terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Caminho da Floresta

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"Os homens sem importância, tal como os homens excepcionais, também sofrem grandes derrotas. E depois de uma derrota, o exílio parece uma espécie de solução. Pode ser o exílio que resulta da expulsão, do ostracismo, ou o exílio enquanto fuga, isolamento. É o caminho da ilha e o caminho da floresta. Já escrevi sobre a ilha. Falemos agora da floresta.
Em 1951, o escritor alemão Ernst Jünger publicou um dos seus textos mais importantes: “Der Waldgang”, que na tradução portuguesa [de Maria Filomena Molder, Cotovia] se chama “O Passo da Floresta”, e que noutras línguas tem títulos como “o recurso às florestas” ou “a retirada para a floresta”. É um ensaio poderoso, escrito num estilo hermético e vago, não uma divagação, diz Jünger, mas um “um excurso grave”. O tema é a catástrofe e a resposta à catástrofe. A proposta é a figura do “desterrado” como uma figura da resistência.
O texto tem um contexto histórico (o pós-guerra) e um contexto político (a derrota alemã) precisos, e faz bastantes considerações ideológicas que não acompanho. Mas o tom deliberadamente abstracto permite que tomemos “O Passo da Floresta” como um manual de resistência, ainda que não com a intencionalidade específica com que foi escrito. Não é por acaso que a tradução francesa tem como título alternativo “Tratado do Rebelde”. O texto vale para outras circunstâncias que não a alemã de 1951 porque a rebeldia não depende de um momento nem de uma situação.
O desterrado é uma figura por excelência do mundo contemporâneo, o homem que sobreviveu à catástrofe e se refugiou na floresta. Não procura um idílio contemplativo, meramente espiritual, mas um caminho, ou seja, uma escolha vital. “O lugar da liberdade”, escreve Jünger, “é completamente diferente da mera oposição, diferente também daquele que a fuga lhe pode oferecer. Chamamos-lhe a floresta. Nesse lugar há recursos diferentes.”
A floresta tem conotações mitológicas em todas as religiões, e remete também para exemplos concretos de guarida de rebeldes, mas aqui não é questão de uma floresta propriamente dita: a floresta está em todo o lado, inclusive no meio de uma grande cidade. Não é um local mas um espaço mental. Um espaço que se opõe à ideia de ‘barco’ ou de ‘navegação’. Os vencedores querem levar os vencidos para alto mar, em direcção ao esquecimento ou ao naufrágio. Mas cabe ao indivíduo recusar essa servidão. E recusar também o quietismo niilista que é a única alternativa que lhe oferecem.
O desterrado escapa ao desterro no sentido jurídico, não é um proscrito mas um homem que voluntariamente toma o destino nas suas mãos. Um homem derrotado, acossado, humilhado, mas que recusa o medo e o fatalismo e se compromete com a sua liberdade, visto que “uma história autêntica só pode ser feita por homens livres”. O desterrado foge à prisão, mas também foge ao seu tempo. Decide não ser desconfiado, intriguista, filisteu, interesseiro, manobrável, faz uma escolha existencial da qual não há regresso.
O caminho da floresta é um percurso solitário: “Entre as marcas características da interrogação, a solidão é uma delas. Ela é particularmente notável em épocas nas quais o culto da sociedade floresce. Mas que precisamente o colectivo apareça como o não-humano, essa é uma das experiências a que poucos são poupados”. O desterrado, diz Jünger, prefere a identidade à comunidade, porque a comunidade está pervertida.
É um caminho difícil, a floresta, um abrigo mas também um perigo. Daí que “O Passo da Floresta” valorize tanto os escritos pessoais e autobiográficos, os textos de profundis. Eles são a forma de comunicação por excelência do desterrado, porque o desterrado vive na floresta e a floresta, que está em todo o lado, vive sobretudo na linguagem.
O caminho da ilha, ou da “navegação”, como lhe chama Jünger, é a imposição de um castigo e, mais ainda, de uma temporalidade degradada, do ar rarefeito que se segue à catástrofe, da atmosfera venenosa do niilismo. O caminho da floresta é o oposto disso, é uma acção livre e independente, em que o indivíduo abandona a submissão, a indiferença, a neutralidade, o abaixamento pessoal, e desaparece, decide-se pelo underground, vai pelo trilho da floresta, que é secreto e aventuroso.
Se até de um Imperador fizeram um desgraçado, como aconteceu com Napoleão em Santa Helena, o que farão os vencedores de nós, que somos gente comum e pequena? Precisei de conhecer a catástrofe, e o seu gémeo em tempos de paz, que é o niilismo, para compreender este texto de Jünger. Não é apenas um exercício espiritual, é um manual de rebeldia. Uma rebeldia que pode ser tão invisível como a catástrofe foi invisível, nem todos os fracassos são espectáculo para o mundo, e nem todas as recusas são um número de circo. O desterrado é uma figura que entendo, que aceito, que me convém, a figura da retirada soberana, de um refúgio que cada um tem em si mesmo, não desligado dos outros mas hostil ao ‘colectivo’, à comunidade dos vencidos que se crêem vencedores, à gente que está em festa para esconder que não acredita em nada.
Queriam-nos, queriam-me, derrotados e expostos ao gozo da multidão. Mas não nos apanham. Já demos, já dei, o passo adentro da floresta."

Pedro Mexia
in Expresso, 30 de Julho de 2011.

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