sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Pensar o trabalho de amanhã: apresentação do Colóquio Iliade 2025

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O décimo segundo colóquio do Institut Iliade realizar-se-á no sábado, 5 de Abril de 2025, em Paris, com o tema “Pensar o trabalho de amanhã: Identidade. Comunidade. Poder”.

 


Globalização e financeirização, desindustrialização e terciarização, digitalização e desmaterialização, externalização e precarização, robotização... Em poucas décadas, o trabalho sofreu profundas transformações, gerando tensões, desilusões e preocupações, levando-nos a questionar o seu lugar na nossa vida e na nossa sociedade. O trabalho está em crise. Por isso, é preciso “repensá-lo”, mas também imaginar novas formas de o “reencantar”, no contexto da nova comunidade de destino que a Europa deve forjar para si própria.


Os gregos e os romanos faziam uma distinção entre o trabalho alienante (ponos, labor) e a actividade criativa propriamente dita (ergon e poiesis, opus), intimamente associada ao logos. O primeiro era inadequado para o homem livre e cidadão, que deveria aprender a cultivar o otium, o tempo dedicado ao lazer estudioso e à meditação, para além do negotium, o domínio da produção e do lucro comercial.


A sociedade medieval estava dividida em três ordens, herdadas de uma antiga estrutura indo-europeia: os laboratores deviam ser produtivos para garantir a sua subsistência, enquanto o manejo das duas espadas, espiritual e temporal, cabia aos oratores e aos bellatores. O exercício de um ofício, visto pela Igreja como um meio de redenção e de santificação, tinha uma dimensão profundamente comunitária, no quadro das comunidades de aldeia, dos grémios e das corporações, onde imperava o ideal do “trabalho bem feito”.


Na sequência da Reforma Protestante, seguida das teorias liberais inglesas do Iluminismo e das teorias marxistas do século seguinte, uma nova concepção do trabalho, essencialmente utilitarista e mercantil, em profunda rutura com as concepções antigas e medievais, foi-se afirmando no Ocidente. Surgida com a ascensão do capitalismo fabril, a noção de trabalho reduzida à sua dimensão estritamente material foi uma invenção da modernidade. Conceito intrinsecamente ligado à procura de produtividade e regido unicamente pela racionalidade económica, o trabalho tornou-se um “valor” determinante no conjunto da sociedade. No século XX, o aumento da mecanização e a era das massas conduziram à “mobilização total” das forças produtivas, de modo que toda a actividade humana tendeu a tornar-se inteiramente quantificável, e as próprias pessoas passaram a ser engrenagens na roda dos processos técnicos e económicos globais.


Nada parecia pôr em causa esta evolução. No entanto, parece que o trabalho é um valor que está agora a ser posto em causa em todo o mundo ocidental contemporâneo. Será o fim de um ciclo?

À medida que se aceleram as revoluções tecnológicas, o trabalho sofre mudanças radicais que acentuam tendências antigas: a perda de sentido do trabalho, a dependência de actividades de lazer fúteis, o desaparecimento da dimensão comunitária, a expansão do mundo virtual, a destruição dos empregos e a transformação do trabalhador numa peça permutável da “máquina de gestão”. Além disso, no momento em que a concorrência entre as grandes potências se intensifica e faz soar o toque de morte das ilusões de uma “globalização feliz”, as escolhas feitas pelos nossos dirigentes nas últimas décadas colocam os povos e as nações da Europa numa situação de vulnerabilidade preocupante: perda de soberania energética e tecnológica, desindustrialização e terciarização excessiva, recurso a uma mão de obra pouco qualificada e de baixo custo extra-europeia, verdadeiro exército de reserva para o capital, destinado a satisfazer tanto a preguiça dos consumidores como a avidez comercial dos grupos de interesses privados, enquanto os governos se esboroam sob o peso da dívida.


