quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Depois do Império: percepções paralelas
"Churchill and Empire: Portrait of an Imperialist (ed. Weidenfeld & Nicolson, Londres) é o mais recente livro de Lawrence James, um historiador reputado do Império Britânico.
Nele se recordam as origens, apogeu e queda do estadista da resistência e da vitória da II Guerra e se revelam algumas das suas percepções e sentimentos (talvez surpreendentes para os admiradores) em relação aos povos e às raças não brancas. Chineses, árabes, indianos, africanos, recebem epítetos sarcásticos e às vezes insultuosos. A cosmovisão de Churchill é clara e assumidamente baseada na convicção da superioridade da raça branca, sobretudo dos anglo-saxónicos, germânicos e nórdicos.
É certo que não devemos julgar os homens e as instituições do passado pelos valores dominantes hoje, sob pena de acabarmos numa homília moralizadora, panfletária e tola — ao modo de alguns esquerdistas frenéticos e aplicados. Churchill tinha a visão racista e supremacista da época tardo-vitoriana: o homem branco levava o fardo do mundo, tinha o dever de conduzir os outros povos para o progresso e para a civilização, e pelo caminho de ir enquadrando, explorando e corrigindo os demais — pelos mais variados meios, que podiam incluir o chicote e o trabalho forçado…
Estou a escrever estas linhas e a pensar na visita que fiz, no domingo passado, 28 de Julho, guiado por um amigo angolano, herói do seu país, ao Museu Nacional de História Militar de Angola, na Fortaleza de S. Miguel de Luanda. O que ali está pode ser um bom exemplo e modelo para as relações entre povos que no passado tiveram uma relação de domínio. Ali, as estátuas dos navegadores e soldados portugueses — Diogo Cão, Salvador Correia de Sá e o colonial Henrique de Carvalho — repousam, juntas, à sombra discreta das árvores e, ao fundo, podem também ver-se as de D. Afonso Henriques, Camões e Vasco da Gama.
Depois há a galeria dos azulejos, belíssimos e muito bem restaurados, com os temas e os motivos da História político-militar e da fauna e natureza de Angola. Estes são únicos em inspiração, simbolismo e estética — os animais e plantas de Angola, os quadros da História Política, as paisagens da selva, dos rios e das cidades.
Nas salas da história contemporânea é dominante o papel dos líderes do movimento independentista, vencedor da guerra civil; mas não há ressentimento nem humilhação nem para os colonizadores nem para os movimentos rivais.
Sob o sol de um domingo de cacimbo, eu e os meus companheiros de viagem não nos sentimos excluídos nem agredidos pela história ali contada. Talvez por que, apesar de tudo o que é o peso das heranças imperiais – em que a glória de uns é a derrota e a humilhação de outros – fomos diferentes e procurámos perceber, unir, integrar. Parece que eles, os angolanos, estão a fazer o mesmo. O que é bom e está certo."
Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 2 de Agosto de 2013.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Corpos colossais e cabeças pequeninas
"Lembram-se daqueles filmes, telefilmes e séries de televisão em que um pai e um filho vão acampar/caçar/pescar para um sítio remoto, o pai sofre um acidente que o deixa imobilizado e o filho tem de vencer os seus medos e transpor vários obstáculos naturais para ir pedir ajuda? Pois é exactamente essa a história de Depois da Terra, reciclada para um futuro distante de mil e tal anos, e disfarçada e enfeitada a efeitos especiais digitais. O cinema de ficção científica (FC) — leia-se: produzido em Hollywood — insiste em frustrar e desesperar os apreciadores da literatura do género, e agora cada vez mais, desde que os computadores parecem ter tomado o controlo das operações. Filmes como o recente Esquecido, de Joseph Kosinski, com Tom Cruise, ou Batalha do Pacífico, de Guillermo del Toro (estreia-se para a semana), parecem mais produtos de um software do que de argumentistas de carne e osso. A originalidade das histórias, a elaboração das personagens e a credibilidade científica diminuem na razão inversa do aumento da importância, da complexidade e da omnipresença dos efeitos especiais. Os filmes de FC são, cada vez mais, bisarmas microcéfalas, com corpos colossais e de aspecto sofisticadíssimo, mas cabeças pequeninas e cérebros atrofiados, apostados em proporcionar aos espectadores apenas uma experiência visual e sonora que nalguns casos se resume a agressão óptica e auditiva em jacto contínuo. Não é o caso de Depois da Terra, que faz figura de bastante contido nesses departamentos, embora o filme de M. Night Shyamalan seja, de novo, um desperdício de paisagens cósmicas, cenários pós-apocalípticos (no caso, uma Terra vazia de humanos e devolvida à fauna e à flora) e tecnologia avançada (já agora: como é que uma civilização capaz de terraformar um planeta e construir naves que saltam pelo cosmos, entre outros avanços, equipa uma tropa de elite com lanças de lâminas duplas, em vez de armas mais consentâneas com o seu desenvolvimento técnico?). Em suma, o melhor filme de FC dos últimos tempos continua a ser o modesto Moon — O Outro Lado da Lua, de Duncan Jones (2009). Feito em Inglaterra por tuta e meia."
