortunas sem se apurar com isso seja o que for, porque tudo depende da resposta que a sociedade deu a perguntam tão simples quanto estas: quem vota? Quem se apresenta para ser votado? Como se apuram os resultados? Um sistemas criam sistematicamente maiorias e não podia deixar de ser assim, outros sistemas como o nosso preparam minorias e governos de minoria, deixando sempre tudo suspenso. É consensual que se em tempos normais isto é difícil de aguentar, em tempos de crises violentas, simultâneas e com colapsos de sectores inteiros, tal sistema é o pior dos piores e por isso eu sempre detestei esta Constituição de Pântano, escrita quando o país era um grande pântano, a aguardar definição entre a planície e a montanha. Apesar de reformada várias vezes continua a ser o mesmo texto imprestável que era ao início.
Permitia tudo, desde os desmandos de Vasco Gonçalves, até golpadas do PCP, passando pela golpada final dos civis ansiosos de se sentar nas cadeiras do poder.
Todavia o que sobre de tudo, num arco partidário arco-íris é a demagogia. Até com as crises, que mais parecem um Maelstrom, os políticos são capazes de fazer demagogia, de se atribuírem culpas, de discutirem necessidades, sem ver o tsunami que aí vem a uma velocidade estonteante e escondendo a situação ao povo votante. Com a múmia a dizer umas palavras de encorajamento e a dar uns conselhos de cães de palha.
De facto chegou-se ao fim do sistema, esgotaram-se as possibilidades e caminhos abertos na revolução do 25 de Abril. Esgotou-se tudo. Abusaram da nossa paciência, foram-nos ao bolso e planeiam saquear-nos.
Mas, a verdade é só uma: O povo merece o que tem.
António Marques Bessa
in "O Diabo", n.º 1789, 12 de Abril de 2011.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
O mundo mergulha numa era de conflitos
"Para quem esperava por fim uma paz generalizada, deve constituir uma ilusão voltar a pôr os pés na terra. Os conflitos armados não desapareceram com a queda do Muro de Berlim e muito menos com a entrada do milénio. Robert D. Kaplan anunciou que entrávamos num período de anarquia mundial no livro "The Coming Anarchy". Escrevia então no ano 2000: a reformulação do atlas só agora começa. As guerras, as matanças em massa, eram apenas prelúdios para o desaparecimento de países inteiros devorados por conflitos ou afundados pela economia.
É certo que os conflitos regionais se intensificaram e reorganizaram no espaço e hoje está em efervescência toda a África do Norte, que contamina o Levante. A Leste da Europa as democracias novas têm grandes dificuldades em assegurar a ordem e pode-se calcular um destino semelhante ao dos Balcãs para elas, com a agravante que se encontram nas costas do gigante russo.
O próprio gigante russo, segundo Alexander Duguine em "Le Paradigme de la Fin", aponta que o conflito de culturas não é de ignorar e que a Rússia deverá lembrar a sua natureza asiática e europeia, o que preludia pressões sobre numerosos Estado saídos da URSS na Europa.
O investigador sénior do ICS, José Manuel Rolo escreveu um estudo significativo sobre a produção e venda de armas no mundo, intitulado "O Regresso às Armas", onde explana a globalização da produção de armas, a intensificação na utilização de uma nova categoria de armas mais letais, e a operacionalização de sistemas/plataformas de armas para o desempenho de determinados objectivos. O envolvimento das grandes potências e da China neste jogo perigoso torna o mundo mais débil e a segurança uma invenção para todos.
Não foi preciso Samuel Huntington e o seu "Choque de Civilizações" para se ter a noção que a deriva do Globo era para a acentuação dos conflitos e das guerras, sem que as organizações humanitárias possam fazes mais do que já fazem, ou seja, agravá-los.
Colin S. Gray, um profícuo estratega e escritor de assuntos militares, geopolíticos e estratégicos deixou num livro o seu pensamento bem claro. Trata-se de "La Guerre au XXI Siècle. Um nouveau siècle de feu et de sang". Aqui este especialista internacional explica que o século XXI vai ser um pouco pior que o precedente. Como a natureza da guerra não muda, o nosso mundo produzirá guerras brutais como o século anterior e com a impunidade que dá a surpresa estratégica. Este conselheiro do Governo Britânico e Americano nega que haja previsibilidade de conflitos e que possa eliminar uma actividade que faz parte integrante da natureza da cultura humana. A história só pode ensinar que ele tem razão porque ela mesma narra a sucessão de guerras desde o princípio que foram refazendo a face do globo.
Podemos lamentar que assim seja, mas nem a Europa Comunitária está ao abrigo de conflitos indentitários, de disputas futuras de fronteiras contestadas desde o seu primitivo desenho. O acesso a minas, passagens na montanha, corredores para o mar, fronteiras históricas, necessidades de migração são outros tantos motivos para desencadear ofensivas que começam normalmente com os fortes absorverem os fracos e a dirigi-los para outro caminho.
Um mundo seguro?