Este declínio não é, provavelmente, inevitável, desde que os europeus tomem em mãos o seu destino e se mostrem capazes de pensar o trabalho de amanhã em termos de identidade, de comunidade e de soberania: é apoiando-se nos valores duradouros da sua civilização, mas também dando provas de inventividade, que poderão restituir sentido e eficácia à sua actividade produtiva e voltar a conceber o trabalho como um caminho para a excelência e um instrumento de poder. A conquista de uma autonomia estratégica para o continente europeu é o primeiro passo essencial para esta renovação. Requer decisões eminentemente políticas e não apenas considerações financeiras míopes. Mas pressupõe também uma verdadeira recuperação intelectual e moral, na qual as dimensões espiritual e estética desempenharão também um papel fundamental: para dar sentido ao trabalho, é importante ultrapassar a visão estritamente materialista, individualista e utilitarista da actividade humana e colocá-la na perspectiva de um destino histórico comum.


Para além destas considerações, os europeus precisam também de recuperar o controlo do seu tempo, de modo a substituir uma abordagem consumista do lazer pelo gosto pelo otium, o lazer que eleva a alma e o espírito. Esta é precisamente uma das perspectivas oferecidas pelo desenvolvimento tecnológico, desde que o domínio deste último seja conquistado por uma nova elite inventiva, cuja visão do mundo seja capaz de combinar o sentido das proporções com a vontade de poder.


São estas as pistas que o Institut Iliade pretende explorar no âmbito do seu XII colóquio e do segundo Caderno do Pôle Études, que será lançado neste evento.

 

Henri Levavasseur

 

Informações práticas


XII Colóquio do Institut Iliade

Pensar o trabalho de amanhã: Identidade. Comunidade. Poder

Sábado, 5 de Abril de 2025, das 10:00 às 19:00 horas

Maison de la Chimie, 28 rue Saint-Dominique 75007 Paris

Bilheteira online

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Bons Europeus

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É impossível ficarmos indiferentes ao discurso de J.D. Vance. Para onde vai a Europa?

 


O discurso do Vice-Presidente dos Estados Unidos da América na Conferência de Segurança de Munique deste ano provocou um verdadeiro tremor de terra político e diplomático. Mais à direita, Vance apareceu como uma voz da salvação, um exemplo a seguir. Já para o centro e para a esquerda, foi a encarnação do mal, o demónio que se intrometeu na vida alheia para a destruir.

Estamos condenados a ser «Europeus bons», pacificados e obedientes, esterilizados pelo individualismo consumista, ou «Europeus maus», suicidas e cegos pelo amor incondicional do outro, imbecilizados pelo niilismo progressista?


Escreveu Guillaume Faye que «um povo ou uma civilização que abandonam a sua vontade de poder serão inevitavelmente submersos; porque quem não avança recua, e quem recusa o combate como consubstancial à vida não viverá muito tempo». A chave está exactamente na vontade de afirmação e só os Europeus poderão construir a Europa, como filhos do futuro. A terceira via é a daqueles que Nietzsche distinguia dos patriotas, os Bons Europeus.


As palavras de Vance não são novidade, mas parece que é necessária uma voz exterior, em especial do representante da maior potência mundial, para que vejamos o que está diante dos nossos olhos. Analisemos as três questões essenciais do seu discurso, numa perspectiva europeia.


A imigração maciça é a nossa maior ameaça. Vance não negou as ameaças externas, como a Rússia ou China, mas recordou o óbvio, o perigo interno. As elites europeias esqueceram a figura do «inimigo dentro de portas» e recusaram por demasiado tempo qualquer consequência negativa do fenómeno migratório, mas hoje a fantasia do fim da História desvanece-se. A única resposta política viável para este desafio presente é parar os fluxos e revertê-los, uma mudança que será apenas eficaz se concretizada a nível europeu.


É necessária uma política de defesa europeia. Vance foi taxativo em afirmar que «é importante que, nos próximos anos, a Europa dê um passo em frente para assegurar a sua própria defesa». Da protecção dos seus cidadãos e das suas fronteiras ao investimento nas suas forças armadas, os europeus não podem depender de qualquer potência externa. A paz assegura-se estando preparados para a guerra e este é o ensinamento clássico que nos deve guiar. O desenvolvimento da indústria de defesa europeia e a dinamização de um comando das forças conjuntas dos Estados europeus são os primeiros pilares para a afirmação da Europa como potência militar.


A democracia é o regime da vontade popular. Mas Vance veio recordar que não pode haver lugar a cordões sanitários eleitorais ou outras formas de cercear a expressão do povo. Nas suas palavras, «ao que nenhuma democracia, americana, alemã ou europeia, conseguirá sobreviver é dizer a milhões de eleitores que os seus pensamentos e preocupações, as suas aspirações, os seus pedidos de ajuda, são inválidos ou indignos de serem sequer considerados». Os chamados populismos são actualmente o eixo de viragem deste impasse político-partidário, provocado pela crise de legitimidade.


