domingo, 28 de julho de 2013

Entrevista a Pedro Varela

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Pedro Varela é conhecido pelo seu trajecto enquanto editor, escritor e historiador revisionista. É proprietário da Livraria Europa, famosa por difundir material relacionado com a Segunda Guerra Mundial. Os livros que se podem encontrar na sua livaria não são os que estão expostos na Fnac ou no El Corte Inglés. Tem ainda uma editora, Ediciones Ojeda, que dá voz àqueles que muitos não querem ou não podem escutar. O que lhe deu vários problemas.

Como definiria a Livraria Europa?
É um centro de difusão de cultura alternativo ao sistema, com livros, edição de livros e conferências. O sistema oferece a possibilidade de chegar a outro tipo de livros no resto das livrarias, mas há livros a que não é possível chegar. Porque simplesmente não estão expostos. Nós corremos o risco de expô-los e oferecê-los ao público. Não obrigamos ninguém a entrar na livraria, e quem entra fá-lo voluntariamente. Lê ou não lê, mas pelo menos pode comparar.

Porquê difundir este material?
Porque de outra forma não há maneira de chegar a ele. Podes ler "O Capital" de Marx e nem por isso defender o gulag soviético. Queres informar-te. No entanto, não podes ler "A Minha Luta" de Hitler porque não há forma de encontrá-lo. As pessoas deviam ter a possibilidade de informar-se. Podes ler a versão dos vencedores da Segunda Guerra Mundial. Logicamente, quem escreve a história são os vencedores, os vencidos não têm nada que dizer, primeiro porque foram todos mortos e depois porque não os deixaram escrever. Acho que é necessário publicar ambas as versões.

Na vossa página de internet está escrito que foram proibidos de vender o "Mein Kampf".
Bom, dizem que o editámos sem pagar os direitos, mas o que o pobre Hitler queria era que o livro se difundisse, não era cobrar taxas. É um truque legal para nos perseguirem. O fiscal de ódio, como é chamado aqui na Catalunha, diz que temos de pagar os direitos, não se sabe exactamente a quem. Mas o livro é de livre difusão e posse universal. Só nos perseguem a nós, é uma questão política.

Diria que censurar favorece a difusão?
Eu acredito que sim. Não existe na história nenhum texto que tenha sido proibido e que tenham feito desaparecer. Na época de Franco não queriam que as pessoas lessem "O Capital" de Marx, e todas as livrarias o vendiam em mão. É um livro aborrecido, podes morrer se o leres, mas podes lê-lo se quiseres. Mesmo o Marquês de Sade foi acusado de sadismo. Mas tu podes ler o Marquês de Sade e não ser um sádico. O que eles querem é fazer passar a ideia de que se leres estes livros és um monstro anti-semita. Isso é uma manipulação da informação.

E fizeram-no destruir 20.900 livros...
Condenaram-nos como material proibido, o que em democracia é algo inédito. Tanto criticam Franco, a Inquisição, a Idade Média, e fazem o mesmo, mas com hipocrisia. Porque, obviamente, com Hitler ou Franco, já sabias como era. Mas aqui dizem que há liberdade de expressão. E na realidade não há. Não destruíram 20.900 livros, apenas uma parte, aqueles títulos que o juiz condenou. Um dos livros proibidos é "Raça, inteligência e educação", de Eysenck, porque o polícia entrou, viu a palavra raça e assustou-se. Eysenck é judeu, a sua família fugiu da Alemanha porque não concordava com Hitler. No mundo anglo-saxão é uma eminência. Em Barcelona não podes estudar psicologia sem nunca ter lido este livro, mas os ignorantes apreenderam-no. (...)

