quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Morte no paraíso

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"Olho os mapas e as imagens do parque nacional de Bwabwata, no Norte da Namíbia, naquilo a que chamávamos faixa do Caprivi. Sobrevoei-o algumas vezes a caminho do Sul de Angola, no tempo das guerras quentes da Guerra Fria.
As rotas passavam por ali e, numa tarde limpa de nuvens, espreitando da vigia do Beachcraft 200 no regresso para o sul, lembro-me de distinguir lá em baixo os verdes e ocres da floresta, o azul-cobalto dos charcos, o serpentear escuro dos rios, a trilha de uma picada. E imaginar, numa lagoa que o sol reflectia, bandos de búfalos, pacaças, zebras, vigiados por predadores famintos mas pacientes.
Foi neste cenário que se despenhou na tarde de sexta-feira, 29 de Novembro, o Embraer 190 da LAM, com trinta e três tripulantes e passageiros a bordo.
Deles, seis eram nossos compatriotas, alguns mesmo amigos. Eram desses portugueses que iam e vão sempre na linha da frente — dos que andaram nas carreiras da Índia e agora andam nos caminhos da economia globalizada.
Hoje são dezenas de milhares, em África, nos Estados nascidos do antigo Império. Partiram e partem de cá, levam a pátria no coração e na sola dos sapatos. Às vezes também na cabeça. São outro país e, atrevo-me a dizer, um país melhor, comparado com o dos que por cá só resmungam, só se queixam, só amaldiçoam, só sabotam, indignados indignantes arvorados em bombeiros dos fogos que acenderam, sem sentido do bem comum ou do interesse público.
É outro país, o de muitos dos que por cá ficam. Camões não deixou também de falar deles, pondo na boca do Velho do Restelo as palavras dos críticos dos ouros e fumos das Índias; um dilema que hoje se reabre em volta das migrações, porque quem parte porque tem de partir também empobrece a terra que deixa. Mas o facto é que as nossas qualidades de adaptação, o nosso cosmopolitismo, são grandes vantagens competitivas nesta conjuntura adversa e quem parte também nos enriquece e engrandece.
A morte dos nossos outros compatriotas é símbolo dos trabalhos e riscos dos portugueses das novas diásporas, que continuam os perigos e as glórias, os naufrágios e as vitórias da aventura portuguesa. Sempre foi o nosso signo e sina sermos mediadores entre o centro e as periferias perigosas, pelo mar, na viagem, na descoberta, na conquista, no comércio.
Foi assim, é assim. Com amor e risco. Os que morreram na semana passada, no Parque do Bwabwata, pagaram esse preço alto do risco. Que descansem em paz."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 6 de Dezembro de 2013.

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