Os críticos que prontamente viram neste discurso uma ingerência de Vance nos assuntos europeus são os que delegam alegremente a defesa da Europa aos EUA e fecham os olhos aos apoios externos financeiros dos norte-americanos de toda a ordem, incluindo aos media ditos «de referência». Aqueles que observaram nestas palavras um ataque à democracia europeia, são os que querem ilegalizar partidos inconvenientes, especialmente quando representam uma parcela cada vez maior da população, ou que se opõem aos referendos a questões fundamentais, como a imigração.


Perante os presentistas, que confundem a União Europeia com a Europa, os passadistas, que sonham com soberanismos impossíveis, ou os fatalistas, para quem nada vale a pena, a melhor ideia que J.D. Vance transmitiu no seu discurso em Munique foi a de que «não temos de ter medo do futuro».


Sente-se o aceleracionismo neste fim de interregnum e, com a Europa no horizonte, recordo-me das sábias e inspiradoras palavras de Giorgio Locchi: «Se quisermos falar da Europa, se quisermos planear a Europa, temos de pensar na Europa como algo que nunca existiu, algo cujo significado e identidade ainda não foram inventados. A Europa não foi e não pode ser uma “pátria”, uma “terra de pais”; só pode ser planeada, projectada, nas palavras de Friedrich Nietzsche, como uma “terra de filhos”.»


Duarte Branquinho

Sol, 19/2/2025.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Ialta e/ou Weimar

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 Modelos de bandidos, comerciantes e escravos.




Modelos, símbolos e referências moldam as acções na vida e na História.

Riade segue o rasto de Ialta

no espírito de uma “Ialta 2.0” que envolve a Europa, o Médio Oriente e parte de África.

Na realidade, mais do que Ialta – onde, em fevereiro de 1945, foram selados os destinos dos povos submetidos ao sistema internacional dos criminosos e dos mercadores – a cimeira de bandidos da Arábia Saudita remete para Teerão, onde, no final de Novembro de 1943, esses destinos foram decididos.

Mas Ialta continua a ser o símbolo, o modelo

A partir de agora, não se fala de outra coisa e, numa ironia involuntária, é enaltecida como factor de estabilização.

“Óptimo, vamos voltar a ser escravos! exclama um liberto a quem foi retirada a liberdade no filme italiano “Cipião, o Africano”.

De facto, em Riade, pouco se falou da Ucrânia

mas muito sobre a exploração de terras raras, o desenvolvimento de pipelines e a partilha dos despojos, com total desprezo por todos os outros assuntos do planeta.

E há mesmo – e não são raros – aqueles que se regozijam pelo facto de o Vice-Presidente americano Vance, que não tem qualquer poder real e é uma figura perturbadora (dado que até mudou a sua confissão religiosa quando era muito jovem para subir na escada do establishment), ter humilhado os europeus.

Imaginem um futuro chanceler alemão a felicitar-se porque um representante da França humilhou os alemães no Ruhr, em 1923, simplesmente porque foi uma bofetada na cara de Weimar?

Weimar, precisamente

parece ser o modelo escolhido pela UE, com reuniões inconclusivas e mil posições divergentes, como por exemplo em Paris, na segunda-feira à noite.

Weimar, onde reinava a decadência, onde as questões de género e um movimento pré-Woke começavam a emergir, e onde se afirmava ser possível pôr a Alemanha de pé apenas através da economia e da diplomacia.

Este parêntesis alemão, baseado no processo económico unificador renano do Zollverein e reflectido na concepção de uma Europa que, infelizmente, nunca esteve verdadeiramente unida e nunca teve um poder central, foi, de facto, menos desastroso do que a História recorda.

Durante o período de Weimar

havia muitos impulsos e tendências, mas nem todos os opositores eram anti-alemães, tal como, actualmente, os que se insurgem contra a UE não são necessariamente anti-europeus.

Havia aqueles que – tal como fazem hoje muitos entusiastas do vazio – se regozijavam com cada humilhação alemã, porque, fossem eles comunistas ou da direita monárquica, esperavam ser dominados pelos russos ou tornar-se lacaios de Londres.