Afinal, foi indemnizado pelo Estado espanhol ou não?
Ainda não é claro. Pedimos 100 000€ porque em 17 anos houve três apreensões de livros, uma de 20.900 títulos, outra de 6.000 e outra de 4.000. Ao preço de 20 euros por livro, imagina o prejuízo. Cada vez que a polícia vem, levam todos os computadores. Os sete Macintosh de alta qualidade que tínhamos para editar livros nunca foram devolvidos. Mudámos depois para PC, que também nunca foram devolvidos. Da terceira vez devolveram-nos as carcaças vazias. Uma coisa incrível. Boicotam as nossas iniciativas sempre que trazemos alguma personalidade. Põem-se à porta e não deixam entrar ninguém. E se acabam por deixar entrar o público, colocam uma câmara e gravam tudo. As pessoas têm medo. Os prejuízos são enormes. Estrasburgo condenou-os a uma multa de 13.000€, que são para pagar ao advogado. Por 17 anos não é suficiente. Mas o Estado ainda pode recorrer.
Vou ler isto para ver a sua opinião. Escreveu-o um colunista do El País: "Por outro lado, o livreiro nazi é proprietário da Ediciones Ojeda, uma editora que publica todos os psicopatas desmiolados do mundo. A Livraria Europa é um lugar contraditoriamente estranho a uma livraria. As suas traseiras são um viveiro de cachorros fascistas, os seus escaparates desconsolo universal, e os textos que adornam as prateleiras torpeza intelectual". Isto quer dizer que nem sequer visitou o local. Na livraria podes encontrar todos os clássicos espanhóis, textos religiosos, textos dos Aliados... e quanto às traseiras veja por si. Não és um cachorro fascista. O que se passa é que os incomoda que o público possa ter uma formação diferente da que eles dão. Eles querem que todo o mundo pense à maneira deles, e temem que se alguém diga uma coisa diferente, as pessoas concordem. Temos aqui conferências com as quais às vezes não estou de acordo. Eu sou católico e por vezes temos pagãos ou muçulmanos... mas isto é uma livraria, não um centro de doutrina. Qualquer um pode falar. O que é certo é que permitimos que falem pessoas que em outros sítios não poderiam falar. (...)

Que acha que falta para que houvesse liberdade de expressão?
Eu acho que o problema é que muitos dos que se dizem democratas não são. Porque eu não sou, mas estou interessado em escutar todo o mundo, saber o que pensam e envolver-me em conversas e troca de informação. No momento em que censuram livros, conferências, em que não te permitem dizer certas coisas, há uma censura de facto. Mas o pior de tudo na nossa época é a auto-censura mental. (...) Há um esquema ideológico e não podes sair dele. Por isso quando me condenaram e me meteram na prisão por vender livros, os intelectuais, professores, jornalistas e outros, não disseram nada. Isto é uma democracia. É uma coisa incrível. Não podemos condenar livros. Concordamos que os livros não são criminalizáveis, certo? A não ser que dês com ele na cabeça de alguém, um livro não provoca dor. Poderá estar bem escrito ou mal escrito, mas um livro em si não provoca dor.

Há quem diga que os seus livros são um passo para o crime racial.
Desde que a Livraria Europa existe, não consta que as estatísticas de crimes raciais tenham aumentado. Não conheço ninguém que por ler um livro dos que temos aqui tenha matado alguém. E em qualquer caso não é culpa nossa. É como dizer que se alguém lê o Marquês de Sade, sai por aí a fazer coisas estúpidas com mulheres. É um absurdo absoluto.

Há uns anos li o "Diário de um Skin", e fazem sempre referência a esta livraria como lugar de origem de uma série de conflitos relacionados com skinheads e gente bastante perigosa. Podia dizer-me se há verdade nesta história?
Acho que isso não é verdade porque esse senhor que escreve, que parece ser um jornalista, não o conheço. E em teoria terá que ter estado aqui dentro, na livraria, nas conferências... e nunca se apresentou. O normal seria dizer: sou um jornalista, vamos falar... como tu fazes. Nunca o fez. Ele tinha de vender o livro, e para vendê-lo precisava de uma história apaixonante e tal. Quanto muito veio comprar um livro, e isso foi o máximo que fez. Mas montou um espectáculo. Realmente foi um êxito comercial, e felicito a editora por essa encenação. A verdade é que aqui não vês um skin. Se os skins lessem livros não seriam skins. São tribos urbanas das grandes cidades do capitalismo. Os skins surgiram nas grandes capitais do capitalismo, nas tribos urbanas dos bairros como protesto ao sistema. Mas são a sua juventude. É a juventude democrática. São os seus. Mas como não gostam deles, culpam-nos mais uma vez. Oxalá aqui viessem skins. Se lerem os livros, já é bom sinal. Estou certo que todos os que leiam um livro, vão avançar culturalmente. Aqui sempre recomendámos que venham às conferências, que ouçam música clássica, que vão à montanha... Queremos a saúde das pessoas. É uma livraria que cultiva a cultura.

(Traduzido e adaptado de uma entrevista de Pedro Varela ao jornal galego Compostimes).

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