Eurico de Barros
in "Diário de Notícias", 11 de Julho de 2013.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
terça-feira, 6 de agosto de 2013
O Caminho da Floresta
"Os homens sem importância, tal como os homens excepcionais, também sofrem grandes derrotas. E depois de uma derrota, o exílio parece uma espécie de solução. Pode ser o exílio que resulta da expulsão, do ostracismo, ou o exílio enquanto fuga, isolamento. É o caminho da ilha e o caminho da floresta. Já escrevi sobre a ilha. Falemos agora da floresta.
Em 1951, o escritor alemão Ernst Jünger publicou um dos seus textos mais importantes: “Der Waldgang”, que na tradução portuguesa [de Maria Filomena Molder, Cotovia] se chama “O Passo da Floresta”, e que noutras línguas tem títulos como “o recurso às florestas” ou “a retirada para a floresta”. É um ensaio poderoso, escrito num estilo hermético e vago, não uma divagação, diz Jünger, mas um “um excurso grave”. O tema é a catástrofe e a resposta à catástrofe. A proposta é a figura do “desterrado” como uma figura da resistência.
O texto tem um contexto histórico (o pós-guerra) e um contexto político (a derrota alemã) precisos, e faz bastantes considerações ideológicas que não acompanho. Mas o tom deliberadamente abstracto permite que tomemos “O Passo da Floresta” como um manual de resistência, ainda que não com a intencionalidade específica com que foi escrito. Não é por acaso que a tradução francesa tem como título alternativo “Tratado do Rebelde”. O texto vale para outras circunstâncias que não a alemã de 1951 porque a rebeldia não depende de um momento nem de uma situação.
O desterrado é uma figura por excelência do mundo contemporâneo, o homem que sobreviveu à catástrofe e se refugiou na floresta. Não procura um idílio contemplativo, meramente espiritual, mas um caminho, ou seja, uma escolha vital. “O lugar da liberdade”, escreve Jünger, “é completamente diferente da mera oposição, diferente também daquele que a fuga lhe pode oferecer. Chamamos-lhe a floresta. Nesse lugar há recursos diferentes.”
A floresta tem conotações mitológicas em todas as religiões, e remete também para exemplos concretos de guarida de rebeldes, mas aqui não é questão de uma floresta propriamente dita: a floresta está em todo o lado, inclusive no meio de uma grande cidade. Não é um local mas um espaço mental. Um espaço que se opõe à ideia de ‘barco’ ou de ‘navegação’. Os vencedores querem levar os vencidos para alto mar, em direcção ao esquecimento ou ao naufrágio. Mas cabe ao indivíduo recusar essa servidão. E recusar também o quietismo niilista que é a única alternativa que lhe oferecem.
O desterrado escapa ao desterro no sentido jurídico, não é um proscrito mas um homem que voluntariamente toma o destino nas suas mãos. Um homem derrotado, acossado, humilhado, mas que recusa o medo e o fatalismo e se compromete com a sua liberdade, visto que “uma história autêntica só pode ser feita por homens livres”. O desterrado foge à prisão, mas também foge ao seu tempo. Decide não ser desconfiado, intriguista, filisteu, interesseiro, manobrável, faz uma escolha existencial da qual não há regresso.
O caminho da floresta é um percurso solitário: “Entre as marcas características da interrogação, a solidão é uma delas. Ela é particularmente notável em épocas nas quais o culto da sociedade floresce. Mas que precisamente o colectivo apareça como o não-humano, essa é uma das experiências a que poucos são poupados”. O desterrado, diz Jünger, prefere a identidade à comunidade, porque a comunidade está pervertida.
É um caminho difícil, a floresta, um abrigo mas também um perigo. Daí que “O Passo da Floresta” valorize tanto os escritos pessoais e autobiográficos, os textos de profundis. Eles são a forma de comunicação por excelência do desterrado, porque o desterrado vive na floresta e a floresta, que está em todo o lado, vive sobretudo na linguagem.