Mas havia também aqueles que, opondo-se à classe dirigente de Weimar, queriam uma Alemanha unida, forte, empenhada e não sujeita a qualquer influência, quer interna quer externa.

Foram eles que puseram fim ao parêntesis de Weimar

Amavam o seu próprio povo, a sua própria terra; eram movidos pela dignidade e não se viam como cidadãos do mundo, ao ponto de nunca exigirem receber ordens de ninguém – nem de Estaline, nem de Chamberlain, nem mesmo de Mussolini.

Hoje, por outro lado, muitas pessoas têm um imaginário globalizado e falam de TrumpPutin e Netanyahu como se estivessem cá e como se fossem compatíveis com a nossa História, com o nosso sentido de lugar e com o nosso próprio ser.

No entanto, eles tinham fé, não estavam extintos, não estavam mortos e não troçavam daqueles que, no meio do desastre e da decadência total – como em 1923 ou 1929 – acreditavam na Alemanha, sem fingir que ela tinha morrido em Verdun ou Versalhes.

Encontrem a diferença

e compreenderão porque somos fracos, e saberão como renasceremos.

Com ou sem ti!

Gabrioele Adinolfi

NoReporter

sábado, 11 de janeiro de 2025

Jean-Marie Le Pen, o último dos moicanos

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Figura incontornável da política francesa, tão polémico como corajoso, Jean-Marie Le Pen morreu aos 96 anos.



Fiel às suas origens, Jean-Marie Le Pen gostava de recordar que o seu apelido significava «chefe» em bretão e, depois de o sabermos, é irónico ouvir os seus inimigos e detractores a tratarem-no assim. Homem inteligente e político ardiloso, tinha também a ironia como característica que, amiúde, usava como arma nos confrontos verbais.

O seu percurso foi tão difícil como formidável, das origens humildes até ser eleito deputado com apenas 27 anos, da experiência de combate como voluntário, à difícil construção do Front National (FN), a partir de 1972, partido com o qual se confundiu, até chegar à segunda volta das eleições presidenciais, 30 anos depois, perante a estupefacção geral. Gerou paixões e ódios, sofreu ataques políticos, pessoais e à sua família, mas nunca desistiu.

A imprensa ansiava pelas suas «derrapagens», mas Le Pen era capaz de juntar a erudição à truculência numa eloquência combativa. Sem surpresa, tornou-se um fenómeno mediático e uma importante figura política em França e na Europa. O seu exemplo foi precursor e inspirador para muitos movimentos e partidos europeus.

É assim fácil de entender porque é que um homem que vivera a guerra e a luta política com os maiores do seu tempo olhava para os políticos actuais como um gigante para um bando de anões. Em 1997, no Libération, Jean Baudrillard escreveu que «o único discurso político em França, actualmente, é o de Le Pen. Todos os outros são morais e pedagógicos, a retórica dos professores e conferencistas, dos gestores e programadores».

Cometeu erros e exageros, foi intransigente, provocador e agressivo, mas defendeu sempre a sua França, o seu povo e a sua civilização. Foi um eterno resistente.

Há um cartaz icónico dos anos 90 do século passado, feito pela Juventude do FN, onde sobre um Le Pen sorridente com as penas de chefe índio na cabeça se lê: «Saiamos da nossa reserva!» A imagem icónica era tão atractiva como intrigante. Afinal, seriam os franceses os novos peles-vermelhas?




No segundo volume das suas memórias, Jean-Marie Le Pen escreveu que nelas quis «dizer a nossa verdade» e afirmou-se como «o tribuno de uma tribo que desaparece, o último dos moicanos franceses». Para ele, a «reserva» dos franceses era «o silêncio» e descrevia a condição dos seus compatriotas hoje: «Nós temos ainda o direito de existir, de viver, ou antes de sobreviver, mas esta tolerância vitalícia é acompanhada por uma condição: nós devemos calar-nos, não aparecer no país visível que substituiu o país real. Somos apenas tolerados enquanto não existirmos oficialmente.» Nesse silêncio ensurdecedor, Le Pen foi o grito da resistência.