Só nas utopias mais elegantes é que o mundo é seguro e esses mundos costumam ser grandes ditaduras. O mundo sempre foi inseguro e não há copyrights de estabelecimento permanente no Globo. Em tempos afastados Anatoli Rapoport escreveu "Fight, Games and Debates", retomado por Karl Deutsch, na sua "The Analyses of International Relations", onde o inclui num capítulo sobre teoria dos jogos e análise de conflitos, a part de outros autores como Thomas Schelling e von Neumann. Os autores entendiam que os Estados do mundo estavam num jogo de várias saídas: a colaboração ou o enfrentamento. Mas como foi provado pelo "Dilema do Prisioneiro" (A. Rapoport), as pessoas e o estado preferem a colisão directa. A primeira missão do Estado é continuar a assegurar a sua presença no jogo. Muitos Estados ao longo dos séculos até ao nosso falharam rotundamente: saíram do jogo. Outros foram repostos no jogo por entidades mais poderosas a quem convinha que estivessem no jogo: viu-se ao fim das duas guerras Mundiais e da Guerra Fria. Os Estados com mais êxito, desde que entraram no jogo, continuam no jogo somando ou perdendo pontos, até serem afastados.
Para estas tarefas de estar em jogo o Estado conta com uma elite dirigente, com a Economia e com o aparelho de força. Se aqui existirem brechas ou menor adestramento, o Estado é vulnerável a ataques e falível nas suas decisões. Se contar com uma elite dirigente de vistas curtas, pior ainda porque esta faz de conta que não tem poder ou que tem muito, passando o bluff por realidade.
Neste esquemático desenho o mundo não é seguro porque está sempre em jogo e a qualquer momentos há jogadas inesperadas, que colhem de surpresa os outros, não lhes dando tempo para pensar e reagir racionalmente. É por isso que o facto tempo, que permite escolhas pensadas, não se pode aplicar, e antes é de prever que uma elite experimentada é mais importante que imbecis com graus académicos ínfimos.
Não admira as contradições em que cai a elite dirigente, as mentiras que produz, os enganos que logra impingir, porque ela própria é enganada nos centros que frequenta e intoxicada a tomar decisões a favor de outros planeadores. E a Europa não é diferente. Talvez seja um dos mais antigos espaços em que este jogo diplomático das relações internacionais se joga por inteiro. Dá.nos conta agora em 2011 Jacques Alain de Sédouy, antigo embaixador francês e representante em Bruxelas, de um pequeno jogo em que se considerou útil existir uma Europa. Trata esse tema no bem documentado livro "Aux Origines de L'Europe 1814-1914". O facto é que ninguém deu nada a ninguém porque se tratava de punir a França e repartir despojos. Mas a França, passados anos, já reentrava no jogo europeu com outro estatuto melhorado, que aquele que lhe deixara as aventuras pesadas de Napoleão Bonaparte.
Assim tudo indica que os Estados devem cuidar-se e não esperar dos outros aquilo que precisam com urgência. Este mundo não está fundado na Misericórdia Divina, mas na racionalidade e no realismo das decisões. Ninguém dá nada a ninguém. Note-se, mesmo dinheiro, como parecem pensar os portugueses. Hoje em dia não há crédito para pagar vícios de pobres. Isso só no Estado do Alasca. Quem quiser correr o risco, peça o visto e vá para lá."
António Marques Bessa
in O Diabo, n.º 1788, 5 de Abril de 2011.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Degrelle e o Rexismo
"Nascido numa família católica tradicionalista, Degrelle foi o fundador e principal dirigente do Rexismo, movimento político belga, fortemente influenciado pela extrema-direita maurrasiana da vizinha França. Nas décadas que antecedeu a II Guerra Mundial, o Rex teve um impacte considerável, nomeadamente em Maio de 1936, quando o movimento conseguiu eleger vinte e um deputados a nível nacional. Nessa época, no entanto, a imagem do Rexismo era menos a de uma formação extremista que a de um movimento de inspiração patriótica e católica, em luta contra a corrupção económica.
Degrelle tinha exposto na imprensa rexista diversos escândalos financeiros que implicavam figuras conhecidas dos círculos políticos e da própria Igreja. Ouvindo-o falar em 1936 dos casos de mandatos parlamentares e acumulações financeiras ilegítimas que denunciava nos anos trinta, do poder dos banksters e da corrupção da hierarquia católica, fica-se com uma visão necessariamente unilateral dos casos da época, mas adquire-se igualmente a convicção de que a sua indignação é genuína, e os escândalos mais que simples expedientes políticos eleitoralistas. Durante as campanhas eleitorais em que Degrelle recolhia fundo levando a cabo meetings de massas em que o ingresso era pago, o Rexismo havia revelado uma forte implantação no proletariado e pequena burguesia. Em 1937, a Igreja adopta uma posição claramente hostil, proibindo o voto nos rexistas.
A derrota eleitoral que se segue é consequência directa do que os rexistas passam a considerar como a traição da hierarquia católica, e marca o início de um resvalar progressivo dos seus dirigentes para posições cada vez mais identificáveis com as doutrinas de cariz fascista, em ascensão por toda a Europa.
