sexta-feira, 15 de abril de 2011

O mundo mergulha numa era de conflitos

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"Para quem esperava por fim uma paz generalizada, deve constituir uma ilusão voltar a pôr os pés na terra. Os conflitos armados não desapareceram com a queda do Muro de Berlim e muito menos com a entrada do milénio. Robert D. Kaplan anunciou que entrávamos num período de anarquia mundial no livro "The Coming Anarchy". Escrevia então no ano 2000: a reformulação do atlas só agora começa. As guerras, as matanças em massa, eram apenas prelúdios para o desaparecimento de países inteiros devorados por conflitos ou afundados pela economia.
É certo que os conflitos regionais se intensificaram e reorganizaram no espaço e hoje está em efervescência toda a África do Norte, que contamina o Levante. A Leste da Europa as democracias novas têm grandes dificuldades em assegurar a ordem e pode-se calcular um destino semelhante ao dos Balcãs para elas, com a agravante que se encontram nas costas do gigante russo.
O próprio gigante russo, segundo Alexander Duguine em "Le Paradigme de la Fin", aponta que o conflito de culturas não é de ignorar e que a Rússia deverá lembrar a sua natureza asiática e europeia, o que preludia pressões sobre numerosos Estado saídos da URSS na Europa.
O investigador sénior do ICS, José Manuel Rolo escreveu um estudo significativo sobre a produção e venda de armas no mundo, intitulado "O Regresso às Armas", onde explana a globalização da produção de armas, a intensificação na utilização de uma nova categoria de armas mais letais, e a operacionalização de sistemas/plataformas de armas para o desempenho de determinados objectivos. O envolvimento das grandes potências e da China neste jogo perigoso torna o mundo mais débil e a segurança uma invenção para todos.
Não foi preciso Samuel Huntington e o seu "Choque de Civilizações" para se ter a noção que a deriva do Globo era para a acentuação dos conflitos e das guerras, sem que as organizações humanitárias possam fazes mais do que já fazem, ou seja, agravá-los.
Colin S. Gray, um profícuo estratega e escritor de assuntos militares, geopolíticos e estratégicos deixou num livro o seu pensamento bem claro. Trata-se de "La Guerre au XXI Siècle. Um nouveau siècle de feu et de sang". Aqui este especialista internacional explica que o século XXI vai ser um pouco pior que o precedente. Como a natureza da guerra não muda, o nosso mundo produzirá guerras brutais como o século anterior e com a impunidade que dá a surpresa estratégica. Este conselheiro do Governo Britânico e Americano nega que haja previsibilidade de conflitos e que possa eliminar uma actividade que faz parte integrante da natureza da cultura humana. A história só pode ensinar que ele tem razão porque ela mesma narra a sucessão de guerras desde o princípio que foram refazendo a face do globo.
Podemos lamentar que assim seja, mas nem a Europa Comunitária está ao abrigo de conflitos indentitários, de disputas futuras de fronteiras contestadas desde o seu primitivo desenho. O acesso a minas, passagens na montanha, corredores para o mar, fronteiras históricas, necessidades de migração são outros tantos motivos para desencadear ofensivas que começam normalmente com os fortes absorverem os fracos e a dirigi-los para outro caminho.

Um mundo seguro?
Só nas utopias mais elegantes é que o mundo é seguro e esses mundos costumam ser grandes ditaduras. O mundo sempre foi inseguro e não há copyrights de estabelecimento permanente no Globo. Em tempos afastados Anatoli Rapoport escreveu "Fight, Games and Debates", retomado por Karl Deutsch, na sua "The Analyses of International Relations", onde o inclui num capítulo sobre teoria dos jogos e análise de conflitos, a part de outros autores como Thomas Schelling e von Neumann. Os autores entendiam que os Estados do mundo estavam num jogo de várias saídas: a colaboração ou o enfrentamento. Mas como foi provado pelo "Dilema do Prisioneiro" (A. Rapoport), as pessoas e o estado preferem a colisão directa. A primeira missão do Estado é continuar a assegurar a sua presença no jogo. Muitos Estados ao longo dos séculos até ao nosso falharam rotundamente: saíram do jogo. Outros foram repostos no jogo por entidades mais poderosas a quem convinha que estivessem no jogo: viu-se ao fim das duas guerras Mundiais e da Guerra Fria. Os Estados com mais êxito, desde que entraram no jogo, continuam no jogo somando ou perdendo pontos, até serem afastados.
Para estas tarefas de estar em jogo o Estado conta com uma elite dirigente, com a Economia e com o aparelho de força. Se aqui existirem brechas ou menor adestramento, o Estado é vulnerável a ataques e falível nas suas decisões. Se contar com uma elite dirigente de vistas curtas, pior ainda porque esta faz de conta que não tem poder ou que tem muito, passando o bluff por realidade.
Neste esquemático desenho o mundo não é seguro porque está sempre em jogo e a qualquer momentos há jogadas inesperadas, que colhem de surpresa os outros, não lhes dando tempo para pensar e reagir racionalmente. É por isso que o facto tempo, que permite escolhas pensadas, não se pode aplicar, e antes é de prever que uma elite experimentada é mais importante que imbecis com graus académicos ínfimos.
Não admira as contradições em que cai a elite dirigente, as mentiras que produz, os enganos que logra impingir, porque ela própria é enganada nos centros que frequenta e intoxicada a tomar decisões a favor de outros planeadores. E a Europa não é diferente. Talvez seja um dos mais antigos espaços em que este jogo diplomático das relações internacionais se joga por inteiro. Dá.nos conta agora em 2011 Jacques Alain de Sédouy, antigo embaixador francês e representante em Bruxelas, de um pequeno jogo em que se considerou útil existir uma Europa. Trata esse tema no bem documentado livro "Aux Origines de L'Europe 1814-1914". O facto é que ninguém deu nada a ninguém porque se tratava de punir a França e repartir despojos. Mas a França, passados anos, já reentrava no jogo europeu com outro estatuto melhorado, que aquele que lhe deixara as aventuras pesadas de Napoleão Bonaparte.
Assim tudo indica que os Estados devem cuidar-se e não esperar dos outros aquilo que precisam com urgência. Este mundo não está fundado na Misericórdia Divina, mas na racionalidade e no realismo das decisões. Ninguém dá nada a ninguém. Note-se, mesmo dinheiro, como parecem pensar os portugueses. Hoje em dia não há crédito para pagar vícios de pobres. Isso só no Estado do Alasca. Quem quiser correr o risco, peça o visto e vá para lá."

António Marques Bessa
in O Diabo, n.º 1788, 5 de Abril de 2011.

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