Especialistas na caricatura enganadora, os seus inimigos lembrarão todos os seus defeitos e mais alguns, mas pouco importam, porque estes não passam de um detalhe na sua vida de dedicação extraordinária à defesa da sua pátria e, especialmente, no seu papel mais importante. Demonstrando uma intuição notável, Le Pen anteviu a submersão migratória e as suas consequências catastróficas para a França e para a Europa, para de seguida denunciar o mundialismo que destrói as pátrias.

Como Cassandra, Jean-Marie Le Pen foi o profeta em quem ninguém acreditou, mas que alertou para a ameaça vital à Europa que hoje é o desafio fundamental que enfrentamos: a imigração em massa. Mas pelo seu exemplo e tenacidade, bem como pela sua firmeza e longevidade, mostrou que nada está perdido à partida e que perante o fatalismo derrotista é preciso recordar que onde há uma vontade, há um caminho.


Duarte Branquinho

Folha Nacional, 9/1/2025.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Quem teme a guerra mundial?

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 No entanto, há alguém que não pode sentir-se tranquilo.


Os Estados Unidos da América autorizaram, pela primeira vez, a Ucrânia a utilizar mísseis norte-americanos de longo alcance para defender as suas tropas na região russa de Kursk, ocupada por forças que, desde Agosto passado, lançaram o aparelho militar de Moscovo numa crise psicológica e táctica.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, respondeu que isso equivaleria a uma guerra com a NATO, enquanto o deputado da Duma, Vladimir Dzhabarov, disse que era “um passo muito importante para a Terceira Guerra Mundial”.

Na Europa, reina o mal-estar, alternando entre a preparação de cenários de guerra e apelos cobardes à paz.

Há dois anos que o Kremlin ameaça com o apocalipse nuclear, uma ameaça muito menos frequente nos tempos em que a Rússia era uma verdadeira potência, o que mostra que Moscovo se sente frágil e fraca.

Devemos então preocupar-nos? Obviamente, posso estar enganado, mas diria que não.

Uma escalada psicológica e programada

Esta escalada parece-me ser psicológica e fazer parte do jogo para resolver o conflito ucraniano que, recordemos sempre, foi provocado pela invasão russa numa altura de grande desanuviamento no Donbas e quando as duas principais nações europeias eram governadas por governos abertamente pró-russos.

Isto aconteceu logo após o acordo entre a Europa e Kiev para a utilização de minerais raros do Donbas na nossa indústria civil e militar, o que deixou os americanos inquietos.

A Rússia, independentemente das suas razões “subjectivas”, ao invadir a Ucrânia, escolheu, pela terceira vez consecutiva (depois da Líbia e do Sahel), atacar os nossos interesses e favorecer os dos Estados Unidos.

Desde então, surgiu um cenário de Ialta 2.0, embora de segunda categoria (limitado ao quadrante da contenção europeia): com mecanismos semelhantes aos de então, o objectivo é manter a Europa sob pressão e, provavelmente, dividir a Ucrânia.

O factor Trump

A eleição de Trump, que prometeu acabar com a guerra, exige agora um reposicionamento.

Mas como acabar com ela? Imediatamente após a sua eleição, Trump deixou claro que não poderia forçar Kiev a fazer concessões se Moscovo não fizesse o mesmo. No entanto, após mais de dois anos de um conflito sangrento que só beneficiou os EUA, como é que se pode aceitar ceder uma parte do território capturado, especialmente se se cometeu o erro de o “anexar” oficialmente?

Moscovo deve esperar um colapso militar ucraniano antes do Verão, uma vez que vários indicadores logísticos fazem com que receie o seu próprio colapso dentro de um ano.

Os EUA querem uma Ucrânia dividida e uma Rússia ameaçadora, porque a Rússia sempre foi o seu cão de guarda contra nós. No entanto, também precisam de salvar a face, evitando uma vitória militar russa decisiva, que seria o segundo pior cenário de Washington. O primeiro seria uma nova implosão de Moscovo, como aconteceu em 1991, que colocaria os americanos na berlinda e os obrigaria a conceber estratégias complexas em todo o mundo para preencher o vazio criado.

Para pressionar as partes a negociar, nada melhor do que a “véspera da guerra nuclear”, como aconteceu durante a crise dos mísseis de Cuba, há 62 anos. Daí as ameaças balísticas mútuas.

Se isto levar as partes à mesa das negociações, resta saber o que é que os russos vão conceder e, sobretudo, quem vai conceder em seu nome.

