sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Entrevista com Riccardo Marchi (2/2)

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3. Existe realmente uma Direita em Portugal? Depois de 1974 passou a ser quase um crime ser de Direita e mesmo no hemiciclo o partido que se senta mais à direita diz pertencer ao Centro.

Atenção: também o Estado Novo nunca se definiu um regime de direita, pois achava perigoso e anti-nacional oficializar uma dicotomia que acabaria por dividir a unidade orgânica da nação que o regime tanto prezava. Certa hipocrisia da linguagem política é transversal a todos os regimes, qualquer seja a sua orientação e tipologia.
Em relação ao pós-25 de Abril, estava mesmo a comentar alguns dias atrás com um colega como seja engraçado o facto que todos os partidos portugueses à direita do espectro político tiveram a necessidade de incluir a denominação “democrático” no seu nome: Partido Social Democrata, Centro Democrático Português ao passo que nenhum partido de esquerda teve que fazer isso apesar de 2 em 3 (BE e PCP) estarem abertamente contra o modelo de “democracia ocidental” em vigor praticamente desde a fundação do regime democrático português. Há, como é óbvio, razões históricas sobejamente conhecidas que explicam este fenómeno, que, para além disso, não é uma exclusiva da relativamente jovem democracia portuguesa. A história da direita parlamentar do meu país (Itália) é feita de 50 anos de fuga ao rótulo “de direita” por parte das suas expressões moderadas (Partito Liberale) e de utilizo do termo “direita” por parte do partido herdeiro do Fascismo (Movimento Sociale Italiano) principalmente para evitar o rótulo oficial de “fascista”. Mais, o MSI, após ter representado por 50 anos, ininterruptamente e no parlamento, 2 milhões (4%) de eleitores fascistas, acabou com definir-se anti-fascista uma vez alcançado o poder em meados dos anos 90. Se é compreensível abandonar o rótulo de “fascista” uma vez que se passa a representar já não 4% mas 13% do eleitorado, definir-se “anti-fascista” apesar da própria história é pelo menos de mau gosto.
Esta comparação Itália-Portugal serve para sublinhar que organismos como os partidos, supostamente representantes máximos das liberdades políticas dos cidadãos, estejam há décadas reféns de condicionalismos históricos e de “ditaduras intelectuais” do politicamente correcto, contribuindo assim a desvirtuar aqueles mesmos princípios básicos que afirmam defender.
Felizmente a história das ideias (enfoque da conferência de 29-30 de Novembro) deve preocupar-se em descrever e explicar estes fenómenos sem procurar nenhum consenso eleitoral, razão pela qual posso deixar estas pruderie terminológicas aos competidores eleitorais.
Dito isto, a conferência não tem nenhum objectivo de legitimação do termo “direita”, pelo menos nas intenções do seu organizador…ou seja, eu. Francamente, do ponto de vista das ideias, nunca consegui raciocinar em termos de “legitimidade” ou “ilegitimidade”. Por outro lado, do ponto de vista da acção política, a legitimidade não a considero uma dádiva, mas uma conquista.

4. As diferenças entre Esquerda e Direita tenderão a diluir-se no futuro?

Depende do que entendem por “Esquerda” e “Direita”. Se falam dos partidos mainstream, sem dúvida as diferenças vão diluindo-se. Este é um processo já em curso há algumas décadas e acompanhou a agonia das ideologias. Para além disso, hoje em dia os decisores políticos nacionais estão cada vez mais dependentes de condicionalismos supranacionais de diferentes níveis (desde a União Europeia, à Aliança Atlântica, à ONU, etc.) em quase todas as áreas antigamente exclusivas da soberania nacional. Por essa razão os partidos que pretendam realisticamente aceder ao poder sabem a partida que têm que acatar com princípios, perspectivas, regras, normas, compartilhadas nestes patamares supranacionais. E fazem-no sem grandes dificuldades. São socializados politicamente nestes princípios e, nos cada vez mais raros casos em que não acedam à “alta política” já compartilhando estes princípios, a aproximação às esferas do poder habitua-os rapidamente a este esbatimento das diferenças.
Não se trata todavia de uma inevitabilidade finalística. Felizmente com o sistema demo-liberal não chegámos ao fim da história nem ao melhor dos mundos possíveis, razão pela qual o homem continuará a elaborar ideias políticas e a sonhar e realizar sistemas de convivência. Estas elaborações e realizações vivem amiúde acelerações repentinas devidas a momentos de crise ou oportunidades inesperadas, o que me leva a pensar que poder-se-ão criar novas dicotomias ou, melhor, novos cenários plurais refractários à convergência “catch-all” que caracteriza os nossos dias. Estes novos cenários possivelmente não se desenharão nas antigas dicotomias direita/esquerda, mas em novas sínteses, contaminações, encontros, definições: a história está cheia destas nascenças.

5. Há futuro para a Direita em Portugal?

Esta já não é pergunta da 1 milhão de dólares mas de cartomante de feira. Estou a brincar e aceito o vosso desafio. Bom, depende a que futuro e a que direita se referem. Se falam das direitas (centro) parlamentares nada leva a crer que nos próximos anos deixem de alimentar a alternância bipartidária de governo, consolidada em Portugal desde o 25 de Abril. Se se referem às direitas extra-parlamentares – partidos ou movimentos, liberais ou radicais – nada leva a crer que possam sair da marginalidade na qual sobrevivem desde a sua fundação. Se se referem às direitas intelectuais (em todas as suas vertentes) nada leva a crer que estejam, não digo empenhadas, mas nem sequer interessadas em experimentar novas sínteses nem em jogar batalhas culturais de uma qualquer envergadura. Limitam-se e limitar-se-ão a reproduzir ideias de respeitáveis mas antigas (ou velhas?) direitas sem desafiar substancialmente o status quo das ideias já há muito estabelecidas. Para parafrasear Nietzsche, não me parece que nas direitas haja muito caos interior que permita predizer o parir de uma estrela que dança. Mas, como disse antes, a história sofre acelerações repentinas geradoras de caos e estrelas. Até lá, deixo-vos a vós julgar se e quão radioso será o futuro da direita em Portugal: cada um com os seus gostos.

6. Muito obrigado pela entrevista e boa sorte na organização do seminário. Queres deixar alguma mensagem final?

Nenhuma “mensagem final”. Só um “convite inicial”: quem puder apareça nos dias 29 e 30 de Novembro. O debate animado pelo público é o que valoriza os resultados das conferências, principalmente em temas onde há ainda muito trabalho para fazer. E obrigado pela entrevista.

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