quarta-feira, 22 de junho de 2011

Alma

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Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!
Fernando Pessoa
A Mensagem

"As palavras intemporais do nosso Pessoa, publicadas no livro cujo título original era, recorde-se, “Portugal”, mantêm a uma impressionante actualidade. A indecisão, o alheamento, o materialismo, parecem reflectir um povo sem alma. Ou, pelo menos, um povo de alma vendida. Que se esqueceu de si próprio a troco de diversões e ilusões e, principalmente, da tentação do conforto da “gaiola dourada”. A era do todo-económico teve este efeito devastador. A crença na paz eterna e no progresso infindável fez esquecer o político, esse conceito teorizado pelo politólogo Carl Schmitt. Sem a noção do fenómeno político e da coisa pública, os governos passaram a ser obra de meros gestores, desprovidos que qualquer sentido de Estado e de Nação.

Terra
Nas celebrações do 10 de Junho, em Castelo Branco, Cavaco Silva deu especial relevo às “desigualdades territoriais do desenvolvimento, aos problemas da interioridade, ao envelhecimento e ao despovoamento de uma vasta parcela do nosso território”. Manifestações de um problema de fundo do nosso país, onde metade do território parece estar de costas voltadas para a outra metade.
Afirmando que as grandes cidades do litoral “cresceram de forma desmesurada e, mais ainda, desordenada”, reconheceu que devemos evitar “procurar replicar o litoral do país. Essa não é a opção correcta: o interior dispõe de uma identidade própria e é ela que lhe confere o seu carácter distintivo e original”. Para o Presidente da República, “importa, no entanto, não repetir erros cometidos noutras parcelas do País. O interior tem de ser um espaço em que a tradição, a Natureza e a presença humana convivam de forma harmoniosa e equilibrada”. Como se os erros tivessem sido apenas numa parte do País. A invocada “identidade própria”, no nosso caso, deve ser nacional. E há que afirmá-la. Esse, sim, é o caminho a seguir.
Outro ponto importante foi a referência à agricultura, actividade essencial para vitalidade da nossa nação, no seu imprescindível fortalecimento da ligação de um povo à sua terra. Mas poderá aquele que transformou Portugal no “bom aluno” da Europa, falar deste sector que foi vendido, tal como o das pescas, a troco de uma união económica europeia? Essa ilusão baseada nos fundos e no crédito, que nos fez crer que podíamos viver bem acima das nossas possibilidades, cuja pesada factura começamos agora a sentir.

Povo
No final do seu discurso na cerimónia do nosso dia nacional, o Presidente da República afirmou: “É Portugal inteiro que tem de se erguer nesta hora decisiva.” Uma expressão que não deixa de me recordar o título do ensaio pessimista do filósofo e historiador germânico Oswald Spengler. Acrescentou que este é “um tempo de sacrifícios, de grandes responsabilidades”. Sem dúvida, mas espera-se que seja para todos e por todos. Alertou ainda que “não podemos falhar”. Diria antes que não devemos, porque olhando para trás, para a nossa História, vemos que não seria a primeira oportunidade falhada. O nosso país parece ter, por vezes, essa infeliz característica. E concluiu: “É nestas alturas que se vê a alma de um povo”. Certo de que o nosso povo ainda tem alma – esteja ela vendida, esquecida ou simplesmente adormecida – mantenho a firme esperança que um dia renasça. Esse é o sentimento nacional que deve gerar uma vontade comum. Aí, afirmar-nos-emos como Nação secular que somos. Portugal somos nós. E nós temos que ser Portugal."

Duarte Branquinho
in "O Diabo", n.º1798, 14 de Junho de 2011.

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