O caminho da ilha, ou da “navegação”, como lhe chama Jünger, é a imposição de um castigo e, mais ainda, de uma temporalidade degradada, do ar rarefeito que se segue à catástrofe, da atmosfera venenosa do niilismo. O caminho da floresta é o oposto disso, é uma acção livre e independente, em que o indivíduo abandona a submissão, a indiferença, a neutralidade, o abaixamento pessoal, e desaparece, decide-se pelo underground, vai pelo trilho da floresta, que é secreto e aventuroso.
Se até de um Imperador fizeram um desgraçado, como aconteceu com Napoleão em Santa Helena, o que farão os vencedores de nós, que somos gente comum e pequena? Precisei de conhecer a catástrofe, e o seu gémeo em tempos de paz, que é o niilismo, para compreender este texto de Jünger. Não é apenas um exercício espiritual, é um manual de rebeldia. Uma rebeldia que pode ser tão invisível como a catástrofe foi invisível, nem todos os fracassos são espectáculo para o mundo, e nem todas as recusas são um número de circo. O desterrado é uma figura que entendo, que aceito, que me convém, a figura da retirada soberana, de um refúgio que cada um tem em si mesmo, não desligado dos outros mas hostil ao ‘colectivo’, à comunidade dos vencidos que se crêem vencedores, à gente que está em festa para esconder que não acredita em nada.
Queriam-nos, queriam-me, derrotados e expostos ao gozo da multidão. Mas não nos apanham. Já demos, já dei, o passo adentro da floresta."
Pedro Mexia
in Expresso, 30 de Julho de 2011.
domingo, 4 de agosto de 2013
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Pena e Espada
"Actualmente, vê-se um intelectual como alguém avesso ao exercício físico, afastado do comum dos mortais, imerso nos seus pensamentos e superior aos demais. Por fim, há a ideia generalizada de que se trata de alguém que recusa o envolvimento directo, a violência da acção e, em último caso, a guerra.
Regressemos aos clássicos. Na Grécia Antiga, a filosofia e o saber não estavam desligados do treino físico e militar. A maioria dos intelectuais gregos desse tempo tinha experiência de guerra. Sócrates foi hoplita e participou em pleno menos três batalhas. Ésquilo combateu em Maratona contra os persas. Sófocles foi comandante das forças atenienses na conquista da ilha de Samos, durante a Guerra do Peloponeso. Para além de filósofos, não esqueçamos historiadores como Tucídides ou Xenofonte. Já em Roma, onde muitos outros nomes podiam ser apontados, como o de César, recorde-se o famoso ‘mens sana in corpore sano’, retirado das “Sátiras” de Juvenal. A lista seria infindável, mas não se resume às civilizações clássicas.
De Cervantes, que combateu na Batalha de Lepanto, a D’Annunzio, que marchou sobre Fiume, a História da Europa está repleta de grandes intelectuais que não se negaram ao combate, que não se intimidaram perante as “Tempestades de Aço” que contou e viveu Jünger. Homens que, como o nosso Camões, levavam “numa mão a espada, noutra a pena”.
Da última vez que Portugal chamou, “vestiram-se os poetas de soldados”, como escreveu Rodrigo Emílio. Assim deve ser.
A cómoda atitude daqueles que se refugiam nas nuvens, afastados da sua terra e do seu povo, que não sentem a comunidade e não estão prontos a defendê-la, é pura cobardia, normalmente mal disfarçada de pacifismo.
O pensamento não pode ser algo estéril. Como afirmou Ezra Pound: “a única cultura que reconheço é aquela que se torna acção”."
Duarte Branquinho
in «O Diabo», 2 de Julho de 2013.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
"Lancemos um olhar a toda a volta"
"No curso dos tempos, a liberdade não ocupa muito mais instantes do que o êxtase na vida de um místico. Escapa-nos no próprio momento em que tentamos agarrá-la e formulá-la: ninguém pode fruí-la sem temer. Desesperadamente mortal, ela postula, a partir do momento em que se instaura a sua falta de futuro e trabalha, com todas as suas forças minadas, para a sua própria negação e para a sua própria agonia. Não entrará uma certa dose de perversão do nosso amor por ela? E não será aterrador dedicarmos um culto ao que não quer nem pode durar? Para vocês que já não a têm, é tudo; para nós que a possuímos, não passa de ilusão, porque sabemos que a perderemos, e porque, seja como for, ela é feita para ser perdida. Por isso, no meio do nosso nada, lancemos um olhar a toda a volta, sem descurarmos ao fazê-lo as possibilidades de salvação que em nós próprios residem."
E. M. Cioran
in "História e Utopia", Betrand Editora.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