Putin não pode ceder nada porque isso condená-lo-ia.

Putin deve dormir inquieto

É por isso que, tendo em conta as lutas internas constantes no topo do poder russo desde o início da guerra, é provável que Moscovo comece a considerar a possibilidade de afastar o grande mediador das máfias internas que, durante 25 anos, controlou o poder apesar de governos e orientações muito diferentes.

Até os padrinhos, por vezes, correm riscos.

Se eu fosse ele, não me sentiria à vontade.

Para ser claro: não estou a desejar a morte de Putin, estou simplesmente a considerar o que poderia ser a grande solução formal para a consolidação “pacífica” de Ialta 2.0.

Uma solução que, a acontecer, será totalmente russa e seguirá os métodos habituais nestes locais.

De qualquer forma, com ou sem Putin, não muda absolutamente nada para nós: não é um desejo, mas uma conjectura racional.

Em todo o caso, continuaremos presos numa pinça entre o Leste e o Oeste.


Gabriele Adinolfi

NoReporter

sexta-feira, 28 de julho de 2023

O regresso de Céline

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Caído no campo de batalha, com a orelha ensanguentada colada à terra e um braço desfeito, o cabo Ferdinand desperta atordoado, debaixo de chuva, ao lado de um companheiro morto, sentindo ecoar dentro de si um barulho ensurdecedor. «Apanhei com a guerra na cabeça. Ficou-me trancada na cabeça.» Assim se inicia Guerra, romance que, num maço de duzentas e cinquenta páginas, estava entre os manuscritos de Céline desaparecidos durante a libertação de Paris, em 1944, e que agora, sessenta anos após a morte do seu autor, é finalmente trazido a público. Escrito por volta de 1934, este texto levanta o véu sobre a experiência central da existência de Céline: a sua participação na Primeira Guerra Mundial e o trauma físico e moral daí resultante. Com uma narrativa de grande fluidez, onde a crueza e a originalidade da linguagem sublinham o tormento e a desilusão do protagonista, Guerra inscreve-se entre as obras mais inquietantes de Louis-Ferdinand Céline. Inédito durante quase noventa anos, a sua publicação é um acontecimento literário mundial.


terça-feira, 23 de maio de 2023

O Arqueofuturismo de Guillaume Faye reeditado

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Há livros que não devem ser postos nas prateleiras. Estas são as obras chamadas "clássicas" pelos seus leitores, que têm o prazer de as incluir no seu panteão literário. A biblioteca ideal de um jovem europeu será composta por obras literárias, filosóficas e políticas. Com o seu Archéofuturisme. Techno-science et retour aux valeurs ancestrales (“Arqueofuturismo. Tecnociência e regresso aos valores ancestrais”, inédito em português), Guillaume Faye fez jus ao seu título de artesão da palavra e do pensamento. O Institut Iliade reedita esta obra com um acento muito actual. Uma reedição salutar, ou mesmo indispensável, uma vez que as linhas de Faye permanecem muito actuais.

Publicado pela primeira vez em 1998 e reeditado em 2011, L'Archéofuturisme foi um marco no pensamento de Direita. O homem que foi um dos principais teóricos da Nova Direita e do GRECE, e uma das principais figuras do movimento identitário, fez um balanço da luta travada pela Direita durante anos, num livro escrito no início do século XXI, para chegar à conclusão de que a rivalidade entre tradicionalistas e modernistas na Direita tinha de ser ultrapassada, se quiséssemos esperar ganhar a luta contra os nossos inimigos comuns. Para o efeito, propôs um conceito essencial: o de Arqueofuturismo.


Na esteira de Nietzsche e de Giorgio Locchi, Guillaume Faye considera que uma catástrofe é inevitável e que conduzirá ao fim do mundo tal como o conhecemos e ao nascimento de uma nova civilização. O igualitarismo, a modernidade e o seu angelismo cada vez mais cego são males a combater graças a um "espírito arcaico", ou seja, a um pensamento pré-moderno, deliberadamente desigual, que está longe de um humanismo universal defendido por uma civilização que atingiu o seu ponto de ruptura.