Quando em 10 de Maio de 1940, a Bélgica se vê invadida, Degrelle encontra-se em plena travessia do deserto político. O que não impede o Governo belga de proceder à sua detenção, e de o entregar, juntamente com vários correligionários, às autoridades de um país estrangeiro — a França — a fim de ser internado como um vulgar inimigo. Depois de escapar por pouco ao sinistro episódio de Abbeville — em que 21 detidos políticos são assassinados pelas tropas francesas —, Degrelle inicia um périplo por vinte e duas prisões ao qual sobrevive, apesar de bastante maltratado. Uma vez regressado à Bélgica, é recebido pelo Rei em Agosto de 1940, e é pressionado para fazer equipa com o chefe dos socialistas De Man, ex-ministro do Governo que lhe infligira a derrota eleitoral, agora adepto de uma colaboração com a Alemanha.
Os pactos políticos de conveniência, porém não lhe interessam e, em 1941, quando a Alemanha invade a União Soviética, a sua componente aventurosa e o gosto pela acção directa levam-no a alistar-se na Legião de Voluntários Valões. Hitler envia um telegrama nomeando-o tenente. Recusa a oferta, e é como simples soldado raso "para ganhar os seus direitos" que parte com os primeiros voluntários."
António Marques Bessa
domingo, 23 de janeiro de 2011
A liberdade nunca é gratuita
"Os amadores, sem nada na cabeça, e muito menos sentido de manobra social, drogavam-se com slogans, perfilhavam a tese da bondade original do homem, celebravam as liberdades, falavam do novo diálogo; os profissionais, que sabiam que isso não era assim, começaram a caçada. A supremacia do profissionalismo é a lição mais importante do 25 de Abril, tal qual como se viu na revolução Russa. Num país que odeia o trabalho, que privilegia a espontaneidade e a desorganização, que celebra o desenrascanço, não deixa de ser notável o domínio de uma minoria disciplinada, treinada, organizada, enfim, politicamente profissionalizada. Os amadores, acreditando na boa fraseologia da liberdade, esqueceram-se das responsabilidades individuais e grupais, que tal ideia implica, E nunca perceberam que a liberdade nunca é gratuita: tem de ser defendida e às vezes custa sangue."
António Marques Bessa
in "O Diabo", n.º1777, 18 de Janeiro de 2011.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Os pastores
«O império dos valores da função económica reduziu o povo e os políticos ao mesmo nível: a partilha e disputa assanhada de valores mercantis: riqueza, competição, mercado, liberalismo. Os políticos eles próprios começam a reconhecer a sua humilde função de vendedores de banha da cobra. As qualificações do vendedor de si mesmo exige marketing, mentira, promessas cínicas, hipocrisia, engano doloso, promessas cínicas, hipocrisia, mas em geral uma atitude indiferente ao que se passa e atinge o povo. Eles já se desligaram dessa massa de carneiros e pretendem ser os seus pastores, tocando o pífaro suavemente e lançando o cão de vez em quando às canelas das ovelhas mais retrógradas.»
António Marques Bessa
in "O Diabo", 11 de Janeiro de 2011.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A Era do Álibi
«Os cientistas oficiais preferem explicar o Estado pela luta de classes, o canibalismo pela deficiência em proteínas, guerra pelas indústrias de armamento e pelo capitalismo, a droga pela falta de amor, o crime pela frustração, e assim por diante. O ciclo cultural que nos integra culminou afinal numa gigantesca Era do Álibi. Tudo está desculpado. Ninguém tem culpa de nada.»
António Marques Bessa
in "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade", Edições do Templo (1978).
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Controlo
"A democracia vigiada também é o controlo do cidadão pela máquina. Logo que a classe política profissional se viu entrincheirada no poder, com a economia na mão, raciocinou bem: só nos falta controlar as massas. E as massas são as pessoas consideradas uma a uma. Tornou-se fácil, com o Estado despesista e sem limites de orçamento, começar a pentear o tecido social para encontrar inimigos e quem interessa para pagar as suas contas. Então, em vez do odioso militar e o cárcere no quartel, o cidadão passou a ter direito a uma observação constante do Ministério das Finanças, que paulatinamente constrói ficheiros e acena com anos de cadeia como se fosse um cacho de bananas. Diversos órgãos de espionagem da república como o conhecido SIS, como o conhecido SIR, como os serviços de informação especiais de cada Ministério, bem com as redes pessoais de cada "homem grande", estendem-se sobre os portugueses para apurar o que andam a fazer, especialmente os mais activos. O acesso a contas confidenciais de simples cidadão, que a eles diz respeito como rotina, é mais um aspecto da vigilância que não será para desprezar, porque a independência económica assegura a independência política. As redes asseguram outros a ficarem impunes: fazem-nos desaparecer e a massa esquece o nome e o que ele fez.
As redes internacionais de informação e controlo ajudam a que este sistema ainda funcione melhor: trocam dados, aconselham técnicas de vigilância, de gravação, mesmo os computadores pessoais podem ser penetrados e toda a informação tida por bem guardada pode ser espionada e vasculhada por um especialista contratado por uma destas redes."
António Marques Bessa
in «O Diabo», 10/8/2010.
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