sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Corpos colossais e cabeças pequeninas

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"Lembram-se daqueles filmes, telefilmes e séries de televisão em que um pai e um filho vão acampar/caçar/pescar para um sítio remoto, o pai sofre um acidente que o deixa imobilizado e o filho tem de vencer os seus medos e transpor vários obstáculos naturais para ir pedir ajuda? Pois é exactamente essa a história de Depois da Terra, reciclada para um futuro distante de mil e tal anos, e disfarçada e enfeitada a efeitos especiais digitais. O cinema de ficção científica (FC) — leia-se: produzido em Hollywood — insiste em frustrar e desesperar os apreciadores da literatura do género, e agora cada vez mais, desde que os computadores parecem ter tomado o controlo das operações. Filmes como o recente Esquecido, de Joseph Kosinski, com Tom Cruise, ou Batalha do Pacífico, de Guillermo del Toro (estreia-se para a semana), parecem mais produtos de um software do que de argumentistas de carne e osso. A originalidade das histórias, a elaboração das personagens e a credibilidade científica diminuem na razão inversa do aumento da importância, da complexidade e da omnipresença dos efeitos especiais. Os filmes de FC são, cada vez mais, bisarmas microcéfalas, com corpos colossais e de aspecto sofisticadíssimo, mas cabeças pequeninas e cérebros atrofiados, apostados em proporcionar aos espectadores apenas uma experiência visual e sonora que nalguns casos se resume a agressão óptica e auditiva em jacto contínuo. Não é o caso de Depois da Terra, que faz figura de bastante contido nesses departamentos, embora o filme de M. Night Shyamalan seja, de novo, um desperdício de paisagens cósmicas, cenários pós-apocalípticos (no caso, uma Terra vazia de humanos e devolvida à fauna e à flora) e tecnologia avançada (já agora: como é que uma civilização capaz de terraformar um planeta e construir naves que saltam pelo cosmos, entre outros avanços, equipa uma tropa de elite com lanças de lâminas duplas, em vez de armas mais consentâneas com o seu desenvolvimento técnico?). Em suma, o melhor filme de FC dos últimos tempos continua a ser o modesto Moon — O Outro Lado da Lua, de Duncan Jones (2009). Feito em Inglaterra por tuta e meia."

Eurico de Barros
in "Diário de Notícias", 11 de Julho de 2013.

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