Desta "convergência de catástrofes" devemos sair vitoriosos, combinando valores arcaicos e ancestrais com a tecnologia e a ciência. Negar a importância de um destes dois aspectos seria insensato e garantiria uma derrota indiscutível. Persistir numa disputa entre o regresso à tradição e o desejo de ir cada vez mais longe na tecnologia seria igualmente vão.


O balanço feito por Guillaume Faye no seu ensaio é incontestável e nada escapa à pena afiada de um homem que perscruta os acontecimentos que o rodeiam à procura de sinais desta "convergência de catástrofes". Da análise dos erros cometidos pela Nova Direita às questões sociais, nada escapa ao olhar de Guillaume Faye, que sente a urgência de uma terceira via: a do Arqueofuturismo. E Faye não se contenta em desenvolver conceitos livres de qualquer realidade, aplica-os e põe-nos em prática num conto que encerra o seu ensaio e que fará lembrar aos mais atentos distopias bem conhecidas, como Guerilla de Laurent Obertone...


O leitor não pode deixar de ficar impressionado com a lucidez do autor, cujas palavras, datadas de 1999, assumem um carácter quase profético. Este olhar cru sobre a realidade do seu tempo adquire uma tonalidade infelizmente demasiado actual. Reler ou ler Guillaume Faye torna-se uma obrigação para aqueles que querem estar preparados quando chegar o momento de construir uma nova civilização sobre as cinzas de um modernismo enlouquecido que, como Cronos, devora a sua descendência. Para sairmos vitoriosos da catástrofe, Faye convida-nos a seguir Evola e a "cavalgar o tigre", a agarrar a chama prometeica, sem nunca romper com a tradição e os seus mitos.



L’Archéofuturisme. Techno-science et retour aux valeurs ancestrales, de Guillaume Faye, co-edição L’Æncre / La Nouvelle Librairie, 2023, 456 pp. Preço : 21 €. ISBN : 978 – 2‑36876 – 090‑1.

domingo, 21 de maio de 2023

Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito

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«Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.»

Esta máxima de Friedrich Nietzsche foi passada à acção por Dominique Venner, há exactamente dez anos, no dia 21 de Maio de 2013, sob as abóbadas da catedral de Notre-Dame em Paris.


Esta morte voluntária não foi uma renúncia, nem um gesto de desespero, mas um germe, «como uma provocação à esperança e ao motim», um gesto realizado «com uma intenção de protesto e fundação» porque Dominique Venner sentiu o dever de agir «perante os imensos perigos para a nossa pátria francesa e europeia».

Espantando tanto os seus piores inimigos quanto os seus amigos mais próximos, Dominique Venner soube morrer como um Antigo Europeu, seguindo o exemplo de Catão de Útica, Séneca e Régulo. Nestes tempos em que se exibem vidas desprovidas de sentido, o seu gesto encarna uma ética da vontade, constituindo um apelo aos europeus ainda lúcidos, para além das massas anestesiadas. De portador da espada, Dominique Venner tornou-se portador da luz. Com a sua morte, ele transmitiu-nos uma chama que nunca se deve extinguir.

Desde este 21 de Maio de 2013, o tiro que o matou ressoa como o rugido sombrio e pesado que anuncia as tormentas e tempestades de um século de ferro e pavor que se abre diante de nós. Dez anos depois do seu gesto, os «perigos tremendos» que Dominique Venner evoca na sua carta-testamento estão mais próximos do que nunca. Como a imagem insana da Notre-Dame de Paris em chamas seis anos depois do seu último gesto, abrem-se desafios gigantescos diante dos nossos olhos: a invasão migratória, as crises morais, sociais, ecológicas, económicas, o regresso da guerra à Europa… Todos estes perigos se conjugam numa convergência de catástrofes que nunca levou tão alto a ameaça de aniquilação completa do nosso mundo.

Diante disto, somos os últimos dos europeus, «levando às costas o peso da mais gloriosa das heranças», carregados de quarenta séculos de História, mas, mais ainda, com a riqueza de uma concepção do mundo e de um certo tipo de um homem como nenhum outro, tal como foi cantado nos nossos contos épicos, nos poemas homéricos, nas Eddas, na matéria da Bretanha, na lenda dos Nibelungos…

O dia 21 de Maio de 2013 não significa um fim, mas um começo, um rito de fundação. Ao cometer suicídio na Notre-Dame de Paris, um lugar imemorial e sagrado, Dominique Venner abriu um caminho. Um «juramento silencioso» liga-nos agora pelo sangue derramado naquele dia sob a frondosidade de pedra da catedral. Cabe-nos, sempre, continuar um combate ético e estético. Face às tempestades de aço que estão por vir, cabe-nos sermos de novo «portadores malditos da força criativa», vigilantes e despertadores, pessimistas e alegres, tradicionalistas e revolucionários, meditativos e activos, presentes na rua e considerando sagrado o segredo das florestas.

