segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A crise da Catalunha

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"Com o fim da Guerra Fria e da União Soviética terminou a principal confrontação ideológica da segunda metade do século XX — a que opôs o mundo comunista ao Ocidente liberal democrático. A partir dos anos 90, os sistemas políticos proclamaram-se democráticos e pluralistas e os sistemas económicos passaram a ser capitalistas.
Com este ocultar das ideologias o mundo estava de volta a Vestfália e à política centrada nos Estados soberanos. Desapareciam as grandes identidades e solidariedades ideológicas para dar lugar, outra vez, aos interesses nacionais. Mesmo a versão de identidades ideológicas baseadas na religião e na etnia — a tese de Huntington sobre a ‘guerra das civilizações’ — acaba por ceder quando os factores nacionais entram em jogo: como na Síria e nos antagonismos no mundo islâmico, entre árabes e não árabes, sunitas e xiitas, laicos e fundamentalistas.
A outra excepção — a Europa dos 28 da União Europeia — é aparente e sê-lo-á enquanto os Estados-membros mantiverem políticas nacionais e quebrem a solidariedade europeia quando os seus interesses nacionais vitais estejam em causa. Que é o que tem sucedido, sobretudo com os que podem fazê-lo — os mais poderosos.
Sem levarmos em conta isto, não podemos entender a importância que a ameaça de secessão da Catalunha significa para Espanha. A crise, reacendida depois da manifestação popular independentista de 11 de Setembro, Dia da Catalunha, e da reivindicação de um referendo para 2014, tem ocupado os media espanhóis. Isto apesar de preocupações jornalisticamente concorrentes e correctas, como a crise económico-financeira, os escândalos na família real, a corrupção dos políticos ou o caso da ‘guerra’ com a Grã-Bretanha por causa de Gibraltar.
Não é para menos. Uma separação da Catalunha significaria uma grave crise da unidade espanhola, qualquer coisa comparável, embora de outro género, ao fim do Império com a guerra de Cuba e das Filipinas em 1898, à derrota de Annual em 1921, ou mesmo à crise que levaria à guerra civil em 1936. Embora os tempos sejam outros, um fragmentação deste tipo atingiria profundamente a Espanha tal como ela se vê e se sente.
A questão é séria: há um número muito significativo de catalães que não se contentam com a ampla descentralização e autonomia de que gozam no quadro da Constituição espanhola e querem ter um Estado próprio, soberano. O número cresceu nos últimos 30 anos, devida a uma estratégia separatista discreta dos governos da Generalitat de Jordi Pujol e seus sucessores, a Convergência e União, muito eficaz por exemplo quando tornou o catalão a língua veículo do ensino na região, ou quando criou instrumentos financeiros e económicos a pensar na independência.
As últimas notícias referem o acordo entre os dois ramos independentistas – a Convergência, de centro-direita, e a ERC de esquerda, para realizar o referendo em 2014. Em contrapartida o Governo do PP, com o apoio crítico do PSOE, pensa parar o processo por via legal, no Tribunal Constitucional, esperando que as divisões entre os independentistas ajudem a adiar ou a evitar a ruptura.
Mas a Espanha está no fio da navalha."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 4 de Outubro de 2013.

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