terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A morte de Mandela: Portugal à solta

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"A morte de Mandela mostrou a indigência do jornalismo português. Com um arzinho de circunstância, a televisão e os jornais repetiram os lugares-comuns que se esperavam; e meia dúzia de personalidades contaram histórias sem significado ou relevância sobre encontros que teriam tido com Mandela.
No meio desta desgraça, muito pouca gente se salvou (José Cutileiro e Daniel de Oliveira) e a generalidade do público ficou sem saber quem fora o homem e o que fizera. Para começar, ficou sem saber que nascera na família real da nação xhosa (sobrinho do soba), que estudara numa escola metodista inglesa e na Universidade de Witwatersrand, que se formara em direito e que abrira um escritório de advogado em Joanesburgo. Parecendo que não, estas trivialidades são e continuaram sempre a ser parte do político e explicam em parte a sua carreira.
Também não se disse nada sobre a evolução de Mandela de uma estratégia pacífica e moderada contra o apartheid para uma estratégia de resistência armada (que incluía sabotagem, terrorismo e guerra) e, depois para a fase final de reconciliação e da paz, que o tornou definitivamente nessa espécie de santo laico hoje celebrada. Talvez por isso, a cronologia desapareceu da longa vida de Mandela. Como observou João Marcelino, o voto de Portugal na resolução da ONU sobre o apartheid de 1987, não se explicou (Portugal votou contra porque nessa altura havia um exército de Cuba em Angola e um regime “comunista” em Moçambique); e a coisa serviu principalmente para malhar em Cavaco, exercício em que Ana Gomes como sempre de distinguiu.
Pior do que isso: não me lembro de uma única frase, excepto do próprio Gorbatchov, sobre a queda do “muro de Berlim”, sobre o colapso do império soviético na Europa oriental ou sobre a “perestroika” e a fraqueza do poder na própria Rússia, quando De Klerk libertou Mandela, em 1990, e resolveu negociar com o ANC, perante a impassibilidade da direita do Ocidente. A África do Sul não corria agora o risco de cair nas mãos dum ANC dominado pelos “companheiros de caminho” do comunismo, em que Mandela não se conseguiria impor e menos conduzir pelos doces caminhos do “perdão”. De qualquer maneira, convém lembrar que em 2013 a África do Sul continua dividida entre brancos ricos e pretos pobres, que sofre de uma criminalidade nos limites do intolerável e de uma epidemia de sida, que nenhum governo foi capaz de travar ou de atenuar. Com ou sem Mandela, não é um sítio recomendável."

Vasco Pulido Valente
in "Público", 8 de Dezembro de 2013.

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