Do despertar dos europeus, Dominique Venner não duvidava. Recusando submeter-nos a um suposto sentido da História, acreditamos, como ele, que a História é, pelo contrário, o domínio do imprevisto, que é antes de mais levada pela vontade dos homens, e juramos dedicar toda a nossa energia para que o que parece inevitável não o seja. Sem dúvida que não veremos o resultado, como aconteceu por exemplo na Reconquista que se estendeu por sete séculos, mas a nossa ardente vigília poderá um dia acolher depois de uma longa noite «aqueles que pronto aparecerão na nova manhã». Assim, como o Rei Artur regressando de Avalon, ou o Imperador Barbarossa dormindo sob as montanhas Kyffhäuser, a Europa conjurará o feitiço maligno que começou em 1914 e despertará para voltar a encontrar a História, e então será para sempre, fazendo desta forma seu o último oráculo da Pítia de Delfos.

sábado, 6 de maio de 2023

A presente imposição ideológica

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«A presente imposição ideológica, que descarta a biologia e outras minudências através de um processo orwelliano aparentemente liberal, é exercida sobre uma população de crianças e adolescentes. É parte de uma máquina de transformar em regra situações minoritárias e marginais, com as quais há, com certeza, que ter toda a atenção e compreensão, mas também a consciência de que não se tratam ou resolvem por decreto nem devem generalizar-se. Entretanto, a máquina vai-se tornando um perigo público, prometendo transformar o que aparenta ser uma questão acessória numa questão essencial para o futuro da sociedade.»

Jaime Nogueira Pinto

in "Observador", 6 de Maio de 2023. 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Face ao declínio antropológico, viver como Europeu

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Artificialização da vida humana, fenómenos de autodomesticação, colapso fisilógico, fantasias transhumanistas, imigração maciça... Tantas ameaças que assomam os Europeus. Mas então, que fazer? É uma fatalidade? Anne Trewby, Georges Guiscard e Adriano Scianca dão-nos neste vídeo uma amostra do que será o Colóquio de 2023 do Institut Iliade.

Encontro marcado para sábado, 15 de Abril, para o Colóquio «Face ao declínio antropológico, viver como Europeu».

terça-feira, 21 de março de 2023

Teologia Política, de Carl Schmitt, publicado em Portugal

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Escreve Alexandre Franco de Sá na Introdução à sua tradução de Teologia Política, de Carl Schmitt, publicado finalmente em Portugal na Biblioteca Crítica Fundamental: “Dificilmente se poderá exagerar a importância do pequeno texto agora publicado em nova tradução portuguesa. Surgida há cem anos, Teologia Política: quatro capítulos sobre a doutrina da soberania (1922) resultava de um escrito de homenagem a Max Weber que Carl Schmitt, jurista de 37 anos então professor na Universidade de Bona, resolvera ampliar e publicar de forma autónoma, acrescentando um último capítulo aos três do texto originário. No ambiente cultural alemão, Schmitt começara a tornar-se notado poucos anos antes, ao publicar dois livros de grande repercussão: Romantismo Político (1919) e A Ditadura (1921). Ambos mostravam uma visão muito crítica do liberalismo e do positivismo jurídico dominantes na República de Weimar, permitindo o seu alinhamento com a reacção antimoderna que caracterizava a então chamada Revolução Conservadora. Embora este movimento fosse muito rico e diversificado, e embora Schmitt não possa ser catalogado como representante de um movimento intelectual lado a lado com personalidades como Moeller van den Bruck ou Ernst Niekisch, apenas para citar dois nomes com perspectivas políticas muito diferentes ou mesmo opostas às de Schmitt, tal alinhamento valeu-lhe, desde muito cedo, a hostilidade de alguns intelectuais que, com orientação política divergente, vislumbravam o seu pensamento como particularmente perigoso.”

 
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