sábado, 2 de novembro de 2013

Entrevista com Constantino, militante do Aurora Dourada, depois do assassínio de dois militantes do partido

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Há cerca de um mês, na sequência da detenção do secretário-geral do Aurora Dourada e de alguns deputados, entrevistámos Constantino, militante histórico do partido grego e um dos responsáveis da transmissão da Radio Bandiera Nera em língua grega. Voltamos ao contacto numa ocasião ainda mais triste, o homicídio de dois militantes gregos, Manolis e Giorgos, que teve lugar no final da tarde da última sexta-feira, junto à sede do Aurora Dourada em Atenas.

Depois das detenções, na última entrevista, desta vez as notícias são ainda piores. Em primeiro lugar, peço-te que faças uma reconstituição de tudo o que aconteceu.
A sede estava aberta, eram 19 horas. O edifício está situado na periferia norte de Atenas, numa zona "bem", muito frequentada. O Primeiro-Ministro retirou a protecção policial aos deputados e a todas as representações do partido. Por isso, estes dois rapazes, assim como um terceiro que foi ferido, todos jovens, estavam encarregados da segurança junto à sede. Como disse, a zona é muito populosa. Nisto, passou uma mota de alta cilindrada com duas pessoas. Dispararam, dois rapazes caíram e o outro conseguiu esconder-se, embora tenha sido atingido no peito. Os dois da mota desmontaram e atiraram à queima-roupa sobre os rapazes caídos, num golpe de misericórdia. Isto foi o que disseram todas as testemunhas.

Ou seja, estavam apenas três rapazes fora da sede do Aurora Dourada a fazer o serviço de ordem, e os outros militantes estavam todos no interior?
Sim, só aqueles três é que estavam cá fora, porque estavam a fazer o serviço de ordem. Todos os outros estavam dentro do edifício. De qualquer forma, este homicídio recorda-me bastante de Acca Larentia [n.d.r. ataque a tiro à sede do Movimento Sociale Italiano no bairro de Acca Larenzia, ocorrido a 7 de Janeiro de 1978 em plenos Anos de Chumbo, no qual morreram três jovens activistas do Fronte della Gioventù: Franco Bigonzetti, Francesco Ciavatta e Stefano Recchioni]. Não sei o que vai acontecer amanhã, mas tenho a certeza que isto é uma armadilha do sistema.

Na entrevista que fizemos no mês passado, falaste de forma profética dos anos 70 italianos. A situação grega actual é ou pode tornar-se semelhante à daquele período?
Sim. Eu próprio estou neste momento a traduzir um livro italiano sobre os Anos de Chumbo, com declarações e comentários de camaradas italianos que viveram esse período na primeira pessoa, para que os mais jovens, que não fazem ideia da situação italiana daquela época, possam assim conhecê-la. E perceber que a situação exige muita prudência. O próprio porta-voz da Aurora Dourada afirmou ontem, na televisão grega, que é preciso ter muita calma. Eu tenho receio pelos mais jovens: devem entender que isto é uma armadilha do sistema. Não acredito que isto tenha sido organizado pela extrema-esquerda. Acho que foram os serviços.
Mesmo depois da detenção do nosso secretário-geral, as sondagens continuavam a dar-nos mais de 10%. Eles têm de encontrar uma forma de destruir o nosso movimento. Querem encontrar uma maneira de desacreditar a esquerda e a direita anti-mundialistas e fazer do Primeiro-Ministro o "salvador da pátria".

Ou seja, na tua opinião a autoria desta ataque não pode ser atribuída directamente à extrema-esquerda. É preciso olhar para outro lado?
Sim, não acredito que matariam dois simples militantes de base do movimento. O secretário-geral do partido e outros dirigentes com visibilidade já não têm protecção policial, não teria sido muito difícil tentarem matá-los. Não os acho tão estúpidos ao ponto de criar um problema destes para matar três militantes de base.

Como está o rapaz ferido?
Está mal. Os médicos mantêm-no vivo, à espera de melhoras, mas encontra-se em estado grave.

Qual foi a atitude da imprensa grega perante estas notícias?
Falaram mais do tiroteio no aeroporto de Los Angeles do que do assassínio dos nossos rapazes em Atenas. Para o rapaz anti-fascista morto no mês passado fez-se um minuto de silêncio e já lhe foi dedicado o nome de uma rua. Para os nossos nada. Falarão qualquer coisa hoje, e depois nada. Foram mortos dois fascistas e vocês sabem melhor que eu o que significa "matar um fascista". Infelizmente, o mesmo se aplica aqui.
Repito, tenho receio da reacção dos mais jovens, especialmente nos subúrbios de Atenas, onde os rapazes poderão ver apenas "o inimigo", o antifa, e não a verdade.
A situação está muito tensa.

Qual foi a reacção dos políticos e do governo grego?
A maior parte dos políticos tentou instrumentalizar a situação, dizendo ou dando a entender: "Viram? Devem votar nos moderados para salvar a pátria". Para eles a vida humana não conta. Só interessam os votos.

A tal estratégia da "oposição extremista".
Sim, a estratégia da tensão. Há um jornalista, de esquerda mas intelectualmente honesto — se é que ainda há alguém assim à esquerda — que fala há meses da estratégia da tensão. Ele viveu em Itália e conhece o fenómeno. Nós vivemos quase 40 anos depois daquilo que a Itália passou na década de 70.

E a estratégia, na tua opinião, pode funcionar junto da opinião pública?
É uma bela pergunta. Na semana passada organizámos uma manifestação junto à nossa sede nacional.
É verdade, as pessoas têm medo, a economia acabou, quem manda agora está no estrangeiro, os nossos políticos são fantoches que dançam a música tocada pelos bancos mundiais. As pessoas pensam unicamente na forma como vão pagar os impostos de amanhã e levar as crianças à escola. Tentam criar pânico para fazer as pessoas voltar a votar nos velhos partidos e não em quem combate a mundialização. Mas não sei se a estratégia deles vai funcionar. As pessoas estão cansadas. Os 5% de gregos (agora talvez 10% ou 15%, de acordo com as sondagens) que votam no Aurora Dourada fazem-no, não porque são fascistas ou nacionalistas, mas porque acreditam na nossa batalha.
Quem orquestrou tudo isto sabe-o. Não serão certamente os serviços secretos helénicos, mas gente de fora.
Antes das despedidas, quero agradecer-te a ti, à vossa rádio, a todos os camaradas italianos e a todo o mundo pelo apoio, que para nós é emocionante. Chegaram contactos da América do Sul, Espanha, Rússia, Polónia, Inglaterra. E também ao Dimitris, que é o verdadeiro coração da RBN Hellas, e que há dois anos gere a redacção grega da Radio Bandiera Nera.

Traduzido e adaptado de uma entrevista à Radio Bandiera Nera.

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